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'Um defensor da comédia inteligente, provocadora', diz Dan Stulbach sobre Dario Fo

Ator está em cartaz com a peça 'Morte Acidental de um Anarquista', texto do dramaturgo italiano

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2016 | 10h03

Um defensor da comédia inteligente, provocadora. Assim o ator Dan Stulbach descreve o dramaturgo italiano Dario Fo, morto nesta quinta-feira, 13, aos 90 anos, na Itália. "Ele dizia que, enquanto o drama liberta o público por meio da catarse, a comédia retém no espectador todo seu conteúdo. Ele dizia ainda que, na Idade Média, não era por meio do drama que os artistas criticavam os reis, mas sim por meio da comédia."

Stulbach está em cartaz com uma das principais peças de Fo, Morte Acidental de um Anarquista, até dezembro, no Teatro Folha. O espetáculo, aliás, estreou em setembro de 2015, o que permitiu ao ator fazer uma verdadeira imersão na obra do dramaturgo italiano. "Criamos um laço afetivo com ele. Quando Fo completou 90 anos, em março, enviamos um vídeo com cenas da nossa montagem, algo que todos os artistas que, naquele momento, encenavam alguma peça dele, fizeram. Ele ficou muito feliz e agradeceu a todos."

Escrito em 1970, o texto de Morte Acidental de Um Anarquista tem o tom de uma farsa ao acompanhar um louco cuja doença é interpretar pessoas reais. Por causa disso, ele é detido por falsa identidade. Na delegacia, se passa por um juiz na investigação do misterioso caso do anarquista. A polícia afirma que ele teria se jogado pela janela do quarto andar. Mas a imprensa e a população acreditam que foi jogado. Na indefinição dos fatos, o louco engana a todos ao assumir diversas identidades e, brincando com o real e o irreal, desmonta o poder e acaba descobrindo a verdade encoberta por todos.

Fo se baseou em dois fatos verídicos para escrever a peça - em dezembro de 1969, ocorreu o assassinato de Giuseppe Minelli, membro de um círculo anarquista milanês. A polícia, que suspeitava ter sido ele cúmplice em atentados terroristas, informou que Minelli teria "se jogado" do 4.º andar da chefatura de polícia de Milão, algo semelhante ao que teria ocorrido com Salsedo, um emigrante italiano que teria "saltado" do 14.º andar da Policia Central de NY, em 1921.

A peça foi montada por Antonio Fagundes em 1982, um espetáculo à época catártico, pois, sete anos antes, o regime militar que dominava o País divulgou que o jornalista Vladimir Herzog havia "se enforcado" nas dependências do 2.º Exército, em São Paulo. "Fo tinha firme convicção de que a comédia era um gênero subversivo, próprio para críticas mais contundentes", comenta Dan Stulbach, que pretende fazer uma homenagem ao dramaturgo na encenação desta sexta-feira, 14. "Ateu convicto, Fo era um homem de esquerda e tinha plena convicção no poder da conscientização. Era também um multi artista, pois escrevia, cantava, dançava, interpretava. Um homem à frente de seu tempo. Fellini era um artista próximo, que dialogava com Fo, mas o cineasta não era ator."

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