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DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

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Musicais ‘Cinderella’ e ‘Love Story’ escalam atores negros como protagonistas

Espetáculos em montagem no Brasil quebram tabu enquanto Hollywood discute a questão com a proximidade do Oscar

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Ubiratan Brasil,
O Estado de S. Paulo

04 Fevereiro 2016 | 06h00

Enquanto em Hollywood continua quente a discussão sobre a pequena participação de artistas negros em papéis expressivos nos filmes, ao menos dois musicais que estão em processo de montagem no Brasil seguem na contramão – em Cinderella, o Musical, que estreia dia 11 de março no Teatro Alfa, em São Paulo, o ator Tiago Barbosa deverá interpretar, em algumas sessões, o papel do Príncipe Topher; e, no Rio, os produtores de Love Story, o Musical, que estreia no dia 12 de junho, anunciaram nesta semana que o elenco será formado apenas por atores negros.

“Essas decisões ajudam a quebrar o paradigma nesse momento histórico e, no caso de Cinderella, é ainda mais importante por se tratar de um espetáculo também dirigido ao público infantil”, comenta Barbosa, que se tornou conhecido pelo papel de outro príncipe, Simba, em O Rei Leão. No novo espetáculo, ele viverá Lord Pinkleton, um dos aliados do rei, e, nas sessões de quinta-feira, deverá assumir o papel do Príncipe. “Será um bom motivo para mostrar, principalmente às crianças, que o diferente também é bacana.”

Um dos grandes apoiadores de Barbosa é justamente Bruno Narchi, que representará o Príncipe durante boa parte da temporada. “Somos muito diferentes no corpo, na voz, nos gestos, portanto, a atuação é muito distinta”, comenta o ator, cujas interpretações são sempre marcadas pelo cuidado e pela sensibilidade. “A personalidade de cada um vai prevalecer naquele momento e servirá, sim, de apoio para o outro.”

No ensaio acompanhado pelo Estado, na tarde de terça-feira, 2, Tiago Barbosa observava os gestos do colega que, por sua vez, trocou ideias com ele sobre postura. “Há uma cena em que o Príncipe mata um dragão e percebi que o Tiago luta de uma forma diferente da minha, mas o essencial é manter a fidelidade ao texto.”

Entre dois atores compartilhando um mesmo papel, surge uma única mocinha. Bianca Tadini é a Cinderella do musical, no qual exibe uma graça misturada com uma excelente verve humorística. Nos ensaios, ela logo notou a diferença entre Tiago e Bruno. “Cada um tem um timbre de voz muito particular, além de uma forma de respirar. Assim, preciso encontrar caminhos para me adaptar aos dois jeitos”, observa.

Para Renata Borges Pimenta Valle, uma das produtoras do musical, a alternância é bem-vinda. “Tiago veio para quebrar o estereótipo, mas não vamos levantar bandeira. O importante é a arte”, disse. 

Charles Möeller revela os fascinantes significados do espetáculo ‘Cinderella’ 

Charles Möeller e Claudio Botelho se tornaram, com o tempo, sinônimo de um teatro musical bem-feito, detalhado, emocionante. “Foi justamente neles em quem pensei quando comprei, há dois anos, os direitos autorais de Cinderella, o Musical”, conta Renata Borges Pimenta Valle, empresária da Fábula Entretenimento. “Até enviei mensagens convidando, mas eles não viram.”

O curioso é que foi justamente Möeller quem a reportagem do Estado encontrou no comando do ensaio de terça-feira, 2, no Teatro Alfa. “Só aceitamos o convite porque é um musical maravilhoso – se fosse outra peça, não teríamos aceitado”, contou o encenador. Explica-se: a dupla Charles e Claudio é o quarto comando à frente de Cinderella, depois de Jorge Takla (que chegou a anunciar, mas não assumiu a direção), Ernesto Piccolo (que saiu deixando reclamações contra a produção no Facebook) e Ulysses Cruz (autor da ideia de alternar Tiago Barbosa e Bruno Narchi no papel de Príncipe).

Renata não esconde suas desavenças com aqueles profissionais. “Cinderella é um musical majestoso, lida com o universo da mulher e o direito de lutar pelos seus sonhos. Assim, só interferi ao perceber que o espetáculo que seria entregue não transmitia uma verdade exigida pela peça. É um clássico, portanto, não pode haver erros.”

A determinação da produtora em preservar a estrutura do original é semelhante à de Möeller. “Além de criarem Cinderella, inicialmente para a televisão, Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II são autores de espetáculos que determinaram os pilares dos musicais da Broadway nos anos 1940, como Oklahoma!, Carousel e South Pacific”, conta Möeller, um apaixonado pelo gênero, capaz de envolver qualquer espectador com suas detalhadas explicações.

Foi o que aconteceu em seu primeiro encontro com o elenco de Cinderella, no fim de semana. “A maioria dos atores não sabia da importância do trabalho de Rodgers e Hammerstein, que estabeleceram o padrão de qualidade dessa forma de se fazer teatro”, conta o encenador, que fez uma palestra de várias horas para um grupo hipnotizado. “Ele apontou detalhes importantes da obra que nos ajudaram a entender mais significados”, relembra Bianca Tadini, que vive Cinderella.

Charles mostrou, por exemplo, a forte presença de Shakespeare no musical. “O Príncipe, logo em sua primeira canção, coloca em dúvida se tem ou não vocação para ser rei – uma forte presença do ‘ser ou não ser’ de Hamlet”, explica Möeller. “Há também um olhar diferente para a mulher – naqueles anos 1950, ela era a própria dona do lar, seu único espaço de ação. Em Cinderella, a protagonista entende as ideias de igualdade entre os cidadãos e as repassa para o Príncipe, enquanto dança com ele durante o baile.”

A versão brasileira do musical é a mesma da Broadway adaptada por Douglas Carter Bea em 2013, que trouxe temas modernos como bullying e questões de igualdade social para o texto. Mas de uma forma sutil, preservando o humor e temas delicados como desafiar o racismo e sexismo.

‘Love Story’ terá elenco formado apenas por negros

Ao analisar os currículos que recebeu para sua montagem de Love Story, o Musical, o diretor, produtor e ator Tadeu Aguiar e sua equipe se surpreenderam com uma constatação: “Dentro da triagem que fizemos, percebemos que, em nosso desejo de produção, estariam incluídos mais de 60% de artistas negros. Assim, decidimos que o espetáculo, que estreia no Rio em 12 de junho, será interpretado por um elenco formado apenas por atores negros”, conta Aguiar. “Era uma dívida que tínhamos de reparar.”

A decisão, revelada em um comunicado que circulou no Facebook na semana passada, recebeu elogios rasgados e promoveu uma pequena corrida no envio de currículos por atores que antes não se sentiam confortáveis em disputar papéis cujo perfil tradicionalmente não era o deles.

Atitude compreensiva, afinal, Love Story é a adaptação para o teatro musical do filme Love Story – Uma História de Amor, de 1970, e que, além de vencer o Oscar de melhor canção, tornou mundialmente conhecido o casal caucasiano formado por Ryan O’Neill e Ali McGraw. 

Entre as diversas manifestações surgidas nas redes sociais, destacou-se um texto da escritora Cidinha da Silva, autora do livro Racismo no Brasil e Afetos Correlatos, publicado em 2013.

Depois de resumir a história (o amor impossível entre um jovem rico e uma humilde estudante de música), Cidinha observa: “Uma mocinha negra que ficará doente e comoverá a assistência. Um mocinho amoroso, solidário e cuidador, negro. Provedor também, ele conseguirá o dinheiro necessário para confortar a amada. Vejam, será um personagem de caráter forte encenado por um negro. Alguém que goza de credibilidade e merece ser citado como exemplo para as crianças. Ou seja, um lugar que o homem negro não costuma ocupar na dramaturgia”.

A escritora vê com bons olhos a iniciativa, mas lembra de um detalhe importante: “Pessoas negras brasileiras estão ávidas por consumir produtos, inclusive artísticos, nos quais se vejam representadas com dignidade e respeito. Os empreendedores que compreenderem essa mensagem lucrarão muito e contribuirão para o propalado mundo mais diverso”.

SERVIÇO: CINDERELLA – O MUSICAL

Teatro Alfa. <MC1>Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. 5693-4000. 5ª, 21h; 6ª, 21h30; sáb., 16h e 20h; dom., 17h. R$ 50/ R$ 180. Estreia em 11/3. 

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