Tom Rodrigues/Divulgação
Tom Rodrigues/Divulgação

Pedro Cardoso fala de redes sociais, de peça em cartaz e faz críticas à Rede Globo

"A classe artística está silenciada", disse o ator

Emanuel Bomfim, Julio Pacheco , Especial para o Estado

02 Julho 2015 | 22h00

Pedro Cardoso não está nas redes sociais. “Me sinto um tio velho”, diz o ator de 53 anos, amplamente reconhecido pelo papel de Agostinho Carrara, na finada A Grande Família. 

Apesar de ignorar o Facebook e afins, quando suas opiniões circulam nestas plataformas, elas costumam causar um alvoroço. Vide a participação no programa de Pedro Bial, Na Moral, quando falou sobre a indústria da celebridade. Seus disparos atingiram até a própria empresa que o projetou, a Rede Globo, da qual é artista contratado. A emissora, por intermédio da assessoria de imprensa, comunicou que não vai se pronunciar sobre a entrevista do ator.

A retórica argumentativa, digna de palanque político, continua afiada. “A classe artística está silenciada”, constata. Pedro não quer fazer o jogo do patrão; entende que a carga autoral do intérprete precisa ser mas valorizada. Algo que ele consegue dar vazão no teatro, onde está atualmente com o espetáculo O Homem Primitivo, em cartaz no teatro Frei Caneca, em SP. Divide cena com a mulher, a atriz Graziella Moretto, numa montagem que debate a presença da opressão sexista na humanidade. Antes de mais uma apresentação, visitou o estúdio da Rádio Estadão para participar do programa Estadão Noite. Os melhores momentos desta conversa, você lê abaixo. Para ouvir a entrevista completa, clique aqui.

Vocês fizeram um vídeo divertido como convite da peça, promovendo a hashtag #TitiosVelhosFazendoTeatro. Era só pela piada ou você se sente “tio” mesmo?

Tenho 53 anos e é uma novidade na minha vida. Há 20 anos, fiz parte de uma nova leva de atores, sendo muito bem recebido pela geração que me precedeu. Hoje, tem uma geração abaixo de mim, com o Marcelo Adnet, o Fábio Porchat e eu os admiro muito. Gosto de estar entre as gerações. Esses novos atores trouxeram também um novo hábito, que é a internet. Um tipo de comunicação completamente estranha para mim. Não estou em redes sociais, não entendo nada. Me sinto um tio velho, comemorando uma nova geração e uma nova forma de se comunicar. 

A passagem do tempo impõe muitas reflexões?

Sim, e acredito que você tem que entender bem o momento que você vive. Com meus 53 anos tenho outras questões na vida do que no passado. Gosto de estar nesta idade. Cada fase da vida tem sua beleza, sua graça. Ficar nostálgico pode tirá-lo do foco do presente. 

O avançar da idade faz perder a ousadia?

Toda vez que falo o que penso, gero um enorme mal-estar, porque costumo ir na contramão. Não sei se eu era ousado quando tinha 20 anos. Quando se é jovem, por conta do momento da vida, você está muito ávido a consumir informação. Talvez, com a idade, a gente se torne um consumidor mais criterioso. 

O Homem Primitivo aborda um tema milenar (opressão sexista), visto muitas vezes como algo superado. 

A peça é escrita em cima dessa constatação. Os anos 1960 foram muito relevantes e o feminismo teve ali uma série de conquistas. As mulheres obtiveram um certo avanço quando se fala de igualdade de gêneros. Mas isso tudo foi contaminado por interesses comerciais. Um exemplo disso é a nudez, que foi algo muito relevante na época. Mas hoje existe uma grande exploração comercial baseada naquela liberdade. A atriz recebe uma imposição do mercado para ficar nua em cena. A peça é uma tentativa de refletir uma circunstância de opressão ao mundo feminino.

Como foi escrevê-la, ao lado da sua mulher, Graziela?

Ela me trouxe uma série de conversas sobre feminismo e fui aprendendo com o tempo. Reunimos anotações durante muitos anos e escrevemos o texto a quatro mãos. É algo que eu jamais teria escrito sozinho, tudo ali tem uma visão compartilhada. 

Vocês vinham de uma experiência de improviso, não é?

Também foi por influência da Graziela. O improviso fazia parte do meu trabalho, mas dentro de uma estrutura dramatúrgica. Já ela improvisa com qualquer coisa. No risco. A beleza do improviso é o processo criativo exposto ao público. A gente tentou fazer isso na TV em um quadro no Fantástico, mas eles não se interessaram. Era verdadeiro demais para o Fantástico... Eles não suportaram tanta verdade. 

Ao levantar certas discussões, você sente que está sozinho?

Me sinto profundamente solitário. Acho que a classe artística perdeu a sua compreensão histórica. Nós não devemos nos contentar com o processo econômico que explora e remunera nosso trabalho. Adoro dinheiro, mas também não quero que o preço disso seja o meu silêncio. Os artistas vendem criatividade e as empresas de comunicação exploram isso. Também faltam políticas culturais vindas do governo. Não cabe ao Estado criar cultura, quem cria cultura é o povo – cabe ao Estado, por exemplo, dar infraestrutura para a cultura. E isso vale para os meios de comunicação também. Lutei muito dentro da Rede Globo para ter voz.

E houve acordo?

Se houvesse, teria hoje um cargo de chefia na TV Globo. Acho que eles não gostam que eu diga isso. Sou feliz de trabalhar na Globo, estou lá há 30 anos. Quero que ela seja a melhor, mas existe uma preguiça e um medo da liberdade. Na TV brasileira não há um projeto liderado por um ator. Não perguntam para o Lima Duarte ou para o Antônio Fagundes o que eles querem fazer – eles só ligam para os atores e dizem que tem um papel na novela os esperando. Por que um projeto na TV não pode nascer do desejo de um ator? Nós somos os autores de nossa própria interpretação. 

Tem o Marcelo Adnet... 

O Adnet é um caso raríssimo. Nunca me ofereceram essa liberdade. Ele tem isso porque trilhou um caminho diferente, ao fazer uma carreira muito forte fora do mainstream. Mas o Fábio Porchat, por exemplo, que é um menino talentosíssimo, não consegue ter um programa na TV aberta. 

Paga-se um preço muito alto por essa franqueza e autenticidade de ideias que você tem?

Sinto que algumas portas se fecharam por isso. Há uma certa preguiça em lidar comigo porque muitos artistas se acomodam nesta estrutura de comando. Não quero ter chefe, mas também não quero ser chefe de ninguém. A relação de poder dentro de uma produção tem que ser democrática. Certa vez, uma pessoa dentro da Globo se julgou meu chefe porque alguém lá de dentro o havia designado para isso. Respondi que não autorizava a Rede Globo a designar ninguém como meu chefe porque, no final das contas, eu que represento, e vou fazer do jeito que acho que deve ser feito. Qualquer emissora pode optar por não manter uma relação comercial comigo, mas eles não podem me obrigar a fazer algo que eles queiram. Só faço o que quero e, modéstia à parte, acho que é por isso que o público gosta do meu trabalho. É preciso autonomia. 

Você tem saudades do Agostinho Carrara?

Tenho muita. Do personagem, da amizade com todo elenco e equipe. Mas a maior saudade é de estar tão presente na vida do povo brasileiro. Se Deus quiser, vou voltar a ter um programa assim. Estou trabalhando nisso. 

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