Nick Wall/Netflix
Nick Wall/Netflix

Fernando Coimbra estreia sexta-feira, na Netflix, seu longa 'Castelo de Areia', sobre a guerra

Diretor diz o que o atraiu no roteiro de Chris Roessner

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 Abril 2017 | 05h00

É a pergunta que não quer calar. Como Fernando Coimbra virou diretor internacional e saiu do interior de São Paulo - Ribeirão Preto - para fazer, para a Netflix, um filme sobre a Guerra do Iraque que estreia nesta sexta, 21, no Brasil? Quando esteve na redação do Estado, na semana passada, para conversar com o repórter - o vídeo está disponível na TV Estadão -, o filme ainda não havia ido ao ar nos EUA. Coimbra contou sobre o factual, mas estava mais interessado no olhar do outro. Ainda não tinha distanciamento suficiente para falar criticamente de Sand Castle, Castelo de Areia. Mas ele sabe sobre o impulso que está sendo para sua carreira dirigir os astros das franquias X-Men e Superman, Nicholas Hoult e Henry Cavill, ambos britânicos.

De Ribeirão para o mundo - “Lobo Atrás da Porta teve uma vida em festivais dos EUA e repercutiu muito bem.” Coimbra refere-se ao drama, com elementos de thriller, que fez com Leandra Leal em 2013, sobre mulher que sequestra e mata a filha do ex-amante. “Tive encontros com agentes e produtores, que me enviaram alguns roteiros, entre eles o de Castelo de Areia.” No intervalo, Coimbra dirigiu episódios (dois) de Narcos, que ajudaram bastante. “Mesmo que não soubesse disso, as cenas de ação de Narcos estavam me preparando para Castelo.” O filme começa com uma típica cena de guerra, um tiroteio pesado em Bagdá, quando a unidade de Nicholas Hoult - o personagem chama-se Matt Ocre - é presa num fogo cruzado, e prossegue quando o grupo tenta reconstituir uma estação de água num vilarejo.

O roteiro é assinado por Chris Roessner, que se inspirou na própria experiência de soldado no Iraque. Quando Coimbra recebeu o ‘scriot’, Hoult, como dizem os norte-americanos, já estava ‘on board’, contratado. “Isso é muito comum. Produtores independentes em geral precisam de aval para viabilizar seus projetos. O sucesso de Nicholas em X-Men e Mad Max - Estrada da Fúria, fez dele um nome forte na indústria. Henry (Cavill) se interessou, quis fazer o papel do Capitão Syverson e também se integrou.” Na ficção de Castelo, Cavill faz o oficial poderoso, visto pelos olhos do garoto. Isso lhe confere uma dimensão meio mítica, mas um tanto cínica, também. O repórter arrisca - o tema embutido no filme lembra John Huston. A validade do esforço e a inevitabilidade do fracasso. A futilidade da guerra - todo o esforço para reconstituir a estação de água só dura até o próximo ataque. Algo como o mito grego de Sísifo. “Você é que está dizendo. Por enquanto, só ouço”, diz Coimbra.

Chris Roessner gosta de dizer que teve o ‘insight’ para escrever Sand Castle, Castelo de Areia, numa noite em que, como soldado, estava de guarda no palácio de Saddam Hussein, em Bagdá. Fernando Coimbra, diretor do telefilme que estreia sexta, 21, na Netflix, está contando a gênese de sua aventura norte-americana. “Chris viu o DVD de Platoon no laptop. Ele já sonhava com o cinema, mas ali, naquele momento, se convenceu de que era o que queria fazer.” Platoon, só para lembrar, conta a experiência do diretor e roteirista Oliver Stone no Vietnã - e recebeu os Oscars de filme, direção, montagem e som. Stone filmou o próprio batismo de sangue, contando como um garoto patriota perdeu a inocência no campo de batalha. A visão de Coimbra/Roessner vai em outra direção. “O que me atraiu de cara foi que não se trata da típica odisseia de guerra de Hollywood.”

E o diretor prossegue - “Gostei do personagem porque ele não tem nenhuma motivação patriótica inicial. Vai para a guerra para ganhar dinheiro e pagar a universidade, quando voltar. Não quer matar ninguém nem se vingar pelo 11 de Setembro. Sua jornada não é a do herói de guerra.” E isso não é nem um pouco frequente na produção dos EUA. Esse foco já havia antes da entrada de Coimbra e foi o que motivou os atores, Nicholas Hoult e Henry Cavill, mas ele admite que, sim, fez alguns ajustes no roteiro de Roessner. Na sequência de Castelo de Areia, Coimbra já dirigiu Narcos 3 - ficou fora do 2 justamente por seu comprometimento nesse filme. Narcos 3? E...? “Só posso dizer que o (Pablo) Escobar morreu”, brinca o diretor. E não adianta insistir, porque nada mais se tira dele. O lançamento será objeto de uma campanha internacional. Toda discrição é pouca. Seu próximo projeto o trará de volta ao Brasil. Com produção da Gullane Filmes, como Lobo Atrás da Porta. Uma história ambientada no Rio, sobre corrupção e violência. “Escrevi o filme antes que todo esse mar de lama viesse à tona. Agora vai dar a impressão de que a ficção corre atrás da realidade.” 

Como tem sido para Coimbra acompanhar a distância tudo o que ocorre no Brasil? “Por um lado é bom estar imerso no trabalho, num outro contexto. Todas essas informações chegam residualmente. Mas é uma coisa que não acaba nunca. Cada dia é uma novidade. Durante todo esse processo, vim ao Brasil algumas vezes, fiz passeatas. O negócio é acreditar que, de tudo isso, surgirá um País melhor.” Já que a parceria dele com Leandra Leal foi tão boa em Lobo Atrás da Porta, ela estará na próxima ficção brasileira de Coimbra? “Não, mas com certeza quero voltar a trabalhar com Leandra. Ela é maravilhosa.”

 

Corte de cabelo aqui, palácio ali, são muitos problemas 

Houve um momento em que a grande preocupação de Fernando Coimbra, o diretor brasileiro de Castelo de Areia, era o cabelo de Henry Cavill. “Ele quis fazer o filme justamente porque lhe oferecia uma alternativa a Superman, mas nossa filmagem ocorreu entre duas produções com o super-herói. E como ele interpreta um militar, era necessário que cortasse o cabelo, mas isso não podia interferir com o cronograma dele.”

Coimbra não poupa elogios a Cavill. “Ele é muito focado, e o melhor de tudo é que o filme conta a história de um pelotão. Henry se entrosou com Nicholas (Hoult) e com o restante do grupo. No hotel, entravam pela madrugada como um típico grupo de amigos que, pela manhã, iria partir para o combate.” Nicholas Hoult, até por estar no projeto desde o começo, era o mais entusiasmado. Só para lembrar, é o ator que faz a Fera/Hank McCoy em X-Men e Nux em Estrada da Fúria. “Quando começamos a filmar, ele vinha de uma temporada de seis meses filmando com George Miller (diretor da série ‘Mad Max’) no deserto da Namíbia.”

Hoult trocou um deserto pelo outro. “Por causa da logística e segurança, filmamos na Jordânia, buscando o máximo de similaridade com o Iraque.” Ao contrário de Narcos, que teve Lula Carvalho como diretor de fotografia, a equipe técnica agora era 100% americana. “Todos grandes profissionais.” Uma locação particularmente complicada foi o palácio (fictício) de Saddam Hussein. “O que parece um só lugar é a soma de várias locações.”

 

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