Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Irene Ravache volta à TV no papel de uma vilã

Atriz conta que maquiagem e figurino a ajudaram a compor sua malévola personagem, em 'Além do Tempo'

Entrevista com

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2015 | 05h00

Aos 70 anos, Irene Ravache coleciona importantes personagens no teatro, cinema e TV. Dos trabalhos mais recentes, no ano passado, ela conduziu, ao lado do ator Dan Stulbach, uma temporada de grande sucesso, da estreia ao encerramento, da peça Meu Deus!, no papel da psicóloga Ana, que recebe em seu consultório nada menos do que Deus para uma sessão de terapia. No cinema, a atriz pôde ser vista em três momentos: Entre Abelhas, Irmã Dulce e Os Homens São de Marte... E É Pra Lá Que Eu Vou. “São completamente diferentes todos eles. Às vezes, não tenho chance de fazer cinema, de estar livre para o papel, e calhou de eu conseguir um pouquinho mais de espaço”, diz ela, em entrevista ao Estado

Na televisão, Irene volta ao ar a partir de amanhã, com a estreia da nova novela das 6 da Globo, Além do Tempo, de Elizabeth Jhin, na pele da temida condessa Vitória Castellini. Será a primeira grande vilã da atriz. “Já fiz personagens que depois até viravam vilãs. Há muito tempo, fiz uma novela chamada Simplesmente Maria (1970). Eu era a vilã (Inês), e a boazinha era a Maria, vivida por Yoná Magalhães. Atuei ainda, na TV Record, em Marcas da Paixão (2000), em que ela também não era boa coisa, mas não era assim como essa.”

Mais uma incursão da autora pela temática espírita - como já havia feito em folhetins como Amor Eterno Amor (2012) e Escrito Nas Estrelas (2010) -, a nova novela será divididas em duas partes, sendo que os personagens da primeira fase reencarnam na segunda, 150 anos depois. A trama situa-se inicialmente no século 19, na cidade fictícia Campobello, região sul do Brasil. Nessa pacata e bela região, encontram-se casas modestas, pequenos vinhedos e um casarão. 

É o cenário perfeito para a história de amor entre Emília (Gabriella Di Grecco/Ana Beatriz Nogueira) e Bernardo (Bernardo Marinho/Felipe Camargo), filho único da condessa Vitória, que não aceita essa relação. Por causa dessa rejeição, o amor é interrompido de forma trágica. Condessa deixa a cidade e volta anos depois, com seu sobrinho-neto Felipe (Rafael Cardoso), único pelo qual a vilã tem algum sentimento. 

Mas, pelas artimanhas do destino, Felipe vai se apaixonar por Lívia (Alinne Moraes), de origem humilde, filha de Emília e Bernardo - cuja existência Vitória desconhece. Um amor que também vai enfrentar obstáculos e atravessar gerações, até os dias atuais. E que, mais uma vez, terá a interferência nefasta de Vitória. 

Foram meses de preparação do elenco. Tudo começou no Rio e, só depois, os atores partiram para o Sul do País. Irene Ravache diz que o trabalho proposto pelo preparador de elenco Eduardo Milewicz foi uma “experiência vantajosa”, algo novo para ela. “A primeira coisa que ele fez, de cara: ele ‘amarrou’ o grupo, como se fôssemos um grupo de teatro que trabalhasse há muito tempo junto. E faz isso por meio das propostas que vai colocando, exercícios, de uma forma muito natural e, quando você vê, já pertence àquele grupo.” Com preciosa ajuda de maquiagem e figurino, a atriz afirma ter construído sua malévola condessa Vitória da primeira fase da novela. 

Você fará a condessa Vitória em Além do Tempo, que será dividida em duas partes.

Sim, mas vou dizer a você o que falei para a própria autora, a Elizabeth (Jhin): peguei a segunda fase e guardei na gaveta. Recebi uma sinopse, não quis olhar.

Qual o motivo?

Porque, às vezes, a gente pode ficar influenciada. Não sei se ela volta boa, se ela volta igual. Ela é muito rica, não sei se volta pobre. Quero ter surpresa também. Quando estiver chegando perto, aí vou dar uma espiada. Acredito que a gente tenha outros encontros, porque são duas novelas diferentes.

A condessa é a grande vilã da história, pelo menos nessa primeira fase, não?

Sim. E, como se passa no final de 1800, além da vilania, ela tem uma austeridade muito grande. O semblante é muito fechado. Está sempre de preto, porque está de luto. Isso é uma coisa que confere a ela um ar mais sisudo ainda. Ela gosta de quem lhe interessa. Tem um momento no texto que ela diz para o sobrinho: ‘se me sobrou um mínimo de capacidade de amar, foi a você que dediquei’. Ela é de gostar de poucas pessoas. Você fica sabendo desde o início que a condessa é capaz de atitudes muito cruéis, inclusive de mandar matar. 

Como se prepara para um papel como esse?

Esse é um tipo de papel muito de fora para dentro, porque tem um preparo de maquiagem. Acho que eles compuseram o personagem para mim. É maquiador, cabeleireiro, figurinista, tem cenas que faço com flashback também. Tenho mais ou menos uma ideia do que quero fazer, aí vou atrás deles. Isso foi fundamental. Como era a cara dela, o jeito dela.

 

A novela trata de espiritismo...

É, ela tem esse mote, esses personagens reencarnam, o que seria a segunda fase. Agora, como é que eles virão? Isso que eu não quis saber. Dentro mais ou menos do que a gente tem ideia, se você não teve uma boa conduta, vai reencarnar para tentar melhorar. Então, imagino que essa condessa vai ter de resgatar alguma coisa. E que as pessoas não voltam exatamente como elas eram. 

Acredita em reencarnação?

Não, eu gostaria. Não acredito, e não é assim por uma convicção. Não acredito como também posso acreditar. Se tiver, eu vou saber lá (risos), alguém vai me dizer. Vou estar lá naquela plataforma e alguém vai dizer ‘ô lá, viu, tinha’. Ou, então, vai dizer: ‘acabou, não vai ter mais nada’. Penso que não depende de eu acreditar ou não o que está para acontecer. A gente só vai saber na hora que acontecer mesmo. Ou até não saberemos também. Isso sempre foi um pensamento meu: isso não é meu assunto, se fosse para ser meu assunto, estava muito bem explicado.

Ou seja, você não é ligada a religiões, doutrinas?

Não, não é da minha alçada. Isso não pertence a mim.

E sempre se sentiu assim?

Olha, fui criada na Igreja Católica Apostólica Romana, fiz a primeira comunhão, tudo direitinho, como uma mocinha na minha época faria. Aí comecei a ter algumas incertezas: acho que a história está meio mal contada, talvez seja outra coisa. Como são muitas indagações, optei por dizer assim: ‘isso não é da minha conta’.

Você está na TV, recentemente no cinema e acabou de sair de uma temporada bem-sucedida no teatro. Em Hollywood, vimos as atrizes reclamando que as mulheres mais velhas não estão conseguindo papéis adequados. Como é a situação aqui para as atrizes, como sente isso?

Acho que não sou boa para falar sobre isso. Nunca parei de trabalhar, e nunca me vi não tendo papéis bons. Mas acredito que isso realmente aconteça porque o mundo é jovem. Não tenho nenhuma mágoa, bronca, é uma constatação. Em algumas outras áreas, experiência conta, mas, nessas áreas ligadas a marketing e show business, aí a juventude marca um ponto bem grande. Acho que o novo, como diz a música, sempre vem, e não acho ruim que venha, não. Acho só que não precisa ser desrespeitoso.

O beijo do casal Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg no primeiro capítulo de Babilônia causou polêmica. Em entrevista, Gilberto Braga acredita que o Brasil hoje está mais careta, e Marieta Severo vê um conservadorismo. Você acha que o País encaretou? Andamos para trás?

Não acho que a gente tenha andado para a frente em nenhum momento. Acho que somos isso mesmo, somos muito conservadores: 'é bacana ali, mas com minha filha não'; 'sou a favor dos direitos dos gays, desde que não seja com meu filho'. Me parece que é assim, não vi grandes mudanças nisso, não. E quer dizer que um personagem que mata, que é extremamente vilão, perigoso, ele pode? Mas isso não é de agora. Fiz uma novela do Silvio de Abreu, Passione, e ninguém podia ser pior do que a personagem da Mariana Ximenes. Caráter zero. Matava, botava fogo. E as pessoas escreviam para o Silvio pedindo para ele deixá-la terminar (a novela), que estava tão boazinha, tão linda. E ela não se redime, é ruim de marré-de-si. Aí você começa a entender algumas coisas do brasileiro, olha como somos esquisitos.

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