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Documentário conta a história de psicóloga que usou anúncio no ‘Estado’ para curar a solidão

Em setembro de 1982, Lourdes Lúcia Ribeiro publicou um anúncio no Estadão com o título 'Mineira Solitária

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2018 | 06h01

Era setembro de 1982, e o Brasil ainda vivia nas cinzas de uma ditadura militar, quando Lourdes Lúcia Ribeiro decidiu escrever e publicar um anúncio no Estadão. Com o título “Mineira Solitária”, o bilhete explicava que ela estava sozinha em São Paulo. “A cidade me sufoca durante o dia e me isola à noite num pequeno apartamento de bairro. Não sei o que fazer, não tenho a quem recorrer, às vezes chego quase ao desespero. Quero gente para conversar, quero pessoas a meu lado...”, dizia, deixando seu número de caixa postal.

Ela recebeu cerca de 500 cartas, entre conselhos, recomendações, pedidos de casamento, mensagens religiosas, indicações para os Neuróticos Anônimos, convite para um curso de Kung fu e cartas de detentos do interior do Paraná. 

Trinta e cinco anos depois, a história é retomada: neste sábado, 7, a GloboNews exibe o documentário Mineira Solitária, escrito e dirigido por Renata Baldi com a ideia original de Liliana Junger e produção de Antonia Martinho. O filme de 50 minutos é exibido às 16h30 e depois entra na Globo News Play.

Junger, repórter da Globo News em Belo Horizonte, é sobrinha de Lúcia Ribeiro, e já havia feito um trabalho acadêmico sobre o tema, em 2010. Num pitching no canal em 2017, ela apresentou a ideia e foi acolhida.

Reservada, Lúcia brinca que chegou a rezar para Santo Antônio para que a ideia da sobrinha não fosse aceita, porque para ela ainda é difícil reviver a intensidade da experiência.

Ela diz que esperava receber 10 cartas, porque era essa a média de respostas a anúncios desse tipo no jornal. “Depois, recebi tudo isso e foi uma loucura, não sabia o que fazer”, lembra, por telefone de Belo Horizonte, onde vive desde 2000.

“Quando comecei a ler as respostas, via as cartas e fazia crítica à letra, ao papel, ao que falavam. Depois, esse sentimento mudou e percebi que em cada papel tinha uma história, e elas começaram a mexer comigo. Me levavam a questionar a minha própria história”, explica.

Diferentes condições sociais e mesmo de escolhas de vida se confrontaram com os próprios princípios de Lúcia. “Diziam: ‘Você tem dinheiro, mora num apartamento, por que está reclamando?’ Disseram que eu estava à toa, que arranjasse um cachorro, pedidos de casamentos... eu não queria casar.”

O filme agora recupera personagens que enviaram cartas para Lúcia na época, em 1982.

Um deles é Hugo Pereira de Lima, que hoje vive em Piracicaba. Ele conta, no filme, que quando morava em Mogi das Cruzes, num barraco de madeira, escrevia cartas para pessoas imaginárias e as pendurava na parede. Um dia, um encarregado da fábrica onde ele trabalhava viu as cartas e lhe concedeu uma promoção. “As cartas fizeram uma grande diferença na minha vida. Nunca vou parar de escrever”, garante.

A diretora Renata Baldi conta que a maioria das pessoas encontradas ficou muito feliz de reviver a história. “Para muitos, foi um momento bem difícil na vida, isso emocionou todas as pessoas. Até porque a solidão é um tema universal, que não muda, que está aí, vai ficar para o futuro. É um sentimento inerente ao ser humano. Vale a pena tocar nesse assunto”, recorda.

Um dos aspectos mais profundos do filme também diz respeito à transformação pela qual o País passou nos últimos 35 anos. Apesar da grave crise política atual, é possível notar com a história do filme alguma ascensão social dos envolvidos. “Todos os personagens com certeza tiveram um ganho econômico. Não digo de classe social, não sei se dá para colocar nesse patamar, mas os anos 80 foram difíceis no Brasil. As histórias refletem um momento do País, associado à trajetória particular de cada personagem”, conta a diretora.

Lúcia Ribeiro, na época, era mestranda em psicologia na PUC São Paulo, com um projeto sobre educação física e autoestima. Quando recebeu as cartas, notou que ali havia um material rico para uma dissertação. “Se eu procurava saber o que era solidão, as cartas me levaram a entrar nela ainda mais profundamente”, revê, agora.

A dissertação apontou alguns caminhos, segundo Lúcia. “A solidão é um sentimento possível para qualquer pessoa e cada uma tem a sua vivência de solidão. Ela envolve passado, presente e expectativas futuras, porque é um volta a si mesmo. Ela não é definida: não é falta de gente ao redor. Ela parte da representatividade dessas pessoas para cada um, nossas escolhas, tudo o que envolve cada pessoa”, explica.

O assunto também foi tema de uma série de reportagens publicada pelo Estado em dezembro de 1982, feitas pelo repórter especial José Maria Mayrink, que segue ativo na redação do jornal. As reportagens depois foram transformadas no livro Solidão, reeditado em 2014 pela Geração Editorial. “A solidão é a saudade da terra”, diz Mayrink no filme. Mas depois de anos escrevendo sobre o assunto, concede que cada caso é diferente.

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