GUTO COSTA/DIVULGAÇÃO
GUTO COSTA/DIVULGAÇÃO

Decadência vira piada no Multishow

Luiz Fernando Guimarães é Eleonora, dona de salão em Copacabana, em 'Acredita na Peruca'

Cristina Padiglione / RIO, O Estado de S. Paulo

17 Maio 2015 | 11h00

É olhar para a cara de Luiz Fernando Guimarães travestido de Eleonora e afrouxar o riso. Sua figura como a dona de um salão decadente na não menos decadente Copacabana é um convite à comédia que quase dispensa texto. Mas o texto logo se impõe e torna a personagem ainda mais engraçada. Eleonora é o eixo central de Acredita na Peruca, comédia de situação que estreia na segunda, 18, no Multishow, com 20 episódios de segunda a sexta, às 22h30. O Estado testemunhou um dia de gravação da série, no Teatro Bloch, no Rio.

Cada episódio demanda pelo menos dois dias de expediente – um para leitura, ensaio e marcações, e outro com a gravação de duas sessões. A primeira apresentação é gravada sem a presença de público, e até certo ponto corrigida diante de cada erro, mas, a segunda, gravada com plateia, não abre muitas brechas para regravações. O erro, como acontecia no Sai de Baixo, vira lucro para o espetáculo.

“Eu desconcentro e concentro de novo, a Eleonora é muito centralizadora”, diverte-se Luiz Fernando, ao comentar o fato de os colegas perderem a concentração com frequência, ao darem de cara com aquela figura de 1,88 m, em trajes femininos e peruca. Eleonora, explica o ator, gosta de pantalonas, roupas largas. “Ela não é de usar saia, não é dela”, explica, como se a personagem tivesse vida própria. “Quando cheguei aqui, queriam me botar peito, bunda, eu disse ‘não’, isso vai virar um carro alegórico.”

A série é fruto do monólogo O Impecável, texto de Charles Möeller que Luiz Fernando levava aos palcos, personificando os sete pecados capitais. Charles e Cláudio Botelho assinam agora a direção-geral de Acredita na Peruca, tendo Caetano Caruso (que já fez Trair e Coçar para o Multishow) como diretor. E, não contente em ser o protagonista, Luiz Fernando se desdobra em mais um personagem a cada episódio, todos extraídos do monólogo. Fã de Ronald Golias, o ator disse que está, pela primeira vez em longos anos de carreira, aprendendo a fazer o que o mestre fazia na clássica Família Trapo: falar diretamente para a câmera, sem deixar de fazer um espetáculo também para a plateia local.

Até para honrar os créditos de Charles Möeller & Cláudio Botelho, grifes no universo dos musicais no País, todo episódio será encerrado com um número musical. Para puxar o solo, o elenco conta com a presença de Gottscha, profissional do ramo. Ela é Coral, ex-suburbana de Bangu e uma das “agregadas” que disputam a propriedade do salão: sua filha, Maria Eduarda (Fernanda Nobre), é ex-noiva do ex-marido de Eleonora, que já foi casada várias vezes e tem uma filha, Silvia (Cláudia Missuri) e um fiel ajudante, Sebastian (Eucir de Souza). Tem ainda uma sócia, a ex-prostituta Stephanie, personagem que põe Miá Mello em trajes e trejeitos de perua. O elenco se completa com Carlão (João Gabriel Vasconcellos), GogoBoy na boate Boa Noite Cinderela, e a drag queen Lucy in the Sky (Beto Carramanhos), única que de fato é cabeleireira profissional.

“A ideia é juntar personagens do dia com personagens da noite, a aristocrata rica do Copa com o gogo boy”, explica Charles. “E tem essa coisa de Copacabana, sensacional, de ser a grande rua dos arquimilionários dos anos 40 que ficou absolutamente decadente.” O salão de Eleonora fica bem numa esquina da Atlântica, e um componente tecnológico há de impressionar o público: Uma tela em LED faz todo o fundo do cenário, promovendo um movimento de pessoas e veículos avistados por meio da transparência da fachada do salão. São imagens gravadas e ali inseridas, mas que se misturam à sombra dos atores que, vindos da coxia do teatro, adentram fisicamente pela porta do estabelecimento. “O Led é uma composição de pessoas com prédios”, explica Caruso. “Aquilo não existe, tudo foi gravado no chroma e inserido – o céu, as pessoas, os ônibus, a luz do dia, da noite – e experimentado muitas vezes até que a gente acertasse a proporção de tudo.”

Charles destaca ainda a inspiração de Almodóvar para a direção de arte e elementos complementares com “essa pegada de Andy Warhol”, no melhor propósito de “unir aristocracia e modernidade”. Entre os personagens, não há um em quem se possa confiar. “Não é que ali só tenha vilões, mas todos têm uma bipolaridade, é a Liga da Injustiça, como a gente diz, como se fosse um Robin Hood do mal – pessoas que acabam fazendo mal para pessoas do mal”, diz Charles. “Tem muito a ver com o politicamente incorreto, que eu acho tão fascista, um jeito disfarçado de mostrar o que é certo e o que é errado. A gente, como artista, não pode nunca deixar que venham impor esse discurso pra gente, porque demoramos muito tempo pra poder nos manifestar.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.