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Peça 'A Merda' tira as máscaras antigas da hipocrisia

Christiane Tricerri encena e dirige monólogo

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

09 Julho 2015 | 03h00

Postada em um pedestal circense, iluminada por holofotes, uma mulher nua desfia um texto provocativo, escandaloso. Suas palavras são cantadas, uivadas, até gritadas. Aparentemente desarmada por conta da nudez, ela, na verdade, narra uma história pessoal por meio de um fluxo ininterrupto de pensamentos. É essa luta de obstinação, resistência e coragem que Christiane Tricerri apresenta em A Merda (La Merda), do italiano Cristian Ceresoli, que estreia nesta quinta-feira no Auditório do Sesc Pinheiros.

O palco tornou-se um espaço privilegiado para Christiane revelar suas inquietudes com a arte e a vida em sociedade. Sua presença forte, impactante, permitiu que grandes diretores criassem obras sonoras, instigantes. Foi assim com José Celso Martinez Corrêa, que a conduziu em Mistérios Gozozos (1994) ou na parceria de uma década com Cacá Rosset em montagens como Ubu e O Doente Imaginário.

“De várias formas, sempre usei meu corpo para falar”, comenta a atriz, que também assina a direção do monólogo. “Um dos temas desse texto é a violência contra as mulheres. Em um mundo politicamente correto, não podemos pronunciar as palavras preto, negro, aleijado, surdo, para tudo existe a palavra correta escondendo o preconceito. No entanto, as mulheres podem continuar sendo chamadas de diversos nomes ao agirem fora do esperado socialmente e serem exploradas até a última gota. Volto a usar meu corpo, dessa vez, dando voz ao politicamente incorreto, e arrancando certas máscaras da hipocrisia.”

Christiane segue a trajetória da italiana Silvia Gallerano, que estrelou a primeira montagem da peça em 2012. “La Merda é um fluxo de consciência em que há uma explosão múltipla de ideias simultâneas, uma espécie de peça contrapontística escrita como se fosse música”, disse Ceresoli ao Estado, em entrevista por e-mail. “Um fluxo insano, uma cascata frágil que se torna um mecanismo mais preciso, que deveria ser incorporado mais que representado. Por isso, acredito que, no Brasil, cada um entenderá a ópera de maneira diferente, como se cada ser humano, no interior do próprio caos, pudesse descobrir histórias diferentes, elementos íntimos distintos que devem ser combinados, e mesmo reescritos na mente ou no corpo de cada um.”

Foi o que encantou Christiane, a ponto de aceitar o papel e também a direção. “É um texto feroz, impactante, cru, de humanidade e poesia à flor da carne”, conta. Ceresoli está em São Paulo, onde acompanha a montagem brasileira. Além de fazer elogios à tradução de Francisco Ancona, o dramaturgo fez importantes observações sobre a encenação. 

“Trata-se de um texto estritamente literário, que exige não só qualidades técnicas excepcionais, mas também um nível de exposição que faz com que seja quase impossível ser interpretado. Poucas pessoas o conseguem, eu sei”, observa. “Não se trata de interpretar apenas, mas principalmente de incorporar o texto. Preferivelmente com sinceridade. Um processo que leva pelo menos um ano e dezenas de representações.”

Como a produção brasileira não teve esse tempo, inspirou-se no original italiano e não partiu para uma criação própria, como fizeram dinamarqueses e, agora, os austríacos. “Mas, nestes dias aqui no Brasil, tentei incentivar o pessoal a encontrar seu próprio caminho.”

'Para ser brutal, é preciso certa honestidade' - Cristian Ceresoli - DRAMATURGO ITALIANO

Qual é a função da violência em sua obra? 

Talvez eu não veja a violência com uma função mecânica, talvez exista a necessidade de ser brutal e, para ser brutal, você também precisa de certa honestidade e compreensão humana das atrocidades. Ou compreensão da natureza humana, e da alegria. La Merda foi provavelmente inspirada por uma tentativa desesperada de sairmos da lama, constituída pelos produtos mais recentes do genocídio cultural desde que a moderna sociedade de consumo começou a tomar forma. 

Você acredita que os dramaturgos têm uma obrigação moral para com seus personagens? 

Se eu tivesse obrigações, elas seriam humanas e não morais, e elas diriam respeito a cada consoante e vogal que escrevo ou deixo de escrever. E essas vogais e consoantes ou palavras e frases criam um som em que o caráter emerge e, espero, permanece profundamente, mesmo que queira significar uma fuga. 

A MERDA

Auditório do Sesc Pinheiros.

Rua Paes Leme, 195. Tel.: 3095-9400. 5ª, 6ª e Sábados, 20h30. 

R$ 7,50/R$ 25. Estreia nesta quinta, às 18 h

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