Helvio Romero/Estadão
Helvio Romero/Estadão

'Esquenta!', com Regina Casé, passa por reformulação e retorna em formato de temporadas

Apresentadora conversou com a reportagem do 'Estado' em um hotel em São Paulo

Entrevista com

Regina Casé

Gabriel Perline, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2016 | 16h00

A obviedade esfriou o Esquenta!, programa comandado por Regina Casé desde 2011, na Globo. Criado com o objetivo de antecipar as comemorações do Carnaval e mostrar na TV a cultura popular brasileira, o formato original se descaracterizou no momento em que a emissora decidiu fixá-lo na grade. Ganhou quadros, games entre artistas e uma linearidade que não lhe cabia. O resultado é história: deixou a programação em dezembro de 2015.

“No momento em que viramos ‘de grade’, não paramos para pensar como transformar um programa de Carnaval em um programa para durar o ano todo”, disse Regina. “Ficamos felizes pelo reconhecimento, mas percebemos que precisava mexer no formato. Achávamos que dava para consertar o avião com ele andando.”

Os dez meses fora da grade ajudou Regina e sua equipe a reformular o Esquenta!. A partir de domingo (16), ele retorna à Globo, e retoma a proposta inicial de produção por temporada. Esta terá 11 episódios. Além disso, a dinâmica mudou e resgatou o DNA de Regina como apresentadora: viajar o Brasil em busca de boas histórias.

No entanto, segue como um programa de auditório. Arlindo Cruz, Mumuzinho, Péricles e Xandy de Pilares seguem na liderança da bagunça musical no palco, que deixa de ser ‘abraçado’ pela arquibancada e ganha a configuração de boca de cena. 

Cada episódio contará a história de uma família. Regina primeiramente grava os números musicais em seu estúdio e depois viaja para a cidade de seus convidados anônimos. Do sofá da casa deles, assiste ao programa junto com a família da semana e promove uma conversa em dois tempos, interagindo com os entrevistados de dentro da televisão e ‘ao vivo’, em suas próprias casas.

“Aquele Esquenta! não tinha a ver com a gente. A gente sofreu, o público percebeu que não tinha a nossa cara, e fomos perdendo o DNA. Agora, não só recobramos o DNA, como trouxemos de volta o Programa Legal (1991), o Brasil Legal (1995), e o Minha Periferia (2006). Juntamos isso com o bom e velho Esquenta!”, diz.

Regina conversou com a reportagem do Estado em um hotel em São Paulo, durante o intervalo das gravações de seu programa. Confira a seguir os melhores momentos:

Em que momento você notou que era necessário mexer no formato do programa?

O Esquenta! foi idealizado para o Carnaval. No momento em que viramos ‘de grade’, não paramos para pensar como transformar um programa de Carnaval em um programa para durar o ano todo.

E aí começaram a entrar alguns quadros, certo?

Exato. Ficamos felizes pelo reconhecimento, mas percebemos que precisava mexer no formato. Achávamos que dava para consertar o avião com ele andando. Várias direções foram apontadas. Inserir quadros foi uma delas. Ouvimos milhões de solicitações e sugestões, que tentamos acatar, até porque a gente não tinha a menor experiência em auditório. Quando fomos para o auditório, chegamos a perguntar se ia dar certo, porque somos da rua. Amei o auditório, mas não teve um dia que nossa equipe não sentisse saudades de Belém, das florestas, de ir para o sul... Estávamos desanimados e a viagem nos reanimou.

A cobrança por audiência te abalou?

É difícil separar o joio do trigo. Acabei de apresentar esse programa para a Globo e eles adoraram. E fiquei mais apavorada, porque quão melhor estiver, mais diferente ele é daquele horário. Fiquei insegura.

Mas você ainda transita pelo ambiente familiar, que é o foco da programação de domingo.

Mas eu fiquei insegura. Aí a diretoria me disse que a audiência era uma questão dela, e que a minha obrigação era fazer um bom programa e que este estava excelente. Aquele Esquenta!, que eu acho que ficou tristinho, buscando fazer quadros e games, não tinha a ver com a gente. A gente sofreu, o público percebeu que não tinha a nossa cara, e fomos perdendo o DNA. Agora, não só recobramos o DNA, como trouxemos de volta o Programa Legal, o Brasil Legal, e o Minha Periferia. Juntamos isso com o bom e velho Esquenta!.

A dinâmica, agora, é outra. Você se assiste na TV junto com as pessoas que está entrevistando...

É quase matemático. Vejo os vídeos das famílias que se inscreveram e das famílias que foram encontradas pela frente de pesquisas. Dali, escolhemos algumas, gravamos no auditório, ponho na mala e viajo até Belém do Pará e assisto na casa de uma família de judeus ortodoxos. O mais legal é que recobramos um tesão, pois criamos um formato original. Se bobear, podemos até vender. 

Uma das marcas do Esquenta! é falar sobre a cultura popular e mostrar a vida da periferia carioca. Isso será mantido?

A intenção do programa nunca foi mostrar a periferia carioca, mas mostrar a cultura popular e dar espaço para um tipo de cultura que não é considerada alta. Basta ver que a música mais popular não é MPB, porque a MPB beira o erudito. 

Por que surgiu esse estigma de que o Esquenta! é um programa sobre a periferia?

Acho que o fato de o samba ser feito por pessoas negras e que vieram da periferia criou essa marca, uma imagem errada, limitadora e que o programa não merece, porque é muito diverso e misturado. Tem pouquíssimos negros na TV. Se a população do Brasil tem 53% de negros e pardos, eu acho justo que no meu programa tenha pelo menos 53% de negros e pardos, tanto na equipe, no palco, quanto na plateia.

Na reestreia você debaterá a adoção e a gordofobia. Há algum tema que não cabe no Esquenta?

Nessa família que a gente fez em Fortaleza, um dos filhos tinha sido assaltado e aconteceram coisas terríveis com ele. Se fosse fazer um daqueles programas ‘mundo cão’, teria um prato cheio, mas não posso botar isso na TV em pleno domingo, ao meio-dia.

A programação de domingo da TV está com uma dinâmica muito parecida em diversos canais. Personagens desconhecidos contam suas histórias tristes, e ganham uma ajuda no final...

Você pode emocionar sem ser ‘mundo cão’, pode trazer uma história bonita sem apelar para uma coisa triste. O que muitos procuram incitar para aparecer na TV, jogamos fora. Temos cuidado para que não seja ruim para o personagem. Claro que queremos fazer um programa que dê audiência. Sabe o que pode mover a gente? O amor, a curiosidade e a vontade de chegar nas pessoas. É tão emocionante viver isso. 

Mais conteúdo sobre:
Regina Casé Televisão

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.