JAIRO GOLDFLUS/DIVULGAÇÃO
JAIRO GOLDFLUS/DIVULGAÇÃO

O musical ‘Antes Tarde do que Nunca’ brinca com política e costumes

Espetáculo com Miguel Falabella e Simone Gutierrez aposta no tom farsesco e ganha toque especial com música dos irmãos Gershwin

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

13 Agosto 2015 | 03h00

A cena provoca risadas nos próprios atores no palco – em um determinado momento do musical Antes Tarde do que Nunca, que estreia no dia 21, no Teatro Cetip, Miguel Falabella, no papel de um playboy que vive às custas da família, dispara um discurso aparentemente sem nexo, montado a partir de frases ditas por políticos, especialmente a presidente Dilma Rousseff. “É, como chamamos, o momento lengalenga, quando vou utilizar as barbaridades ditas pelos nossos governantes, especialmente a presidente”, comenta o ator. “E, a julgar pelo que estamos ouvindo, terei material novo a cada dia.”

E as referências políticas não param por aí – ainda em Antes Tarde do que Nunca, há um senador, Max Evergreen (Carlos Capeletti), cuja voz imita a do deputado Paulo Maluf fazendo promessas. E, em outro espetáculo, Raia 30 – O Musical, Claudia Raia vive, em determinado momento, Olívia, mulher que é ao mesmo tempo empregadora e empregada de uma mesma empresa, maravilhoso delírio surreal, e que também fala em “mulher sapiens” e faz elogios à mandioca, referências que arrancam gargalhadas da plateia.

Com isso, os novos musicais que não precisam seguir à risca o formato original da Broadway resgatam uma tradição que marcou o teatro e a música popular da metade do século passado, a de satirizar especialmente os políticos e suas atitudes, criando caricaturas a partir de suas características muito particulares, seja o discurso e o tom de voz, seja o gestual. 

Em Antes Tarde do que Nunca, baseado em Nice Work if You Can Get it, que ganhou os palcos da Broadway em abril de 2012, além da ironia política, há ainda uma brincadeira com o próprio Falabella – em um determinado momento do espetáculo, a personagem Estonia, vivida por Luciana Milano, questiona os acontecimentos que, naqueles anos 1920, julga indecentes. “Daqui a pouco, vamos até ver crianças em musicais”, diz ela, irônica referência ao problema vivido por Falabella em outro espetáculo, Memórias de um Gigolô, em que um juiz da Infância e Juventude do Tribunal Regional do Trabalho da 2.ª Região impediu, em julho, a participação de atores mirins, alegando que eles conviviam com linguagem inadequada para sua idade, o que poderia prejudicar seu desenvolvimento psíquico.

“Vivemos um momento culturalmente preocupante”, comenta Falabella.

A década de 1920 é conhecida como a época dos “anos loucos”, período de desafogo cultural e social entre duas guerras mundiais, quando a vida era uma farra, tudo parecia possível, fortunas nasciam do dia para a noite graças à especulação da bolsa de valores, até que o crack de 1929 marcasse o início da depressão. É nesse momento de euforia que acontece a trama de Antes Tarde do que Nunca, musical que estreia no dia 21, no Teatro Cetip, com produção da T4F.

“Foi uma época de muita farra, quando tudo parecia permitido”, comenta Miguel Falabella que, além de adaptar o texto original da Broadway, vive o personagem principal, Jimmy Winter, playboy que vive às custas da mãe e, para não perder essa boa vida, é obrigado a finalmente se casar com uma mulher de respeito, a bailarina Eileen (Jana Amorim). Tudo parece caminhar bem até Jimmy conhecer Billie Bendix (Simone Gutierrez), contrabandista de bebida por quem se apaixona.

“Eles acabam formando o casal mais improvável do mundo”, comenta o diretor do espetáculo, José Possi Neto, “o que, naquela época de tanta liberdade e até libertinagem, não era novidade.” De fato, o tom farsesco impera na montagem, que segue, de uma certa forma, o original, Nice Work if You Can Get it, que estreou na Broadway em 2012 contando com dois grandes trunfos: a participação do ator Matthew Broderick (o eterno Ferris Bueller, do filme Curtindo a Vida Adoidado como Jimmy e, principalmente, das músicas originais dos irmãos compositores George e Ira Gershwin.

Para evitar a caricatura, a produção precisou ser muito criteriosa na seleção de elenco. “O exagero é permitido até certo ponto, mas conseguimos o equilíbrio ideal com os atores escolhidos”, conta Possi Neto. De fato, o humor é conquistado por meio dos detalhes. Jana Amorim, por exemplo, utiliza toda sua elasticidade de bailarina para compor uma hilariante Eileen, da mesma forma que Claudio Galvan e Patrick Amstalden, que interpretam com extrema capacidade cômica Biscoito e Duke, os atrapalhados contrabandistas que auxiliam Billie a esconder a bebida cujo consumo, na época da lei seca, era proibido. “Fiquei surpreso, pois todos, sem exceção, sempre ofereceram dicas que foram incorporadas a seus papéis”, comenta o diretor.

O nome original do musical foi inspirado pela canção que tem o mesmo título e que se tornou muito popular nos Estados Unidos – foi gravada por artistas como Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Billie Holiday. É também uma das nove músicas que a dupla Gershwin compôs para o filme Cativa e Cativante, de 1937, com direção de George Stevens, a partir de um original de P. G. Wodehouse.

“Levei semanas para adaptar as letras das canções, especialmente de Fascinating Rhythm, que se tornou aqui O Ritmo de Enlouquecer”, conta Falabella que, ainda preso à gravação da última temporada do seriado Pé na Cova, da Globo, aproveitava a complicação do trânsito carioca (“Era quase uma hora e meia de viagem entre minha casa e o Projac”) para se concentrar no trabalho. “O problema está na sílaba tônica que, no inglês, é diferente do português.”

Falabella vem se especializando no período em que se passa o musical, pois é o mesmo de A Madrinha Embriagada, espetáculo que cumpriu temporada em 2013 e foi ambientado na São Paulo dos anos 1920, e se aproxima de Memórias de um Gigolô, ainda em cartaz e cuja trama se passa na década de 1930.

O clima festivo se traduz também na coreografia, criada por Fernanda Chamma, que une estilo clássico com popular. “Gosto muito de trabalhar com material de época, especialmente com a linguagem americana de dança”, conta a coreógrafa, que pretendeu fazer algo moderno que contivesse características da época. O resultado são números elaborados, com passos que fazem tanto lembrar das danças atuais como dos antigos foxtrote e Charleston.

“Como as canções do musical têm um forte tom jazzístico, resolvi aproveitar o som dos instrumentos de sopro para conduzir a coreografia”, explica Fernanda, que aproveitou também para brincar com os clássicos. “Incluí ainda uma sátira ao balé tradicional, aquele glamourizado por dançarinas como Isadora Duncan.”

As escolhas foram apoiadas pelo diretor. “Fernanda criou uma coreografia que tem dramaturgia”, comenta José Possi Neto. “Isso permite que o espetáculo seja mais orgânico, ou seja, que os momentos em que os personagens começam a cantar e dançar revelem uma continuidade da história.”

Os anos 1920 inspiram também o cenário art déco de Renato Theobaldo e os figurinos de Fábio Namatame. A direção musical de Josimar Carneiro recria, a partir da versão em português das letras feita por Miguel Falabella, o estilo perfeito criado pelos irmãos Gershwin. 

Elenco prima pelos gestuais

1. Nas piadas nonsense que pontuam o espetáculo, especialmente as disparadas por Miguel Falabella, muitas delas improvisadas.

2. No gestual de Jana Amorim, que interpreta Eileen, a bailarina cheia de trejeitos. Todos os gestos que são marcantes de uma bailarina acabam utilizados pela atriz com grande comicidade.

3. Na coreografia de Fernanda Chamma, que mistura o clássico com dança moderna, ou seja, o balé unido ao Charleston. 

4. Na chapliniana figura criada por Patrick Amstalden, que vive o desastrado contrabandista Duke Mahoney – o ator arranca gargalhadas com sua figura esguia.

As surpresas de Simone Gutierrez

Simone Gutierrez é um fenômeno do teatro musical. Com 1,50 m de altura e peso que já variou entre 62 kg e 100 kg, a atriz surpreende com uma voz potente, vigorosa e melodiosa e, principalmente, por uma incrível elasticidade. “Sei que surpreendo muita gente com minhas atuações”, diverte-se ela que, em Antes Tarde do que Nunca, faz malabarismos físicos em uma cena que divide com Miguel Falabella na cama. “É meu momento Daiane dos Santos”, brinca ela, referindo-se à ginasta olímpica.

Não foi a primeira vez que ela exibiu sua versatilidade física. Em 2009, quando participou do musical Hairspray, Simone precisou engordar 20 kg para viver uma adolescente gordinha que sonhava participar de um programa de televisão. Em um determinado momento, ela se atirava no chão e abria as pernas até fazer um espacate.

Já em New York, New York, de 2011, a novidade foi cantar de ponta cabeça. “Acho que o grande barato de qualquer musical é o gesto improvável, aquele que deixa o espectador boquiaberto”, comenta. 

Em Antes Tarde do que Nunca, além da coreografia de ginasta olímpica, ela começa o espetáculo interpretando uma mulher que se disfarça de homem. “Billie é uma moleca, pois conviveu com bandidos a vida inteira e, por isso, sempre acreditou que não se apaixonaria por homens”, observa. “É um tipo de papel que abre muitas possibilidades.”  “Simone é uma atriz rara, que gosta de enfrentar desafios”, comenta a coreógrafa Fernanda Chamma. “Isso nos obriga a sempre pensar em uma dificuldade a mais.”

SERVIÇO: 

ANTES TARDE DO QUE NUNCA. Teatro Cetip.Rua dos Coropés, 88, tel. 4003-5588. 5ª e 6ª, às 21h; sáb., às 17h e 21h; dom., às 17h. R$ 50/R$ 230. Até 25/10. Estreia dia 20/8.

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