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ENTREVISTA: Mateus Solano

Cultura

Mateus Solano

Ele volta a ser malvado, mas sem o bom humor de Félix

Ator será vilão em 'Liberdade Liberdade', próxima novela das onze da Globo, que resgata o contexto da Inconfidência Mineira

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Cristina Padiglione / RIO

06 Março 2016 | 05h00

Dois anos depois de se redimir como vilão das 9, naquela figura que o público amava odiar na novela Amor à Vida, Mateus Solano volta a ser mau, muito mau, mas, agora, sem o humor de Félix. Na concepção do ator, Rubião tem um ar misterioso, algo de Drácula, como denunciam as capas do figurino. É ele o antagonista de Tiradentes, responsável por entregá-lo à forca, na minissérie Liberdade Liberdade, próxima novela das 11 da Globo. O enredo, de Mário Teixeira, é baseado em argumento de Márcia Prates, a partir de Joaquina (Andréia Horta), filha de Tiradentes, por quem Rubião se apaixona. Estreia no dia 11 de abril. 

Rubião fica no ar pelo menos até agosto, quando Solano poderá se livrar do cavanhaque do vilão e retomar o bigodinho fake do aclamado Zé Bonitinho, personagem que o ator volta a encarnar na Escolinha do Professor Raimundo – Nova Geração. E bem neste domingo, 6, a partir das 19h, o Viva reprisa os sete episódios da 1.ª temporada, de uma só tacada. 

Desde dezembro, Solano vem se dedicando à preparação de Rubião, com aulas de prosódia, esgrima, equitação, História do Brasil e até boxe – que alguma pancadaria, naqueles tempos de inconfidência, há de se consumar em cena. O Estado conversou com o ator no Projac, onde acompanhou a gravação de uma cena sua sob uma chuva que veio bem a calhar para os planos do diretor Vinícius Coimbra. Eis um resumo da nossa conversa. 

Agora você volta a ser mau, mas sem o humor do Félix?

Félix era um vilão com humor. Rubião não tem humor. Acho que todo ser humano tem humor, né? Aquele humor todo do Félix estava no texto. As pessoas amavam o Félix e tinham medo de dizer que amavam, porque ele fazia tantas atrocidades, que ninguém pode falar que ama uma pessoa dessas. A verdade é que a gente ama, sim, nós temos vontade de fazer atrocidades e não falamos disso, não botamos isso para fora. E o Félix ajudou muito nesse sentido, foi uma válvula de escape. O Rubião não tem humor nenhum. Aliás, essa é uma novela absolutamente crua. A gente quer apostar numa coisa mais selvagem, mais animalesca, mais suja, mais terra e muito diferente, inclusive, da assepsia de um Félix.

De uma assepsia geral, não só do Félix, falando no padrão de produção de TV, não?

É verdade. Mas essa coisa mais suja é tudo que um ator quer, é uma coisa plural, e não uma estética que prende. E a TV Globo consegue ter nesse horário um pouco mais de liberdade, consegue fazer mais coisas. 

Os temas explorados em ‘Verdades Secretas’ endossaram que é possível falar de tudo, não?

É. Tem uma reestruturação na Globo, que o Brasil está vendo, e principalmente nesse sentido, acho eu, como programas como Tá no Ar, que aí é pelo humor, né? Só pelo humor você pode botar alguma coisa na cabeça das pessoas. Se você começa: ‘o Ministério da Saúde adverte’, já trocam de canal. Agora, se você brinca com isso, é outra coisa. Esse humor, essa jovialidade e esse rir de si mesmo tem sido muito corajoso.

Leu alguma coisa da época da Inconfidência Mineira?

Ah, sim, li muita coisa, e não só material que a Globo deu, muito interessante, sobre a vida privada e a vida sexual naquela época e como era viver numa colônia, que não era um país, era um país subordinado a outro. Mas vi também três filmes de Tiradentes: um com Humberto Martins, outro com Zé Wilker e um terceiro. É divertido ter três visões sobre um mártir inventado, ele é um dos que perderam a cabeça por lutar pela liberdade, por um Brasil mais livre.

Há um tom maniqueísta nesse vilão ou ele tem suas fraquezas?

Eu sempre aposto na humanidade. Mas essa novela tem uma coisa de arquétipos fortes – o vilão, a mocinha... Tem uma tinta carregada para esse lado, mas o Rubião é muito misterioso. E um oportunista, ele vê naquela Inconfidência alguma coisa que pode ser útil para ele. Depois vira o dono de Vila Rica, é ele quem pega o dinheiro do povo para mandar para Portugal, ele é o Exu, o mensageiro do mal.

E o figurino vale mesmo metade do personagem?

Ah, sim, é metade. Isso tudo eu vou estudando. Não só vi esses filmes, mas vi muita coisa sobre Inconfidência, li 1808, do Laurentino Gomes, e outros livros. Fui buscar referências. Drácula é uma referência, até pelo figurino, sombrio, muito sedutor. Quero um cara mais econômico nos gestos e não sou nada econômico. Então, está sendo uma grande aula para mim, estou assistindo muita coisa americana, porque os americanos já fazem isso há muito tempo: não fazem nada e passam tudo para gente. 

A novela vai permitir que o público trace um paralelo com o passado do País, justificando muita coisa do nosso presente?

Tipo Que Rei Sou Eu? Quase isso, né? Ainda mais lendo sobre a vinda da corte para cá, é uma coisa impressionante. Mal chegaram, a corrupção já existia, Portugal era um governo absolutamente corrupto e a corrupção está no berço do nosso país, no berço das relações entre as pessoas, no tráfico de ouro. 

Você liderou os comentários nas redes sociais como Zé Bonitinho, na nova 'Escolinha'. Assistiu muito às cenas do Jorge Loredo? 

Muito, estudei muito. É uma homenagem e é o melhor que eu posso fazer para entrar ali. Todos nós tentamos isso: prestar uma homenagem, chegar o mais perto daquilo e não era nem uma performance, mas alcançar a saudade do espectador. Foi tão bonito e isso aconteceu na Escolinha: a gente atingiu a saudade que cada um tem daqueles personagens. Eu tenho vídeos em que eu, com 9 anos, imitava o Zé Bonitinho.

Então não foi à toa que chegaram até você para o papel?

Primeiro eu ia fazer o Ptolomeu, mas depois conseguiram o Otaviano (Costa), ficou maravilhoso. Aí, o (Marcelo) Adnet falou: ‘Pô, dá o Zé Bonitinho pro Mateus’. Eu falei: ‘Muito difícil, tem só duas semanas para estudar e tem que estudar muito’. Foi um desafio, sabia que ele tinha tiques, manias, (imita seus trejeitos) e é um ator que vem do rádio. Vi o Loredo no filme O Palhaço, assisti a dois documentários sobre ele, pesquisei as frases, as entonações – ‘Quando Deus me fez estava com complexo de superioridade’ é demais! Já estou pensando o que eu vou botar na outra temporada. 

QUEM É: Filho de diplomata, Mateus Solano fez fama como Ronaldo Bôscoli, na minissérie Maysa (2009), mas participou de várias produções antes disso. Ainda em 2009, em Viver a Vida, de Manoel Carlos, teve seu momento Ruth/Raquel ao viver dois gêmeos. Foi Mundinho Falcão, papel originalmente vivido por José Wilker, na releitura de Gabriela (2012), exibida na mesma faixa das 11 na qual estará em Liberdade Liberdade. Com Félix, de Amor à Vida (2013), foi alçado ao primeiro time de atores da Globo, condição endossada pela versatilidade exibida como Zé Bonitinho. 

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