ANNELIZE TOZETTO
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Titãs se arriscam em formato ópera-rock

Em ‘Doze Flores Amarelas’, grupo criou 25 faixas inéditas para tratar da violência contra as mulheres

Maria Eugênia de Menezes   ESPECIAL PARA O ESTADO, CURITIBA

07 Abril 2018 | 06h00

Aos 36 anos de carreira, os Titãs continuam a compor e a rodar o País com suas apresentações. O rock, ritmo que notabiliza o grupo desde 1982, também continua em pauta: seja com sonoridade mais pesada, seja em versão acústica. Nada disso mudou. Mas, em meio a tanta constância, os músicos veteranos resolveram se lançar em um novo formato.

Apresentada nos dias 3 e 4 de abril, no Festival de Curitiba, Doze Flores Amarela é uma ópera-rock e marca a primeira incursão da banda pelas artes cênicas. “É um universo novo, mas também traz muito daquilo que já sabemos fazer. Quase não há texto. Toda a trama é contada, basicamente, pelas letras das canções”, diz Tony Bellotto, um dos três integrantes da formação original, ao lado de Branco Mello e Sérgio Britto. Depois da pré-estreia curitibana, o espetáculo deve rodar o País. Em São Paulo, será apresentado entre os dias 12 e 15, no Sesc Pinheiros. 

Para o projeto, que reúne também o baterista Mario Fabre, o guitarrista Beto Lee e três atrizes, a inspiração veio do que de melhor já se produziu no gênero, entre os anos 1960 e 1970: as óperas-rock Tommy e Quadrophenia (ambas do The Who) e The Wall (Pink Floyd). “Mas fizemos um pouco o caminho inverso. Essas bandas partiram de álbuns gravados. Estamos indo primeiro para a cena e só depois iremos gravar. Nesse sentido, é um trabalho bem diferente desses grandes clássicos”, afirma Branco, comentando que Doze Flores Amarelas será registrado em disco e DVD ao longo da turnê nacional. 

Mesmo que reúna música e atores para dar conta de uma trama, o espetáculo dos Titãs deve ficar bem distante do modelo de musical importado da Broadway que faz sucesso no Brasil. Além de ser apresentada por seus próprios compositores, a obra mergulha em um tema tão delicado quanto controverso. Em cena, as atrizes Cyntia Mendes, Corina Sabba e Yás Werneck são vítimas de um estupro coletivo. 

Segundo a banda, tratar do assédio e da violência contra mulher não foi uma escolha premeditada. “Mas é claro que o assunto nos toca. O tema complicado acabou sendo um desafio para que criássemos canções que nunca faríamos”, diz Britto. Os arranjos instrumentais ficaram a cargo de Jaques Morelenbaum.

Três músicas do repertório do espetáculo já foram apresentadas ao público em duas experiências prévias: no Rock in Rio e no show Uma Noite no Teatro. As outras 22 composições são inéditas para o público e têm como propósito contar a trama do musical. “Quase toda a história é contada pelas canções do espetáculo”, lembra Hugo Possolo, que responde pela direção cênica do espetáculo ao lado de Otavio Juliano. 

Todas as ações vistas no palco são narradas pela voz de Rita Lee. “Ela é a voz que abarca toda a nossa trama. Está lá para fazer alguns links e ajudar o espectador. São três linguagens – a do vídeo, a da música e a da encenação – que se unem para dar o arco dramático completo para o público”, complementa Possolo, que também responde pela dramaturgia – tarefa que divide com os Titãs e com Marcelo Rubens Paiva, colunista do Caderno 2. 

Dividida em quatro atos, a ópera-rock conta a história de três meninas chamadas Maria que se preparam para ir a uma festa. Lá, são vítimas da violência de cinco homens e lidam com o ocorrido de maneiras distintas, que vão desde o desejo de vingança até a denúncia. Ainda que a banda e os diretores sejam homens, as atrizes-cantoras tiveram participação na construção da história e alteraram o rumo de algumas canções. “Elas provocaram a mudança de muitas letras, trouxeram o próprio ponto de vista”, observa Bellotto. 

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