LEO AVERSA/DIVULGAÇÃO
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'Bilac Vê Estrelas', comédia musical com 15 canções inéditas de Nei Lopes, estreia em SP

Baseado em livro de Ruy Castro publicado em 2000, espetáculo terá estreia na sexta-feira, 29, com André Dias e Sérgio Menezes no elenco

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

28 Maio 2015 | 04h00

Na onda de musicais brasileiros inspirados em biografias, que bem ou mal assolam o mercado, uma produção nacional prestes a estrear em São Paulo desponta como honrosa exceção - inspirada em um livro de Ruy Castro, Bilac Vê Estrelas é uma comédia musical com um roteiro bem articulado para o palco, obra de Heloisa Seixas e Julia Romeu, que equilibraram realidade e ficção sem que uma agredisse a outra. Não bastasse isso, o espetáculo traz 15 canções especialmente escritas por Nei Lopes, grande pesquisador do cancioneiro nacional. Uma pequena joia de diferentes quilates distribuídos entre lundus, modinhas, maxixes e valsas. A peça entra em cartaz nesta sexta-feira, 29, no Espaço Promon.

A trama é deliciosamente rocambolesca - no início do século passado, quando o Rio de Janeiro desfrutava sua belle époque, o poeta Olavo Bilac (André Dias) e o jornalista José do Patrocínio (Sergio Menezes) enfrentam a cobiça de Eduarda Bandeira (Amanda Acosta), espiã portuguesa que se alia ao Padre Maximiliano (Caike Luna) para roubar o projeto de um dirigível, criado por Patrocínio. A vilã, que pretende vender o plano para os americanos, tenta seduzir Bilac por meio do pompoarismo (técnica milenar originária na Índia, que consiste no fortalecimento da musculatura vaginal), que aprendeu com um amante na Itália. 

Primeiro romance assinado por Ruy Castro, Bilac Vê Estrelas foi lançado em 2000, pela Companhia das Letras. Em 2007, ele publicou Era no Tempo do Rei, que também deu origem a um musical, com o mesmo time: direção de João Fonseca e texto de Heloisa e Julia. A experiência facilitou a adaptação de Bilac. “Foi mais simples. As dificuldades foram as de qualquer transposição de literatura para teatro. Tivemos de cortar personagens, transformar cenas e modificar a trama do livro. Era preciso ter em mente que seria um musical, com um ritmo próprio”, pondera Heloisa. Ela assegura que Ruy não participou da adaptação. “Tomamos muitas liberdades e, por isso, achamos que era melhor ele só ver o resultado final.” 

Um dos mais importantes poetas parnasianos do Brasil, Olavo Bilac (1865-1918) era um homem vaidoso - para disfarçar o estrabismo, usava um pincenê e só fotografava de perfil. “Seu ego vivia inflado, mas busquei sua humanidade para construir o personagem”, conta André Dias, que interpreta o escritor em Bilac Vê Estrelas. Artista sensível, além de diretor (é responsável por Vingança, inspirado em canções de Lupicínio Rodrigues), Dias já coleciona grandes interpretações, baseadas nos detalhes, e o poeta parnasiano é uma delas.

“João (Fonseca, o diretor) planejou uma comédia física, por isso, eu me inspirei no cinema mudo e sua simplicidade. Mais especificamente, busquei ajuda em um dos meus comediantes favoritos, Buster Keaton”, conta o ator, referindo-se a um dos gênios do cinema que, ao lado de Charles Chaplin, fazia tudo acontecendo diante dos olhos do público, sem cortes. Keaton, de fato, foi um dos primeiros a desenvolver uma linguagem visual no cinema - seus olhos, aparentemente impassíveis, eram coreografados.

“Procurei criar uma configuração física baseada naquele ar desenvolto do Keaton, especialmente quando Bilac tenta (e não consegue) esconder a vesguice”, explica André Dias, confessando se sentir privilegiado por participar de um musical com canções especialmente compostas para o espetáculo. “Isso ajudou a moldar o personagem.”

De fato, um dos grandes trunfos de Bilac Vê Estrelas é a qualidade das letras e melodias das 15 canções criadas por Nei Lopes. A ideia de convidar o compositor e pesquisador foi de Ruy Castro. “Mais conhecido como sambista, Nei fez toda a trilha à base de maxixes, xotes, quadrilhas francesas, valsas, modinhas, fados, polcas etc., menos sambas - porque o samba ainda não existia em 1903, quando se passa a história”, conta o escritor.

Convidado, Lopes aceitou de imediato. “Sou filho do século 19”, brinca o compositor. “Quando menino, costumava escutar minha mãe cantando enquanto passava roupa e cuidava da casa. Eram canções de Sinhô, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Anacleto de Menezes, autores que me inspiraram quando escrevi para o musical”, conta Lopes, também estudioso da cultura afro-brasileira.

De posse de um alentado resumo do texto da peça preparado pelas autoras Heloisa Seixas e Julia Romeu, o compositor se debruçou sobre a obra. “Heloisa e Julia me forneceram um excelente material, com indicações onde cada canção deveria entrar. Com isso, ficou mais fácil tocar o trabalho”, conta Lopes que, especializado em fazer jingles publicitários, não se sentiu incomodado com o tamanho da tarefa. “Cheguei a compor 18 canções e eles escolheram 15.”

Inicialmente, a melodia seria composta por Marcos Valle que, por conta de outros compromissos, não pode assumir a tarefa. “Foi quando o Ruy me ligou, dizendo: ‘Se você compôs a letra, pode também criar a música’. No fundo, ele sabe que todo letrista sempre tem, no íntimo, uma melodia para cada canção.”

Mesmo sem saber ler ou escrever partituras, Nei Lopes não se fez de rogado - com um gravador à mão, cantou cada uma das 15 músicas e enviou as gravações por MP3 para o arranjador e diretor musical Luís Felipe de Lima, que traduziu em cifras todas as melodias. “Cantei devagarinho para não deixar dúvidas sobre as notas”, conta Lopes.

O resultado final já é uma pequena obra-prima - Lopes capta com precisão o período e o espírito cultural da então capital brasileira e seus pontos clássicos, como a Rua do Ouvidor e a Confeitaria Colombo. Conta também curiosidades, como a famosa falta de habilidade de Bilac como motorista: “Pisou fundo na tábua / E enchendo mesmo o pé / Como quem pisa e mata / Uma barata, um salalé. / Aí, o bicho brabo incorporou Ogum / Saiu em ziguezague / Relinchando, dando pum”.

Completam o elenco Alice Borges, Andrea Dantas, Reiner Tenente, Gustavo Kelin, Saulo Segreto, Jefferson Almeida, Claire Nativel e Augusto Volcato.

Adaptação para teatro inspira Ruy Castro a adotar mudanças

Reconhecido por biografias irrepreensíveis (Nelson Rodrigues, Garrincha, Carmen Miranda, para citar algumas), Ruy Castro conta que nem no momento de liberdade criativa promovido por Bilac Vê Estrelas conseguiu se soltar das obrigações de pesquisador. 

“Todo biógrafo, até para se desintoxicar, deveria fazer alguma experiência em ficção. A possibilidade de trabalhar um dia com a imaginação, e não com a fanática busca da informação, é maravilhosa”, acredita. “Mas não adianta, você não consegue mudar as pintas do leopardo. Para escrever o romance, em 2000, levei um ano estudando o Rio do começo do século 20 e os principais personagens da história: Bilac, José do Patrocínio e a turma de intelectuais da Colombo. Então, tudo que está no romance é real: roupas, costumes, comidas, gírias, meios de transporte etc. Só a história era inventada. E, mesmo assim, nem tanto, porque o Patrocínio realmente começou a construir um dirigível, com o apoio do Bilac, e o dirigível realmente pegou fogo. Os próprios vilões, o padre e a espiã portuguesa, também existiram, só que com outros nomes.”

Segundo ele, tal acúmulo de detalhes, habitualmente dispensados quando um livro é adaptado para o cinema ou o teatro, teve utilidade. “Heloisa Seixas e Julia Romeu fizeram algumas mudanças importantes na trama, o que é inevitável quando se transpõe uma linguagem para outra, e achei tão boas que estou até pensando em incorporá-las ao romance. Por exemplo, os irmãos Wright não estavam no livro. E não consigo mais pensar na história sem eles. E já estou achando difícil pensar no Bilac sem me lembrar da caracterização do André Dias. Acho que nem o Bilac se pareceu tanto consigo mesmo quanto o André!”

O trabalho de adaptação foi tranquilo e flui com facilidade, segundo contam Heloisa e Julia, mãe e filha - e Heloisa é casada com Ruy. “Escrevemos juntas quase o tempo todo, trocando ideias, mas, às vezes, cada uma leva o texto para casa, relê e faz sugestões. Ninguém é responsável exclusivamente por uma parte, mas a Heloisa fica mais a cargo da estrutura da peça e eu, dos diálogos”, explica Julia, em depoimento divulgado no material da assessoria de imprensa.

Segundo elas, o trabalho de adaptação demorou dois anos e a pesquisa foi muito além do romance que inspirou o espetáculo. “Não apenas lemos o livro, mas mergulhamos na obra do Bilac, em seus poemas e crônicas, e estudamos muito o Rio do início do século 20. Essa época é muito charmosa e tem paralelos com o momento que estamos vivendo agora, de intensas mudanças na cidade”, acrescenta Julia.

Na condução do espetáculo, João Fonseca disse, em entrevista ao Estado no ano passado, quando estreou no Rio. “No caso de Bilac, isso não aconteceu, na medida em que é um passado distante de mim. Senti mais nostalgia nos espetáculos que dirigi sobre Cassia Eller e Cazuza, que trouxeram à tona uma época que vivi”, diferencia Fonseca, que assinou ainda musical sobre Tim Maia.

BILAC VÊ ESTRELAS

Espaço Promon. Av. Presidente Juscelino Kubitschek, 1.830, 3071-4236. 6ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 60. Até 26/7. Estreia na sexta, dia 29 

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