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Felipe Rau|Estadão

'O Musical Mamonas' revive o bom humor da banda nos 20 anos de morte

Elenco vai reproduzir o clima de liberdade total que caracterizava o grupo

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Ubiratan Brasil,
O Estado de S.Paulo

01 Março 2016 | 05h00

Foi um sucesso inacreditável, meteórico - durante pouco mais de sete meses, entre junho de 1995, quando estouraram nas paradas com seu único álbum de estúdio, até 2 de março de 1996, quando morreram em um acidente de avião, os cinco integrantes do grupo Mamonas Assassinas se tornaram celebridades, fazendo shows por todo o País e se apresentando em todos os programas populares de TV. É dessa carreira espetacular que trata O Musical Mamonas, que estreia no dia 11 de março, no Teatro Raul Cortez.

Em pouco mais de 120 minutos, o espetáculo mostra como Bento, Dinho, Júlio, Samuel e Sergio se conheceram e viraram a MPB de ponta-cabeça, vendendo mais de 3 milhões de cópias de seu único LP, Mamonas Assassinas, e faturando o cobiçado disco de diamante.

“Eles representaram o máximo do humor, da brincadeira, da caricatura na música popular brasileira”, observa o diretor José Possi Neto. “Quando se assumiram como um grupo de rock cômico, os Mamonas puderam usar bem à vontade a liberdade para mixar gêneros musicais, unindo em um mesmo disco punk com forró, pagode com metal.”

Experiente nesse gênero artístico - transita com segurança entre a ópera e os musicais -, Possi Neto confessa que eliminou qualquer dúvida sobre aceitar a direção do espetáculo (afinal, apesar de contagiante, a alegria dos rapazes de Guarulhos nunca havia cruzado seu caminho) ao ler a primeira cena. “Ali, notei que o assunto seria tratado com leveza, mesmo o fim sendo inevitavelmente trágico”, afirmou ainda.

O Musical Mamonas nasceu da paixão dos produtores Rose Dalney, Márcio Sam e Túlio Rivadávia, que convidaram Walter Daguerre para escrever o roteiro. O desafio estava não em como contar a história do grupo, recheada de lances engraçados e de sorte, mas em como apresentar o fim trágico, quando o jatinho que trazia os Mamonas de um show em Brasília se espatifou na Serra da Cantareira, na noite do dia 2 de março de 1996, às vésperas de uma viagem a Portugal.

A solução foi engenhosa: quando a cortina abre, depois de uma abertura que costura trechos dos principais sucessos da banda, os rapazes aparecem em um lugar semelhante ao céu. E Deus lhes dá uma missão: contar a própria história no formato musical.

O anjo Gabriel é quem traz a missão para os cinco rapazes do Mamonas Assassinas: a fim de dar um jeito na caretice que tomou conta da vida dos brasileiros, Bento, Dinho, Júlio, Samuel e Sergio resolvem criar um musical biográfico em que contam como se transformaram em um sucesso arrasa-quarteirão com canções de nível duvidoso (afinal, usavam expressões chulas como “passar a mão na bunda” e “cabelos do saco”), que encantaram principalmente as crianças.

“A primeira lembrança que me veio deles quando comecei a trabalhar em O Musical Mamonas foi o humor infantil, aquela facilidade muito brasileira para lidar e brincar com preconceitos sem ser ofensivo. Enfim, a irreverência plena”, comenta o diretor José Possi Neto que, experiente, descobriu o fio da meada ao dissecar o roteiro original do dramaturgo Walter Daguerre, autor do musical Jim, sobre Jim Morrison.

Como o encadeamento das cenas facilitava mais uma encenação teatral, Possi e o diretor musical Miguel Briamonte encaixaram “momentos musicais”, que não apenas reforçaram o gênero do espetáculo como facilitaram a troca de figurinos e de cenários.

“Mas um detalhe era essencial valorizar, pois, caso contrário, o musical correria o risco de ficar chato e não representar o espírito dos Mamonas: a paródia. Eles brincaram com música mexicana (em Pelados em Santos), pagode (Lá Vem o Alemão), forró (Jumento Celestino), canção portuguesa (Vira-Vira), ou seja, se apropriavam da estrutura de cada ritmo e as transformavam até surgir algo novo”, observa Possi.

Outra escolha que se revelou valiosa foi a de utilizar também canções que marcaram os anos 1990, além das compostas pelos Mamonas. Assim, antes de o grupo fazer sucesso, a história de sua trajetória é também contada por trabalhos do Legião Urbana, Pink Floyd, Titãs, Guns N’ Roses, Engenheiros do Havaí. 

“Na verdade, a primeira composição dos Mamonas, Mina, só aparece depois de 40 minutos do espetáculo”, comenta Ruy Brissac, que vive o vocalista Dinho. “E, mesmo assim, de forma surpreendente, só no violão, um estilo acústico, sem aquela loucura que marcava as apresentações deles.”

Brissac foi escolhido para o papel por intermédio de audições, assim como o restante do quinteto formado por Adriano Tunes (que vive o tecladista Julio), Yudi Tamashiro (o guitarrista Bento), Elcio Bonazzi (o baixista Samuel) e Arthur Ienzura (o baterista Sérgio). As semelhanças deles com seus personagens é impressionante. “Mas não queríamos clones dos Mamonas, ou seja, atores que imitassem os originais”, avisa Possi. “Muitos foram afastados durante a seleção, que foi direcionada de forma a termos um grupo que soubesse reprisar o espírito irreverente dos Mamonas.”

Para isso, Possi adotou uma forma de direção baseada no improviso - sem perder o fio da meada, afinal, um musical se sustenta em marcações precisas e canções no tom certo, ele incentivou o grupo a criar novas situações a cada dia de ensaio. “Esse clima é o que melhor retrata os Mamonas - eles não se sentiam presos a nada e faziam o que vinha à cabeça quando estavam no palco”, diz o diretor.

“Muitas vezes, eu me esqueço que estou em uma apresentação teatral, tamanho o clima de brincadeira que acontece entre a gente”, conta Yudi. “Os Mamonas viviam intensamente e isso exige uma boa preparação física”, completa Arthur Ienzura. “Sabemos da responsabilidade, pois já se criou uma enorme expectativa para o musical - tanto que nossa página no Facebook já tem 12 mil seguidores”, informa Elcio Bonazzi.

Como se trata de um elenco jovem, a preparação foi completada pelas visitas dos familiares dos rapazes de Guarulhos, que trouxeram informações preciosas. Também assistiu a um ensaio o empresário Rick Bonadio, que apostou na irreverência como melhor caminho para os Mamonas conquistarem o sucesso. No musical, ele é interpretado por Patrick Amstalden, talentoso ator que, além de bela voz, domina as cenas de humor.

Desde o início dos ensaios, José Possi Neto apostava na linguagem dos quadrinhos como a que melhor expressa a irreverência dos Mamonas. Foi esse conceito que inspirou o make-up designer Anderson Bueno a criar um visual bem-humorado, especialmente para os outros personagens. E, como Ruy é o que mais se parece com Dinho, Bueno cuidou dos cabelos e da barba dos demais para se aproximarem.

O MUSICAL MAMONAS

Teatro Raul Cortez.

Rua Dr. Plínio Barreto, 285. Telefone: 3254.1631. 5ª a sáb., 21h; dom., 18h. R$ 120. Até 29/5. Estreia em 11/3. 

Irreverência e rigor em cena

1. No tom de paródia que domina todo o musical, especialmente quando os atores brincam com as mudanças de cenário e com os saltos temporais da história.

2. No gestual dos atores, que conseguem reproduzir com precisão o que os Mamonas faziam no palco, fosse de um show ou mesmo de um programa de televisão.

3. Na primeira canção criada pelos Mamonas a surgir no espetáculo - já terão se passado mais de 40 minutos do musical quando Dinho (Ruy Brissac) saca de um violão e canta, a capela, Mina.

4. Nos diversos papéis interpretados por Patrick Amstalden, especialmente o político que contrata os Mamonas para cantar em seu comício e cuja voz se assemelha à de um ex-presidente.

5. No tema de abertura da peça, medley criado pelo diretor Miguel Briamonte e que une trechos das principais canções do grupo.

6. Na coreografia de Vanessa Guillen, atlética e criativa, que permite ao elenco exibir sua versatilidade.

7. Na forma como é tratada a morte do grupo: em nenhum momento é mencionado o acidente, apenas uma fala é interrompida antes de terminar

Pelados em Santos

Vira Vira

Robocop Gay

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