Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Musical 'American Idiot', inspirado no álbum do Green Day, chega ao Brasil em 2017

Teatro e Dança

Gary Hershorn|Reuters

Musical 'American Idiot', inspirado no álbum do Green Day, chega ao Brasil em 2017

Espetáculo será montado por Mauro Mendonça Filho

0

Ubiratan Brasil,
O Estado de S.Paulo

20 Março 2016 | 04h00

A cortina sobre vagarosamente e o teatro é invadido pela voz do ex-presidente americano George W. Bush: “Ou vocês estão conosco ou estão com os terroristas”. As cenas dos atentados às torres gêmeas, em 2001, imediatamente vêm à mente. Seria um discurso para motivar qualquer jovem a largar tudo e se transformar em um rebelde, mas, tão logo a cortina seja totalmente recolhida, o que se vê em cena são jovens imaturos, emburrados e descontentes ao extremo para transformar suas emoções de maneira construtiva.

É desse retrato de uma juventude desperdiçada que trata American Idiot, musical inspirado no já clássico álbum lançado pela banda Green Day que estreou na Broadway em 2010 e chegará ao Brasil no próximo ano, sob a direção de Mauro Mendonça Filho, encenador responsável pelos mais instigantes programas de TV dos últimos anos, como Verdades Secretas.

“Assisti à montagem de Londres e, apesar da pouca expectativa inicial, gostei muito. Adoro o Green Day, é a única banda de punk rock que gosto”, disse Mauro ao Estado. Depois de consolidado como o condutor de temas adultos na TV, agora ele se volta para os problemas da juventude com a mesma inquietação. “Assim que o espetáculo terminou, eu estava decidido a montá-lo no Brasil.”

Ao pesquisar sobre os direitos, Mauro descobriu que estavam com a produtora Renata Borges Pimenta Valle, que vem se especializando em montar grandes espetáculos – é da parceria dela com Raphaela Carvalho, ambas no comando da Fábula Entretenimento, que nasceu Cinderella, em cartaz em São Paulo. Bastaram poucos minutos de conversa para os ponteiros se acertarem – nesta segunda, 21, será publicada uma convocação para as audições, que devem acontecer dentro de um mês e meio. Escolhido o elenco, Mauro iniciará os ensaios, provavelmente no segundo semestre, com previsão de estreia para o início de 2017 – deverá ser no Rio de Janeiro para, em seguida, chegar a São Paulo e logo iniciar uma excursão.

“Pretendo montar um espetáculo sem compromisso com a Broadway”, comenta o diretor, que está cuidando pessoalmente da tradução. “Quero algo mais niilista, sem coreografia tradicional, mais punk. Será algo sem panfletagem, sem apontar o certo e o errado.”

Para a direção musical, Mauro já convidou um profissional experiente, Carlos Bauzys, pesquisador atento e dono de rara sensibilidade. Ele vê o punk rock como o ponto mais interessante. “O punk rock, apesar de simples, é incrível por sua sinceridade agressiva. Ele diz tudo por si próprio”, comenta. “O punk usado com sua naturalidade original já será muito eficiente para contar essa história. Quero ter músicos e atores que realmente tenham vivido esse estilo em suas vidas, assim como eu mesmo vivi.”

Mauro Mendonça Filho já trabalha nos personagens principais, três adolescentes que remetem a Holden Caulfield, personagem de O Apanhador no Campo de Centeio, livro de J. D. Salinger que vem marcando gerações. Eles deixam o pacato lugar onde vivem para buscar a emoção em uma cidade maior. “Um deles se chama Jesus do Asfalto, nome que mostra bem sua personalidade: viverá uma jornada pitoresca, niilista. Outro, Tunny, mais estilo bofe, será aquele que atenderá Bush e vai lutar no Iraque, onde perderá uma perna. Finalmente, o terceiro, Will, sofre uma brusca mudança na rotina quando sua namorada engravida. Desorientado, mergulha nas drogas e no álcool.”

Mauro está preocupado em mostrar bem o desespero de adolescentes de 16 anos ao serem obrigados a escolher o caminho a trilhar na vida. Por conta disso, quer um elenco jovem. “Quem tiver 30 anos, já será considerado velho”, brinca ele, que buscará, nas audições, principalmente tenores com boa noção de coreografia.

A banda também será definida por meio de um critério minucioso: o espírito punk rock no som será essencial. “Quero que as pessoas ouçam o som muito alto”, justifica. “O público poderá fechar os olhos e, ainda assim, continuará identificando o Green Day.”

Além de Bauzys, Mauro contará com a coreografia de Daniella Visco, que vai criar um estilo baseado nos detalhes. “Sou fã de Bob Fosse, que dava sentido ao movimento das mãos e das pernas”, confessa ele, que revela ainda outra paixão: o compositor americano Stephen Sondheim. “Ainda pretendo montar Sweeney Todd.” E, além do musical, Mauro vai filmar a vida da Princesa Isabel, com Mariana Ximenes. “Uma oportunidade para mostrar a condição do feminismo.”

O disco que questionou os Estados Unidos - João Paulo Carvalho

American Idiot (2004), sétimo álbum de estúdio do Green Day, foi o divisor de águas da carreira da banda. A partir daí, a sonoridade do grupo mudou drasticamente. O disco, de pouco mais de 57 minutos, conta com canções maduras e politizadas. A ópera punk do grupo norte-americano faz duras críticas ao governo de George W. Bush na presidência dos EUA.

Com uma postura mais séria do que em seus trabalhos anteriores, o trio Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tré Cool fazem de American Idiot uma carta de repugnância ao governo do país. As letras recheadas de ironia e sarcasmo refletem o senso de indignação da população. A exemplo de discos clássicos como Tommy (1969), do The Who, e The Dark Side of the Moon (1973), do Pink Floyd, o trabalho traz canções unificadas por um tema. 

Neste caso, o personagem central é St. Jimmy, um jovem punk que carrega consigo os mais variados questionamentos sobre o padrão norte- americano considerados corretos pela sociedade. De Jesus of Suburbia a Boulevard of Broken Dreams, American Idiot é um dos discos mais importantes dos anos 2000. Nenhum outro álbum conseguiu abalar as estruturas do mainstream de forma tão impactante e direta.

 

Comentários