Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Nova musical de 'Cantando na Chuva' utiliza chuva de verdade pela primeira vez no Brasil

Produto usado pelos atores impede a total absorção da água pelo tecido das roupas

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

11 Agosto 2017 | 02h00

Se o paulistano reclama do baixo índice pluviométrico que vem castigando a cidade nas últimas semanas, ficará plenamente satisfeito ao entrar no Teatro Santander, a partir do sábado, 12. Na noite desse dia, estreia oficialmente Cantando na Chuva, um clássico entre os musicais que traz, além de canções notáveis e coreografias belíssimas, o espetáculo das gotas d’água jorrando em abundância, efeito especial que transforma o espetáculo em um dos principais do ano. “A cena é reproduzida no palco exatamente como é vista no cinema”, conta a produtora Stephanie Mayorkis, diretora da IMM Esporte e Entretenimento. “Cuidamos de todos os detalhes para garantir a exatidão, pois sabíamos que se trata de um momento icônico da cultura pop. Os espectadores não gostariam de ver outra coisa.”

Ou seja, evitar a mesma decepção enfrentada por Claudia Raia e Jarbas Homem de Melo, em 2012, quando assistiram a uma versão em Londres. Protagonista da montagem brasileira (Claudia também é uma das produtoras), a dupla se decepcionou quando, na mais aguardada cena, aquela em Don Lockwood (papel eternizado no cinema por Gene Kelly) dança na rua debaixo de um temporal, todos os bailarinos entraram em cena. “Foi frustrante”, lembra Jarbas que, fã de Kelly desde a infância, se tornou um exímio sapateador, como se preparasse para esse momento.

Um investimento de vida - Cantando na Chuva acompanha dois astros do cinema mudo, Lockwood e Lina Lamont (Claudia), que são obrigados a fazer a transição para os filmes falados. “O problema é que Lina, apesar do charme de uma Marlene Dietrich, tem uma voz horrorosa, o que a impede de dizer os diálogos sem provocar gargalhadas”, conta Claudia, que fez uma intensa preparação vocal. “Meu timbre habitual é o grave, mas aqui resolvi trabalhar em uma área desconhecida para mim, que é o agudo.” Com isso, surgem os melhores momentos cômicos do musical.

Para superar a dificuldade, Lockwood conta com a ajuda de dois amigos, Kathy Selden (Bruna Guerin) e Cosmo Brown (Reiner Tenente). Juntos, eles decidem montar um musical. “Cantando na Chuva é um típico produto dos anos 1950”, comenta Fred Hanson, americano responsável pela direção. “Naquela época, era comum ter cenas com balé, além do uso de canções clássicas dos anos 1920.”

Assim, a montagem brasileira traz duas novidades: o uso integral da música Broadway Melody (outras versões trazem apenas trechos) e a participação de Claudia Raia na famosa sequência de dança que, no cinema, foi vivida por Cyd Charisse. “Era um desperdício não utilizar o talento da Claudia, que estuda balé desde menina”, explica o diretor, que criou uma cena memorável.

A dança, aliás, foi um dos grandes desafios enfrentados pela produção. Para isso, foram convidadas a coreógrafa Kátia Barros e a coreógrafa de sapateado Chris Matallo. “Revisitei a época, marcada pelo jazz, e, a partir do corpo da Claudia, comecei a desenhar os movimentos para os outros bailarinos”, observa Kátia. Nesse contexto, entrou o trabalho de Chris. “O sapateado é dança para se ouvir e música para se ver”, comenta ela, lembrando que microfones foram instalados nos sapatos do elenco. “Afinal, a musicalidade tem de ser transposta também para os pés.”

Nenhum desafio foi maior, no entanto, que fazer chover no palco - afinal, como diz Claudia Raia, “a chuva é o quinto protagonista”. Para isso, foi contratada a empresa britânica Water Sculptures, especializada em simular de garoa a temporal. Assim, o Teatro Santander ganhou dois tanques, com capacidade para 8 mil litros de água, que produzem o efeito da chuva. O palco foi adaptado para receber um sistema de filtragem e outro de aquecimento, que mantém a água a uma temperatura de 29º C.

Chris Matallo fez testes com sapatos masculinos e femininos com o palco molhado e aprovou. Basta ver o grande final, no qual todos dançam sob a chuva. Momento em que se unem vários talentos do musical brasileiro, como Lázaro Menezes, Thiago Machado, Nábia Villela, Julio Assad e Dagoberto Feliz, entre outros.

O desafio do figurino que não encharca

O figurinista Fabio Namatame enfrentou dois desafios, em Cantando na Chuva. No primeiro, conseguir desenhar figurinos que se assemelhassem aos do filme original. “Meu objetivo era reproduzir no palco o mesmo visual do cinema”, conta ele, que foi feliz especialmente nos modelos usados pela personagem Kathy Selden.

O segundo, mais arrojado, era tornar o figurino à prova d’água. “Fiz diversos testes com produtos que impermeabilizassem qualquer material até descobrir um que servisse para tecidos e também calçados”, conta o figurinista. “Os testes foram feitos em sua maioria nas roupas usadas pelo Jarbas (Homem de Melo). Afinal, ele chega a se posicionar debaixo de um cano jorrando água. Conseguimos que o tecido molhasse, mas não encharcasse."

CANTANDO NA CHUVA

Teatro Santander. Shopping JK. Av. Juscelino Kubitschek, 2.041. 5ª e 6ª, 21h. Sáb., 17h/21h. Dom., 16h/20h. R$ 50/R$ 260. Até 26/11

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.