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Cultura

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Ana Beatriz Nogueira e Felipe Camargo dão adeus a seus personagens de 'Além do Tempo'

Folhetim das 6, de Elizabeth Jhin, chega ao fim

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Adriana Del Ré,
O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2016 | 06h00

Foram duas novelas dentro de uma só. O folhetim das 6 de Elizabeth Jhin, Além do Tempo, iniciou sua jornada situada no século 19, com cenografia e figurinos caprichosamente de época, mocinhos sofredores, grandes vilões e toda a carga melodramática cabível para aquele contexto. Com a trama já na metade do caminho – e o bom ibope já garantido –, a novela passou por uma reviravolta, até então inédita na TV: os personagens principais, Lívia (Alinne Moraes) e Felipe (Rafael Cardoso), morreram e, antes mesmo que o público lamentasse, eles apareceram na cena seguinte, 150 anos depois, reencarnados nos dias de hoje. Começava ali a fase contemporânea da novela, com todo o elenco vivendo os mesmos personagens, com nomes iguais, novas vidas – e uma segunda chance para acertar relações e questões mal resolvidas. Tudo partia do zero mais uma vez: cenografia, figurinos, interpretações, trilha sonora.

Após essa guinada, elenco, direção e equipe corresponderam com talento ao desafio proposto pela autora. E o público, aguçado primeiramente pela curiosidade e, depois, fisgado pela fluidez da narrativa, manteve sua fidelidade. Após fazer história, Além do Tempo chega ao fim nesta sexta, 15, e será substituída na faixa das 18h da Globo na segunda-feira, dia 18, por Êta Mundo Bom!, de Walcyr Carrasco. Nesse clima de adeus, Felipe Camargo e Ana Beatriz Nogueira se despedem de seus personagens Bernardo e Emília, que formam outro par romântico importante de Além do Tempo. Na primeira fase, o casal via sua história de amor tumultuada pelos planos de Vitória (Irene Ravache), então mãe de Bernardo. Na segunda fase, os dois se reencontraram, se estranharam à primeira vista, mas o antigo amor deles falou mais alto.

Na nova fase, Emília voltou como filha de Vitória, que a abandonou quando criança. Ela passou a vida achando que a mãe nunca quis saber dela e, por isso, queria se vingar. O que Emília não sabia, e descobriu há alguns capítulos, é que Vitória, arrependida, a procurou logo depois de tê-la deixado e o ex-marido Alberto (Juca de Oliveira), pai de Emília, mentiu, dizendo que a filha deles havia morrido.

Por isso, de vítima de Vitória na primeira vida, Emília virou uma espécie de algoz dela na segunda. “Emília não é exatamente uma vilã, porque a questão dela é com uma pessoa e não com todas. É direcionada a essa mãe”, analisa Ana Beatriz. “Acho que ela é vítima também. Na segunda encarnação, de vilão há o Pedro (Emílio Dantas), a Melissa (Paolla Oliveira), que agem de má-fé, estão mais para loucos até.”

Nessa reta final, Ana Beatriz Nogueira e Irene Ravache, aliás, protagonizaram uma das cenas mais emocionantes da novela. Em mais um embate entre suas personagens, Vitória, de Irene, descobre que Emília, de Ana Beatriz, é a filha que, por muitos anos, achou que estava morta. Ressentida, Emília não quer acreditar em Vitória quando ela lhe diz que é sua mãe, mas, ao mesmo tempo, vacila diante da revelação. O olhar de Emília revela o doloroso duelo entre a emoção e a razão. O olhar de Vitória brilha com a descoberta da filha viva. Um momento decisivo conduzido pelas belas interpretações das duas atrizes. “Vi a cena depois e me emocionei. A Irene também. Quando a gente faz, está tão envolvida. Não foi uma cena raciocinada, foi de se colocar na situação.”

As duas garantiam outro momento ‘lencinhos na mão’ na quarta-feira, 13, quando Emília acordou do coma, após sofrer um acidente de carro, olhou para Vitória e reconheceu nela a sua mãe.

Para Ana Beatriz Nogueira, fazer as duas Emílias numa mesma novela, preservando a matriz da personagem, mas com tons e nuances diferentes nos dois momentos, foi um desafio “interessante”. “Na primeira fase, a gente começava com todo um cronograma e muitos capítulos, em que já se tinha uma visão da personagem. Na segunda encarnação, a própria Beth (autora) estava criando, fazendo uma coisa revolucionária, e a gente também foi criando junto”, conta a atriz. “Achei que foram todos muito corajosos e muito abertos para esse trabalho, com um bom humor o tempo todo. As pessoas muito felizes de estarem fazendo aquele trabalho.”

Felipe Camargo também gostou da experiência com seus dois Bernardos. O primeiro tinha lapsos de memória e o segundo é um escritor documentarista, “que dá memória às coisas, que registra, é meio que um complemento do que faltou na outra vida”, compara o ator. “A novela é uma obra aberta e longa. Geralmente, no capítulo 85, como foi o caso, você já está mais estabilizado no personagem, claro que tem cenas mais difíceis, mas o personagem já está achado”, comenta ele. “Por mais que a Elizabeth (Jhin) tenha planejado isso, antes de escrever propriamente, foi uma novela nova. Isso foi muito estimulante.”

Projetos. A boa sintonia de Ana Beatriz Nogueira e Felipe Camargo na tela é uma extensão do bom entendimento deles nos bastidores, contam eles. “A Ana é uma grande atriz e tem uma coisa parecida comigo: eu não gosto muito de ensaiar. Geralmente, a gente pedia para gravar direto. Às vezes, você faz coisas no ensaio e, na hora do ‘gravando’, não ocorre como ensaiou. A gente falava ‘vamos ensaiar gravando’ e acabava valendo.”

Os dois atores compartilharam também outra cena tocante na última quarta-feira. Olhando com ternura para Emília, ainda em coma na cama do hospital, Bernardo declara seu amor a ela. Esse amor que atravessou séculos. “O elo dos Bernardos é o amor”, diz Felipe. “Os personagens se gostam independentemente das críticas que um tem do outro, é muito bonito a Beth escrever isso. Eles são diferentes, mas ficam juntos”, completa a atriz.

Após o fim da novela, Ana Beatriz vai se voltar ao teatro, em que atua também como produtora. Ela planeja trazer duas peças suas para São Paulo este ano: Um Pai (Puzzle), baseado no livro homônimo de Sibylle Lacan, e Tudo Que Eu Queria Te Dizer, adaptada do livro de Martha Medeiros. Já Felipe veio de uma maratona de trabalhos seguidos: integrou o elenco de Malhação, participou da série canadense Sensitive Skin, com a atriz Kim Cattrall (de Sex and The City), e emendou o Bernardo de Além do Tempo. Por isso, até fevereiro, não tem nenhum projeto na mira. Segundo o ator, existe a chance de ser feita a 3.ª temporada de Sensitive Skin no Brasil. “Tomara que dê para fazer aqui”, diz o ator.

Ana Beatriz Nogueira e Felipe Camargo podem ser vistos também em duas reprises: ela, em Caminho das Índias (2009), no Vale a Pena Ver de Novo, na Globo, como a divertida Ilana, e ele, em Despedida de Solteiro (1992), no canal Viva, como o denso João Marcos. Mas, para eles, o momento ainda é de Além do Tempo. “Me despeço em estado de encantamento”, diz Ana Beatriz. Felipe também: “Lendo o último capítulo outro dia, me deu uma dor. Sei que vai dar saudade.”

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