Mayra Azzi
Mayra Azzi

Relato de abuso une criação de artistas do Vertigem

'Enquanto Ela Dormia' constrói um eco visual da violência doméstica

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2017 | 06h00

Não é possível ignorar o sucesso criativo da Trilogia Bíblica do Teatro da Vertigem. Entre os anos 1992 e 2000, o modo de concepção dos primeiros espetáculos da companhia – no chão de igrejas, hospitais e cadeias desativadas – inspirou também a maneira de contemplar dramaturgias de outras origens. 

É parte dessa experiência, marca do trabalho dos integrantes da companhia de 26 anos, que dá suporte visual e dramatúrgico à peça Enquanto Ela Dormia, texto de Carol Pitzer dirigido por Eliana Monteiro, em cartaz no Centro Cultural Fiesp.

Mesmo que não se trate de um projeto do grupo conduzido por Antonio Araújo, mas um convite do núcleo de dramaturgia do Sesi, o caminho tomado na encenação segue trilhas semelhantes, conta a diretora. “Estabelecemos alguns eixos para refletir sobre o texto que traz um relato de abuso sexual por parte de uma professora de literatura.”

Na montagem, Lucienne Guedes está confinada em uma laboratório-consultório com grades e janelas. No centro, um pequeno espelho d’água desafia o corpo da atriz. “Começamos destacando a presença de referências aos contos de fadas, trazidas no discurso dessa professora”, conta Eliana. “Há também uma busca por entender a figura do feminino histórico e a condição física dela, que passa por um exame de endoscopia”, explica a diretora em referência visual ao trabalho da fotógrafa norte-americana Francesca Woodman, conhecida por criações em preto e branco protagonizadas por mulheres em espaços restritos. 

A mesma clausura que rega essa memória dolorida também está presente no espetáculo O Filho (2015), direção de Eliana em um reencontro com a obra de Kafka, abrigado em um labirinto de sofás. Parte dessa cenografia acabou não cabendo na turnê Kafka na Estrada, que leva a peça e uma mostra de filmes das peças do Vertigem. Neste ano, a agenda inclui paradas em Vitória, no Recife e em Salvador e, em 2018, em Porto Alegre e Santos.

Mas o que se insinua, então, em Enquanto Ela Dormia é um mergulho em direção às entranhas, inicialmente delicado, como uma conversa casual ou um exame de rotina, mas, aos poucos, surgem as revelações (ou seriam descobertas?) do autor do abuso. E é dentro dessa pequena e pesada estrutura com cerca de uma tonelada que a atriz tece confissões em um dueto com a iluminação de Guilherme Bonfanti. Em uma cena, Lucienne consegue emular um estado de tensão, trocando uma porção de água de recipiente para recipiente. Em outro instante, palavras são projetadas nos vidros das janelas, mas só ficam legíveis quando a atriz desliza um pano na superfície. “O que fazemos é encontrar suporte e apoios estéticos para revelar o texto”, ressalta a atriz.

E para quem aguarda por uma nova montagem do Vertigem, que não estreia no Brasil desde 2012, quando criou o cortejo de Bom Retiro, 958 Metros, o iluminador adianta que a companhia pretende encenar uma nova peça em 2018. 

ENQUANTO ELA DORMIA. Centro Cultural Fiesp. Av. Paulista, 1.313. Tel.: 3528-2000. 4ª, 5ª, 6ª e sáb., 20h30, dom., 19h30. Grátis. Até 22/10. 

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