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Peça 'Memórias de Adriano' conserva as qualidades do romance

Versão não dá conta de totalidade do romance, mas conserva beleza

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Maria Eugênia de Menezes,
O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2016 | 20h20

Sinal dos tempos de crise ou mera coincidência, fato é que os monólogos vicejam nesse início de temporada em São Paulo. Denise Weinberg está com o seu Testamento de Maria; Thiago Fragoso encena As Benevolentes; Luciano Chirolli se lança a Memórias de Adriano, adaptação do aclamado romance de Marguerite Yourcenar. 

Autobiografia imaginária do imperador romano, o livro mergulha no que teriam sido suas ideias e vivências. Traz, é certo, fatos da época em que viveu Adriano. Também retoma algumas de suas medidas e realizações como político. Vai além, porém, ao imaginar tanto o ímpeto que o animava quanto as angústias que o cercavam. A luzidia figura do estadista deixa entrever as rachaduras provocadas seja pelo amor extremo seja pela iminência da morte - experiências, aliás, muito próximas se observadas pela descrição que nos oferta a romancista. 

No espetáculo, em cartaz no CCSP, o texto da belga chega em adaptação de Thereza Falcão. Sua versão faz jus à literatura de Yourcenar, ao conservar, inclusive, alguns dos mais belos trechos do romance (e são inúmeras as passagens notáveis). A dramaturgia não se abstém, contudo, de privilegiar certos aspectos do original em detrimento de outros. Em especial, o peso dado à relação de Adriano com Antínoo, um adolescente que se suicida durante uma viagem dos dois. O enlevo e o tormento do imperador diante da paixão adquirem certa centralidade na leitura de Thereza. Lateralmente, surge sua ambição por justiça ou sua preocupação com o trabalho dos escravos. 

Escrito como uma carta endereçada a Marco Aurélio, futuro comandante do império, o romance é guiado por uma voz que passeia entre a narrativa histórica e a memorialística. Mas adquire tonalidade confessional mais proeminente no palco. 

Outro traço a distinguir o espetáculo de sua matriz literária é o grifo feito na relação entre a narrativa de Adriano e a contemporaneidade. Amplamente debatido, o espelhamento entre as figuras de Yourcenar e a de seu personagem passa pelo relacionamento com alguém mais jovem - que também marcou a carreira da escritora - assim como pelo seu testemunho da barbárie de duas guerras mundiais. Muitos, por isso, já elegeram o político como seu duplo. 

A direção de Inez Viana evidencia o vínculo com o presente com alguns procedimentos. O intérprete se despe das vestes de traços imperiais para adotar um terno de corte atual. Vale-se de um microfone para discursar. Conta com a presença de um músico, Marcello H, que interfere diretamente na cena. E recorre a um cenário que sobrepõe radiografias, como a evidenciar a fragilidade do corpo, a decrepitude e a doença que minam qualquer homem - mesmo aqueles que foram deuses em vida. 

Algumas dessas escolhas cênicas conseguem dialogar com a interpretação de Luciano Chirolli. Mas, parte delas não cria senão um ruído a ser superado. É o caso da trilha executada ao vivo, pouco pródiga em acrescentar qualquer significado ou ganho estético à proposta. 

Ressalvas feitas, cabe enfatizar os méritos da interpretação de Chirolli. O vínculo quase imediato que estabelece com a plateia. As mínimas nuances que logra transmitir. Um caminho sinuoso que vai do abatimento da enfermidade à vivacidade da paixão. A fé nas próprias ideias, o amor pelo que é belo e bom. Sua atuação é grande quando visceral, diante da perda e do medo. Ainda maior quando matiza algumas cenas com ironia quase subliminar. Um fio de zombaria delgadíssimo, mas essencial, a resguardar o personagem de qualquer autocomiseração. A engrandecer esse Adriano, que soa demasiado humano. 

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