Marcio Fernandes/Estadão
Marcio Fernandes/Estadão

Zélia Duncan conta a história da Tropicália em 'Alegria Alegria'

Cantora estreia em musical que apresenta o movimento que pregou a liberdade

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2017 | 07h00

Se o espetáculo Totatiando foi um divisor na vida e na carreira da cantora e compositora Zélia Duncan, o musical Alegria Alegria, que estreia hoje, no Teatro Santander, é a realização de um desafio. “Foi um aprendizado diário, um andar na corda bamba a quatro metros de altura, mas com uma rede de proteção representada pelo Moacyr Góes”, garante ela, também estreando nesse gênero artístico, à frente de um elenco de mais 15 profissionais.

Góes é o diretor e criador de Alegria Alegria, uma bem urdida homenagem ao Tropicalismo, que completa 50 anos em 2017. Não se trata, porém, de um musical tradicional, ou seja, com uma trama permeada por canções que ajudam a narrativa até seu desenlace. “Para falar sobre o Tropicalismo, não podia ser algo tão afeito às normas”, explica. “Procurei estruturar um roteiro que contasse uma história, mas não de uma maneira tradicional, didático. Pretendi explicar o que foi o tropicalismo a partir da experiência de ouvir suas músicas, o que produzirá sentimentos, reflexões, emoções. É um espetáculo para ser saboreado.”

Foi justamente essa viagem pessoal - ao mesmo tempo crítica a amorosa - que encantou Zélia. “Sempre pautei minha trajetória artística na busca de riscos”, conta ela. “Canto desde 1981, ainda que passei a ser conhecida a partir de 1995. E, desde sempre, eu me interessei por novos caminhos.” A insatisfação com o óbvio e a mesmice coincide com os interesses de Góes, seu velho amigo. “Conheço Zélia desde os anos 1990, quando lhe dei aula na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), no Rio. Naquele momento, ela já delineava as características que norteariam sua carreira”, comenta Goes. “Zélia sempre foi tropicalista, carregando uma gana por experimentos, sem medo dos embates estéticos.”

Nesse sentido, a decisão do diretor em pautar o espetáculo a partir da obra de Caetano Veloso encontrou eco com Zélia. “Sou íntima das canções de Caetano, sempre fui sua ouvinte. E, aqui, apresentamos um recorte histórico da Tropicália, que mostra como o movimento continua atual. São artistas que se arriscaram em um momento conturbado, com Caetano dando a cara pra bater. Era o talento misturado com a coragem.”

Apesar de protagonista, Zélia se insere no estilo do musical. “Trago minha assinatura, mas participo de muitas cenas junto com o coro.” Seu posicionamento solidário (logo, todos passaram a chamá-la por ZD) contribuiu para o crescimento do elenco, formado por nomes experientes do musical brasileiro, como Ingrid Gaigher e Patrick Amstalden, entre outros.

“Mais que uma cantora, Zélia é uma atriz e, como ela mesma disse, uma profunda pesquisadora da palavra, por isso que seu entendimento da música como um texto é espetacular - ela entendeu a linguagem”, comenta Thiago Gimenes, responsável pela direção vocal e pela regência. “Como conhece bem o repertório, ela estava pronta para explicar quando surgia alguma dúvida. O espetáculo é um recorte musical e Zelia, sua narradora, o corifeu. É ela quem faz as transições que permitem entender o que foi o Tropicalismo, desde o auge, a apoteose, até o exílio forçado de seus criadores.”

ALEGRIA ALEGRIA, O MUSICAL

Teatro Santander. Av. Juscelino Kubitschek, 2.041. 5ª e 6ª, 21h; sáb., 18h e 21h; dom., 18h (dia 14, 17h e 20h). R$ 50/ R$ 250. Até 9/7. 

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