Daniel Mansur
Daniel Mansur

Teatro Municipal de São Paulo abre temporada lírica com a ópera 'La Traviata'

Temporada de óperas do Municipal tem obras célebres, mas não descarta ampliar repertório

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

11 Maio 2018 | 06h00

O Teatro Municipal de São Paulo abre neste sábado, 12, com montagem de La Traviata, de Verdi, sua primeira temporada de óperas completa sob a gestão do Instituto Odeon, que aponta para a escolha de títulos consagrados como identidade artística da casa. Além de La Traviata, serão apresentadas ainda O Cavaleiro da Rosa, de Strauss; Pelléas et Melisande, de Debussy; e Turandot, de Puccini.

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“Queríamos abrir o ano com um grande e conhecido título”, diz Roberto Minczuk, regente titular da Orquestra Sinfônica Municipal. A produção, assinada pelo diretor Jorge Takla, foi emprestada do Palácio das Artes de Belo Horizonte, onde estreou em abril, e tem orçamento de R$ 1 milhão. Cenários e figurinos são os mesmos, assim como parte do elenco, que tem estrelas como o tenor Fernando Portari, o barítono Paulo Szot e a soprano Jaquelina Livieri.

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Nas últimas cinco décadas, La Traviata ganhou uma nova produção em São Paulo em média a cada dois anos e meio. Foram, ao todo, 24, 17 delas no Municipal. Ao completar a quarta das dez apresentações da atual temporada, a ópera vai se tornar a mais encenada em São Paulo desde o início dos anos 1950, com total de 77 récitas, deixando para trás títulos como Madama Butterfly, Tosca e Carmen.

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A aposta em títulos tradicionais chama atenção em comparação com outros teatros. O Festival Amazonas deste ano, por exemplo, incluiu duas estreias de autores brasileiros - Dessana, Dessana, de Adelson Santos, e Kawah Ijen (O Vulcão Azul), de João Guilherme Ripper - ao lado do mais tradicional Fausto, de Gounod. No Teatro São Pedro, em São Paulo, a programação inclui raridades do checo Leos Janácek, um autor barroco (Händel) e um do século 20 (Britten).

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Minczuk acredita, no entanto, que a questão precisa ser vista em perspectiva. “O Cavaleiro da Rosa, por mais tradicional que seja, nunca foi produzido em São Paulo. Turandot não é montada aqui desde os anos 1990. Precisamos dar oportunidade a quem quer conhecer a ópera. Não há crise de público para o gênero. Abrimos duas récitas extras de Traviata, sendo uma delas gratuita, na Virada Cultural, por conta da alta demanda. Há um público jovem ávido, que quer ver ópera pela primeira vez.”

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Ainda assim, o maestro acredita que, para os próximos anos, não apenas mais títulos devem ser produzidos (O Teatro Colón, de Buenos Aires, por exemplo, tem 12 óperas em sua temporada contra as 4 de SP), como o teatro deve se abrir a um leque mais amplo de títulos. “Este ano vamos fazer, em versão de concerto, a Piedade, de Ripper. Mas queremos, nas próximas temporadas, encomendar títulos para autores brasileiros, trazer obras mais modernas.” A programação do teatro é feita por um conselho artístico do qual fazem parte, além de Minczuk, nomes como Ismael Ivo, diretor do Balé da Cidade, e André Sturm, secretário municipal de Cultura.

Planejamento. À frente do Municipal desde setembro, e sem experiência prévia na gestão de teatros dedicados à música clássica e à ópera, o Instituto Odeon encomendou pesquisa que vai dar origem ao que o diretor da instituição Carlos Gradim chama de “planejamento estratégico”. Ele vai pautar não só caminhos da programação como também a relação do Odeon e a Prefeitura e o papel que terá a Fundação Theatro Municipal, que gere as escolas de música e bailado e a Praça das Artes.

Questionado sobre o tema, o Odeon respondeu em nota oficial que o planejamento estratégico “tem previsão de entrega para a Fundação Theatro Municipal de SP e posterior divulgação para a sociedade em junho”. “O documento está sendo feito com base nos relatos de diversos stakeholders internos e externos, pesquisa com colaboradores, análises de documentos e benchmarking com instituições nacionais e internacionais.” O Odeon não adiantou conclusões que estarão no planejamento.

EM NÚMEROS

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Esta não é a primeira vez que o diretor Jorge Takla dirige a ópera La Traviata, de Verdi. Na primeira, há 22 anos, ambientou a história na década de 1920, fazendo referências ao universo art déco. Desta vez, no entanto, ele optou por outra abordagem. “Quis recolocar a história no contexto original, o que é um desafio por si só, pois não se trata de pensar a ópera como peça de museu, mofada, mas de encontrar novos significados, indo além do amor trágico”, diz o diretor.

La Traviata, baseada em A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, narra a história da cortesã Violeta, que se apaixona pelo jovem Alfredo, caso de amor atrapalhado pelo pai do rapaz, Giorgio Germont, preocupado com as repercussões que a união teria na sociedade da Paris do século 19. Na obra de Verdi, é um marco importante, sinalizando a busca por histórias contemporâneas, com personagens marginais que carregavam uma complexidade a ser tratada musicalmente. 

“Minha proposta é colocar a questão do empoderamento feminino, do desejo de Violeta e do preconceito, mas quis mostrar também o desejo desta mulher de se encaixar nos padrões impostos pela sociedade. Tudo isso, espero, pode trazer a energia da época da estreia, o choque que ela provocou”, afirma Takla, para quem Verdi é muito hábil em construir personagens por meio da música. “É interessante ver como, na partitura, ele dá tratamento ainda mais amplo às personagens do que acontece no texto, é como se ele utilizasse elementos presentes no Dumas, oferecendo outros planos de entendimento para a história que está sendo narrada. Personagens como Alfredo e seu pai, que no libreto acabam reduzidos, por exemplo, ganham na música outra dimensão.”

Para Minczuk, chama a atenção justamente o caráter intimista da partitura, “o modo como se dá o diálogo entre os instrumentos e as vozes, que é onde se estabelece o drama”. “É impressionante ainda hoje como Verdi consegue criar uma obra única e original, genuína. O fato de ele querer tratar de uma história de seu tempo e, assim, provocar uma identificação com a plateia, é algo inovador, fundamental na sua ideia de teatro musical”, afirma ainda o maestro.

Dois elencos vão se dividir na produção apresentada no Municipal. No primeiro deles, a soprano Nadine Koutcher vive Violeta; o tenor Fernando Portari, Alfredo; e o barítono Paulo Szot, Giorgio Germont. No segundo, os papéis são interpretados por Jaquelina Livieri, Georgy Vasiliev e Leonardo Neiva. Daniel Lee, Miguel Geraldi, Leonardo Pace, Juliana Taino, Rogerio Nunes e Thayana Roverso atuam em todas as récitas, que serão regidas na totalidade por Minczuk e contam ainda com a participação do Coral Lírico Municipal.

LA TRAVIATA

Teatro Municipal. Pça. Ramos de Azevedo, s/nº, tel. 3053-2090. Sáb. (12), 2ª (14 e 21),4ª (16 e 23), 5ª (17), 6ª (18), 20h; dom. (13), 18h. R$ 40/R$ 150. Até 23/5. 

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