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Cocriador de ‘Twin Peaks’ lança livro com aventura infantojuvenil

Depois de oito livros, Mark Frost se deixa levar pelo fantástico em ‘A Profecia do Paladino’

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Pedro Antunes,
O Estado de S.Paulo

26 Março 2016 | 04h00

Pode apostar: logo pela manhã, às 7h, Mark Frost estará diante do seu computador ou notebook escrevendo o que quer que seja. É um exercício diário – tanto quanto as corridas matinais para outros – e também uma forma de não se perder na ausência de cobrança.

Desde os 11 anos, o criador da série de TV cult Twin Peaks, ao lado do diretor excêntrico David Lynch, se coloca a escrever porque, de alguma forma, percebeu que ninguém o obrigaria a fazer isso. “Acho que essa é a vida de todo escritor, na verdade”, explica ele, ao telefone. Aos 62 anos, Frost ultrapassou a marca de meio século de escritas, mesmo que as primeiras delas, ele reconhece entre gargalhadas, estejam longe de ser um best-seller. “Elas nem mesmo valem a leitura.”

Para alguém que iniciou a carreira profissional na televisão, distante dos livros, no fim dos anos 1980, Frost até que se diz satisfeito por transitar entre as obras no papel e nas telas. Embora seu público seja majoritariamente adulto, ele encontrou com camadas mais jovens em filmes como Quarteto Fantástico, as versões cinematográficas de 2005 e 2007, protagonizadas por Chris Evans e Jessica Alba.

Em 2012, ele mergulhou de vez neste universo de fantasia e ficção com o início da trilogia A Profecia do Paladino, livro lançado agora, em 2016, no Brasil, pelo selo Galera (da Record).

Entre tantos outros livros (e trilogias) lançados para esse público específico, especialmente depois do sucesso estrondoso iniciado pela série Harry Potter, de JK Rowling, no fim dos anos 1990, A Profecia do Paladino se distancia do restante por não ser genérico. Pelo contrário, é um livro que vem da própria necessidade de Frost em se comunicar com o filho, hoje de 12 anos. “Quando ele tinha 9 anos, ele me disse que eu deveria fazer livros que ele pudesse ler”, explica Frost. “Isso me levou a pensar na história do Will (West, protagonista).”

“É divertida a ideia de que existe uma geração de leitores. Um grupo de jovens que se voltaram aos livros, com um interesse que há muito tempo eu não via. Esses leitores particularmente adoram essas histórias complexas, longas. Acho que foi o tempo certo para mim”, ele analisa. “Gosto da ideia de escrever e, com isso conversar, com uma geração de pessoas que está olhando para um mundo totalmente novo.”

E Will, de certa maneira, é o próprio Frost, ele confessa. Nascido na Califórnia, Frost se mudou com a família para o Centro-Oeste dos Estados Unidos, deixando tudo o que conhecia para trás. “Aquilo me desorientou muito. Fui parar em um lugar diferente, com uma vida que não era aquela que conhecia. Aquilo me preparou para a ideia de ser alguém deslocado. E é exatamente desse ponto que parto para trabalhar em A Profecia do Paladino.”

O primeiro livro dos três inicia a saga do jovem West, um rapaz cujos pais desaparecem após ele começar a ser perseguido de forma misteriosa. O rapaz consegue se matricular em uma escola particular e lá, sem chão, nem nenhuma outra referência, passa a descobrir e conhecer a si mesmo. Explora, inclusive, suas habilidades, que o pai o ensinara a mantê-las escondidas.

Frost se aproveita do desejo de qualquer jovem com hormônios em ebulição, do desajuste social e o desejo por ser especial. Foi o segredo de Harry Potter, afinal. Um garoto com uma vida medíocre que se descobre bruxo – e não apenas isso, afinal ele é uma espécie de celebridade entre aqueles de chapéus altos e varinhas em punho. Frost também tinha essa vontade, potencializada no momento que deixou a casa que vivera desde o seu nascimento. “Eu me relacionava muito com os personagens como Quarteto Fantástico ou Homem-Aranha. Sempre quis que houvesse uma grande história por trás da vida, que algo grande acontecesse, mudasse o mundo e a mim.”

No caso do escritor, essa mudança veio com Twin Peaks, em 1991, série elogiadíssima na primeira temporada e perdeu, na segunda, sua cara-metade, o diretor David Lynch, e esparramou-se no limbo. A trama seguia a investigação do assassinato de Laura Palmer e a chegada do investigador Dale Cooper (Kyle MacLachlan), na curiosa cidade título. Há dois anos, Twin Peaks voltou. Frost e Lynch se juntaram para escrever uma nova temporada, atualmente em gravação e com estreia prevista para 2017. “Levou muito tempo para termos certeza de que seria feito do jeito que a gente gostaria. Enfim, conseguimos.”

A PROFECIA DO PALADINO

Autor: Mark Frost

Tradução: Glenda D’Oliveira

Editora: Galera Record (420 págs., R$ 44,90)

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