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'O Musical Mamonas' revive o bom humor da banda nos 20 anos de morte

- Atualizado: 01 Março 2016 | 05h 00

Elenco vai reproduzir o clima de liberdade total que caracterizava o grupo

Foi um sucesso inacreditável, meteórico - durante pouco mais de sete meses, entre junho de 1995, quando estouraram nas paradas com seu único álbum de estúdio, até 2 de março de 1996, quando morreram em um acidente de avião, os cinco integrantes do grupo Mamonas Assassinas se tornaram celebridades, fazendo shows por todo o País e se apresentando em todos os programas populares de TV. É dessa carreira espetacular que trata O Musical Mamonas, que estreia no dia 11 de março, no Teatro Raul Cortez.

Em pouco mais de 120 minutos, o espetáculo mostra como Bento, Dinho, Júlio, Samuel e Sergio se conheceram e viraram a MPB de ponta-cabeça, vendendo mais de 3 milhões de cópias de seu único LP, Mamonas Assassinas, e faturando o cobiçado disco de diamante.

“Eles representaram o máximo do humor, da brincadeira, da caricatura na música popular brasileira”, observa o diretor José Possi Neto. “Quando se assumiram como um grupo de rock cômico, os Mamonas puderam usar bem à vontade a liberdade para mixar gêneros musicais, unindo em um mesmo disco punk com forró, pagode com metal.”

Experiente nesse gênero artístico - transita com segurança entre a ópera e os musicais -, Possi Neto confessa que eliminou qualquer dúvida sobre aceitar a direção do espetáculo (afinal, apesar de contagiante, a alegria dos rapazes de Guarulhos nunca havia cruzado seu caminho) ao ler a primeira cena. “Ali, notei que o assunto seria tratado com leveza, mesmo o fim sendo inevitavelmente trágico”, afirmou ainda.

O Musical Mamonas nasceu da paixão dos produtores Rose Dalney, Márcio Sam e Túlio Rivadávia, que convidaram Walter Daguerre para escrever o roteiro. O desafio estava não em como contar a história do grupo, recheada de lances engraçados e de sorte, mas em como apresentar o fim trágico, quando o jatinho que trazia os Mamonas de um show em Brasília se espatifou na Serra da Cantareira, na noite do dia 2 de março de 1996, às vésperas de uma viagem a Portugal.

Elenco. Grupo foi escolhido em audição e não podia ser apenas de clones dos músicos
Elenco. Grupo foi escolhido em audição e não podia ser apenas de clones dos músicos

A solução foi engenhosa: quando a cortina abre, depois de uma abertura que costura trechos dos principais sucessos da banda, os rapazes aparecem em um lugar semelhante ao céu. E Deus lhes dá uma missão: contar a própria história no formato musical.

O anjo Gabriel é quem traz a missão para os cinco rapazes do Mamonas Assassinas: a fim de dar um jeito na caretice que tomou conta da vida dos brasileiros, Bento, Dinho, Júlio, Samuel e Sergio resolvem criar um musical biográfico em que contam como se transformaram em um sucesso arrasa-quarteirão com canções de nível duvidoso (afinal, usavam expressões chulas como “passar a mão na bunda” e “cabelos do saco”), que encantaram principalmente as crianças.

“A primeira lembrança que me veio deles quando comecei a trabalhar em O Musical Mamonas foi o humor infantil, aquela facilidade muito brasileira para lidar e brincar com preconceitos sem ser ofensivo. Enfim, a irreverência plena”, comenta o diretor José Possi Neto que, experiente, descobriu o fio da meada ao dissecar o roteiro original do dramaturgo Walter Daguerre, autor do musical Jim, sobre Jim Morrison.

Como o encadeamento das cenas facilitava mais uma encenação teatral, Possi e o diretor musical Miguel Briamonte encaixaram “momentos musicais”, que não apenas reforçaram o gênero do espetáculo como facilitaram a troca de figurinos e de cenários.

“Mas um detalhe era essencial valorizar, pois, caso contrário, o musical correria o risco de ficar chato e não representar o espírito dos Mamonas: a paródia. Eles brincaram com música mexicana (em Pelados em Santos), pagode (Lá Vem o Alemão), forró (Jumento Celestino), canção portuguesa (Vira-Vira), ou seja, se apropriavam da estrutura de cada ritmo e as transformavam até surgir algo novo”, observa Possi.

Originais. Garotos de Guarulhos tiveram pouco mais de sete meses de sucesso
Originais. Garotos de Guarulhos tiveram pouco mais de sete meses de sucesso

Outra escolha que se revelou valiosa foi a de utilizar também canções que marcaram os anos 1990, além das compostas pelos Mamonas. Assim, antes de o grupo fazer sucesso, a história de sua trajetória é também contada por trabalhos do Legião Urbana, Pink Floyd, Titãs, Guns N’ Roses, Engenheiros do Havaí. 

“Na verdade, a primeira composição dos Mamonas, Mina, só aparece depois de 40 minutos do espetáculo”, comenta Ruy Brissac, que vive o vocalista Dinho. “E, mesmo assim, de forma surpreendente, só no violão, um estilo acústico, sem aquela loucura que marcava as apresentações deles.”

Brissac foi escolhido para o papel por intermédio de audições, assim como o restante do quinteto formado por Adriano Tunes (que vive o tecladista Julio), Yudi Tamashiro (o guitarrista Bento), Elcio Bonazzi (o baixista Samuel) e Arthur Ienzura (o baterista Sérgio). As semelhanças deles com seus personagens é impressionante. “Mas não queríamos clones dos Mamonas, ou seja, atores que imitassem os originais”, avisa Possi. “Muitos foram afastados durante a seleção, que foi direcionada de forma a termos um grupo que soubesse reprisar o espírito irreverente dos Mamonas.”

Para isso, Possi adotou uma forma de direção baseada no improviso - sem perder o fio da meada, afinal, um musical se sustenta em marcações precisas e canções no tom certo, ele incentivou o grupo a criar novas situações a cada dia de ensaio. “Esse clima é o que melhor retrata os Mamonas - eles não se sentiam presos a nada e faziam o que vinha à cabeça quando estavam no palco”, diz o diretor.

“Muitas vezes, eu me esqueço que estou em uma apresentação teatral, tamanho o clima de brincadeira que acontece entre a gente”, conta Yudi. “Os Mamonas viviam intensamente e isso exige uma boa preparação física”, completa Arthur Ienzura. “Sabemos da responsabilidade, pois já se criou uma enorme expectativa para o musical - tanto que nossa página no Facebook já tem 12 mil seguidores”, informa Elcio Bonazzi.

Como se trata de um elenco jovem, a preparação foi completada pelas visitas dos familiares dos rapazes de Guarulhos, que trouxeram informações preciosas. Também assistiu a um ensaio o empresário Rick Bonadio, que apostou na irreverência como melhor caminho para os Mamonas conquistarem o sucesso. No musical, ele é interpretado por Patrick Amstalden, talentoso ator que, além de bela voz, domina as cenas de humor.

Desde o início dos ensaios, José Possi Neto apostava na linguagem dos quadrinhos como a que melhor expressa a irreverência dos Mamonas. Foi esse conceito que inspirou o make-up designer Anderson Bueno a criar um visual bem-humorado, especialmente para os outros personagens. E, como Ruy é o que mais se parece com Dinho, Bueno cuidou dos cabelos e da barba dos demais para se aproximarem.

O MUSICAL MAMONAS

Teatro Raul Cortez.

Rua Dr. Plínio Barreto, 285. Telefone: 3254.1631. 5ª a sáb., 21h; dom., 18h. R$ 120. Até 29/5. Estreia em 11/3. 

Irreverência e rigor em cena

1. No tom de paródia que domina todo o musical, especialmente quando os atores brincam com as mudanças de cenário e com os saltos temporais da história.

2. No gestual dos atores, que conseguem reproduzir com precisão o que os Mamonas faziam no palco, fosse de um show ou mesmo de um programa de televisão.

3. Na primeira canção criada pelos Mamonas a surgir no espetáculo - já terão se passado mais de 40 minutos do musical quando Dinho (Ruy Brissac) saca de um violão e canta, a capela, Mina.

4. Nos diversos papéis interpretados por Patrick Amstalden, especialmente o político que contrata os Mamonas para cantar em seu comício e cuja voz se assemelha à de um ex-presidente.

5. No tema de abertura da peça, medley criado pelo diretor Miguel Briamonte e que une trechos das principais canções do grupo.

6. Na coreografia de Vanessa Guillen, atlética e criativa, que permite ao elenco exibir sua versatilidade.

7. Na forma como é tratada a morte do grupo: em nenhum momento é mencionado o acidente, apenas uma fala é interrompida antes de terminar

Pelados em Santos

Vira Vira

Robocop Gay

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