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Entrevista: David Duchovny volta a viver Fox Mulder, de ‘Arquivo X’, e se lança como autor de ficção

Durante gravações da série de TV ‘Aquarius’, ator fala sobre retorno ao papel de Fox Mulder e livro de estreia

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Pedro Antunes

22 Janeiro 2016 | 06h00

David Duchovny está na Califórnia e, do outro lado da linha, se mostra sob a persona do escritor. Não está diante das câmeras, contudo, assim como em nada lembra Hank Moody, o autor disfuncional vivido por ele durante sete anos na série Californication. Duchovny, enfim, pode se chamar de escritor na vida real também. Com Holy Cow: Uma Fábula Animal (Record), ele se lança de vez no mundo da literatura, com o qual flertou durante a faculdade, em Princeton, e o mestrado em Yale, como roteirista de algumas séries e filmes no qual atuava e como o seu segundo mais famoso personagem na TV. Com o livro, Duchovny nos leva aos impensáveis e surreais pensamentos de uma vaca. A bovina em questão, Elsie Bovary, parte para uma jornada para fora da fazenda onde vive acompanhada por um porco judeu e um peru que sabe operar um iPhone com o bico.

Duchovny se divide entre os quatro mais recentes projetos. Encontra tempo entre as gravações da segunda temporada da série Aquarius, em Los Angeles, para falar com o Estado sobre a primeira aventura literária. Ano passado, ele se lançou como músico, com o disco Hell Or Highwater, cujas 12 corretas canções são um encontro do folk do Wilco com o R.E.M., embora sem tanto talento. E, nesta segunda-feira, 25, o mundo terá a chance de vê-lo novamente como Fox Mulder, com o retorno de Arquivo X em uma temporada de seis episódios (aqui, exibido pela Fox).

Entre Mulder e Moody, Duchovny está mais para o segundo, embora deixe escapar, aqui e acolá em um papo de pouco mais de meia hora, uma vontade de acreditar em situações mais impossíveis tanto quanto Mulder, como na possibilidade de que Arquivo X possa continuar a existir em temporadas curtas como a atual – e, por essa, nem o mais crédulo dos fãs poderia imaginar.

Senhor Duchovny, confesso que não imaginava que essa entrevista ocorreria uma semana antes da estreia do retorno do Arquivo X. Como está sua agenda nos últimos dias?

Pois é, para você ter uma ideia, estou na Califórnia, filmando a segunda temporada de Aquarius. É uma loucura fazer isso tudo ao mesmo tempo. E ainda estou fazendo mais música, o que gasta muito do meu tempo.

Mas há uma diversão aí, não? Ou não faria sentido.

Sem dúvida, sem dúvida, embora eu esteja mais ocupado do que gostaria. Mas fazer as coisas não é tão trabalhoso. O problema é quando começo a falar sobre esses projetos. Isso, sim, dá mais trabalho (risos).

Você sempre flertou com a literatura, estudou, escreveu alguns episódios de série e um filme. De onde vem esse interesse?

Bom, meu pai era escritor. Ele lançou o primeiro livro dele em 1972 e morreu três anos depois. Tinha outros empregos, para pagar o aluguel, mas sempre se disse escritor. Então, de alguma forma, a literatura sempre fez parte da minha vida. Antes de eu pensar em que direção tomar na vida, já escrevia.

Por que, então, lançar o primeiro livro apenas agora?

A ideia de lançar um romance está na minha cabeça há muito tempo. Desde antes de ser ator. Não sabia qual forma. Escrevi algumas poesias. Depois, fiz roteiros e coisas do tipo. Mas é tão difícil fazer essas coisas de TV e cinema finalmente acontecerem, entende? É uma grande máquina. Um romance, não. Estava sentado na minha casa em Nova York, com tempo livre enquanto esperava meus filhos se arrumarem para ir para a escola e pensei: “Se quiser fazer, é agora”.

E, dentre todas as ideias de romance, você decidiu dar voz a uma vaca, é isso?

Basicamente, sim (risos). Mas acho que foi acertado. Quero dizer, tenho várias ideias, mesmo. Tenho um novo livro, que deve sair em abril, mais adulto e contemporâneo. Foi muito libertador começar dando voz a esse animal, usar de literatura fantástica. Em vez de me preocupar em criar O Grande Romance Americano, eu me coloquei na posição desse animal.

O senhor agradece aos seus filhos no fim do livro, como sua plateia imaginária. Como isso ajudava ou colocava o limite?

Entendo o que você quer dizer, mas a minha ideia é outra. Acho que tudo o que faço é falar com eles. Digo, é o pai deles que está ali. Qualquer projeto que termino, é um lugar onde eles podem me procurar e ali estará o pai deles. Em qualquer momento, no futuro, se eles quiserem, podem me encontrar.

Seu agente pediu para que não falasse de Arquivo X, mas na terça, 19, assisti ao primeiro episódio desse retorno. Já assistiu? Como foi se ver como Mulder?

Assisti. Foi interessante, acho. Ver a gente (ele e a coestrela Gillian Anderson) ali de novo é esquisito. Vai ser para os fãs também. Ainda acho uma boa série, acho que as pessoas vão gostar.

O Mulder era conhecido pela frase: “Eu quero acreditar”, mas nem o mais ardoroso fã da série acreditava no retorno de Arquivo X após o filme de 2008, certo?

Você tem razão. Pensávamos se faríamos um novo filme ou não. O certo é que ninguém iria encarar uma nova temporada de 24 episódios. Mas a TV mudou. Fizemos seis episódios. E acho que pode ser um novo começo.

Bom, você já lançou um livro, gravou um disco, fez sucesso em duas séries diferentes, se aventurou no cinema. É possível dizer que você conseguiu esgotar toda a necessidade artística, não?

(Risos) Eu, de fato, não penso que tenho mais algo a oferecer. Quero dizer, gostei de fazer música e vou continuar. Assim como ficção, quero me manter escrevendo. Acho que quero fazer mais filmes pequenos, afinal ainda gosto de atuar, mas dirigir mais longas é algo que gostaria de fazer. Quero dizer, se esse projeto conseguir me encontrar em meio a tudo isso.

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