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Entrevista. Aguinaldo Silva

Com ibope da novela das 9 abaixo da meta, Globo acelera substituta

Em 'Império', Aguinaldo Silva promete agilidade: 'as pessoas não suportam cenas longas'

Cristina Padiglione

02 Junho 2014 | 02h 00

João Cotta/Divulgação
Aguinaldo Silva recebeu a reportagem do Estado para sua primeira entrevista sobre a novela "Império"

Setenta anos quase feitos – a data se completa no sábado, com festa em Lisboa – Aguinaldo Silva já deixou seu apartamento em Copacabana e o mar à sua frente para cruzar o Atlântico. Vai fugir da Copa. Busca sossego em Lisboa, onde tem casa, para escrever as linhas que ocuparão o horário nobre a partir de 21 de julho, no lugar de Em Família. Império, título do folhetim a seguir, segue o gênero novelão.

O argumento parte da disputa do poder em família e o elenco reserva duas grandes vilãs – Lilia Cabral e Drica Moraes. José Mayer, quase um talismã do autor em suas novelas, fará seu primeiro gay. A mocinha será missão para Leandra Leal.

Antes de partir, Aguinaldo recebeu o Estado para sua primeira entrevista sobre Império, em seu apartamento, cercado pelas obras de arte que coleciona quase compulsivamente. Uma tela de Oswaldo Teixeira, de 1925, comprado por ele em leilão e restaurado pelo filho do pintor, domina o ambiente, ocupando uma parede inteira. Eis um resumo da nossa prosa.

Qual o ponto de partida da vez?

É a história da luta pelo poder dentro de uma família que saiu do nada. O chefe da família recebeu uma comenda do governo e é respeitosamente chamado de comendador. Aliás, eu também recebi uma comenda do governo, mas não fui lá buscar porque eu estava viajando e a Marta (Suplicy, ministra da Cultura) ia me entregar e não me entregou. Na novela, esse homem, em algum momento, vai entregar o poder a um dos três filhos – dois homens e uma mulher –, e a favorita dele é a moça. Isso gera uma tensão porque a esposa tem outro favorito, o filho mais velho. É poder e paternidade, e como a posse e os bens influem na felicidade de uma família. É um novelão, um folhetim à moda antiga, devidamente reciclado.

O que quer dizer ‘reciclado’?

Tem que ter rapidez, não pode mais fazer cenas longas, que as pessoas não suportam mais. Nenhuma cena pode ter mais que uma lauda e meia. Na época do Roque Santeiro, cheguei a escrever cenas de seis laudas, entre a Porcina e o Sinhozinho. Hoje, se você fizer isso, levanta todo mundo pra fazer xixi. Então, a linguagem é mais ágil, mas as tramas prevalecem. O segredo da novela é esse: prevalecem as histórias, os escândalos, os bochichos.

Quem é esse comendador?

É o Alexandre Nero, que vai fazer um personagem mais velho que ele. Claro que ele vai ser envelhecido porque é pai de três pessoas adultas. Casou com Lilia Cabral, uma mulher um pouco mais velha que ele, porque ele era um Zé Ninguém que enriqueceu e precisava ter prestígio social. E ela é uma paulista quatrocentona, com direito a sotaque. Na época em que eles se casaram, ela não era Lilia, era a Adriana Birolli, e ele era o Chay Suede.

Vai ter flashback ou fases distintas, como Em Família?

Eu usei um truque: começo no presente, com pais e a filha chegando ao Monte Roraima, onde ele tem uma história meio mágica, mas quando eles chegam lá, dá um flashback que dura três capítulos. No quarto capítulo, a gente volta à atualidade, mas ainda não ao presente. O flashback só acaba no capítulo 5.

E agora teremos gay caricato?

Temos três gays na novela, e gosto de escalar héteros pra fazer gay. Tem o Zé Mayer, que é muitíssimo bem casado, ele é cerimonialista, organizador de festas, tem dois filhos, já adultos, mas tem uma vida secreta. Tem um amante há anos, só que a mulher dele sempre soube e é muito feliz com ele. Isso acontece muito. Até que um dia ele encontra um amigo de infância que também é gay, que acha um crime que alguém se esconda dentro do armário, e como o outro se recusa a sair, ele denuncia. O cara é um blogueiro. O mundo dele desaba. A única pessoa que não o abandona é a esposa. O filho mais velho (Joaquim Lopes) tem um restaurante, porque toda novela minha tem que ter um restaurante, e ele é homofóbico. 

Quem são os outros gays?

Temos um cabeleireiro, Shana Summer, que é o Ailton Graça. Ele é uma espécie de líder comunitário, que cuida das pessoas. E o terceiro é o blogueiro do mal, o Paulo Betti.

O blogueiro do mal é inspirado em alguém?

Não, talvez, um pouco em mim (risos).

Você se considera maldito?

Não, mas às vezes sou meio impaciente. Quando passei dos 65 anos, eu disse, ‘agora chega, chega de ficar fazendo média, vou falar o que me vem na cabeça’, e aí, às vezes posso ser grosseiro. Outro dia teve uma reunião aqui, não vou dizer com quem, e nesse dia eu estava nos cascos. Além de tudo, estou de dieta, porque pra ir pra Portugal tem que emagrecer uns 3 quilos, senão você chega lá e vira um monstro (risos). Então eu disse: ‘por favor, senhores, estou de dieta, estou muito impaciente, e se eu for grosseiro, por favor, entendam e relevem’. A partir daí, pude falar tudo o que queria (risos).

Acredita que comprou inimizades nesse período?

Na internet, tenho muitos inimigos. Havia um consenso de que minhas novelas eram horríveis, não de imprensa. Aí descobriram que dá audiência. Então dizem: ‘as novelas dele dão audiência, mas são horríveis’.

As novelas atuais sofrem de uma queda de audiência. O público está muito insatisfeito ou há uma decadência do gênero?

Acho que as pessoas continuam vendo novela desesperadamente, só que não veem mais na televisão. Elas veem no computador, no telefone... Acho que o termômetro atual está nas redes sociais. Quando você entra no Twitter e quatro personagens de uma novela estão entre os assuntos mais tuitados, é um indicador. As novelas continuam sendo vistas, a maneira de ver é que mudou.

Mas há uma distância entre os números de Em Família e Avenida Brasil ou Fina Estampa.

Acho que isso acontece, às vezes, talvez porque Fina Estampa e Avenida Brasil fizeram tanto sucesso, que tem um refluxo, isso é normal. Espero que agora a gente tenha uma volta.

O universo online será contemplado na novela?

Vai ter o blogueiro. E botei uma cena que me deixou muito impressionado: uma vez fui jantar na casa da Lilia Cabral e tinha a filha dela com uma amiguinha, adolescente, 14 ou 15 anos, e notei que o tempo todo elas ficavam teclando e mandando mensagens. Pergunto: ‘pra quem elas tanto mandam mensagem?’ E o marido da Lilia falou: ‘ué, mandam uma pra outra, elas estão conversando’. Botei isso na novela.

O que mais vem da vida real?

Vi na Veja Rio que uma das Monteiro de Carvalho faz serviços sociais na favela. A neta do comendador vai fazer isso também. Grande parte da novela se passa em Santa Tereza, onde morei dez anos. É um dos lugares mais bonitos do Rio. É claro que não vou fazer de Santa Tereza um Leblon, como o Manoel Carlos fez, mas como Santa Tereza tem favelas, que eu me recuso a chamar de ‘comunidade’ – comunidade é qualquer lugar, né? O Leblon é uma comunidade.

Não vai dizer que essa novela será sua última, como agora reza o discurso dos veteranos?

Eu tenho que escrever mais três. Quando penso nisso, digo: ‘por que eu não tive um derrame na hora de assinar o contrato?’ (risos). Renovei agora em janeiro, até 2020. Nem sei se eu vou estar aqui.

E o seriado que você vinha planejando, Dr. Pri, como ficou? 

Como a Glória Pires vai fazer a novela do Gilberto (Braga, que substituirá Império), não dava pra fazer o seriado.

Temos espaço na nossa TV aberta para séries como essas que os americanos fazem agora?

Chegamos a fazer até leitura do Dr. Pri e uma coisa que a gente discutia muito era sobre os tempos mortos da TV americana. Por exemplo, o Walter, de Breaking Bad, olhando uma mosca voando... Aqui não se pode fazer isso. As pessoas mal param em casa. Em nenhum lugar do mundo tem tanta gente na rua como aqui. 

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