Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Morre aos 89 anos o crítico de teatro Sábato Magaldi

Colaborador histórico do 'Estado' e membro da ABL estava internado desde o dia 2 de julho, na UTI no Hospital Samaritano, em São Paulo

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2016 | 06h41

SÃO PAULO - Um dos maiores críticos de teatro brasileiro, responsável pela recuperação e readequação da obra de Nelson Rodrigues, Sábato Magaldi morreu nesta quinta-feira, 14, às 23h, em São Paulo, aos 89 anos. Ele estava internado desde sábado, 2, no hospital Samaritano, com quadro de choque séptico e comprometimento pulmonar. “Foi um crítico muito sério, honesto e leal”, constatou o ator Lima Duarte sobre Magaldi, que escreveu no Estado entre 1953 e 1988. O velório será realizado nesta sexta-feira, 15, das 12h às 15h, no Crematório Embu das Artes (Rua Suécia, 56, Embu das Artes - SP).

O teatro sempre foi sua profissão de fé. Membro da Academia Brasileira de Letras, ensaísta, crítico, autor livros que já se tornaram referência na área teatral, Sábato Antonio Magaldi nasceu no dia 9 de maio de 1927. Mineiro de Belo Horizonte, onde se bacharelou em Direito, era primo de Hélio Peregrino e amigo de muitos escritores, entre eles Autran Dourado. Não tinha 20 anos quando, em Minas, escreveu o primeiro artigo publicado no Brasil sobre uma peça de Jean Paul Sartre. “Minha vocação era mesmo a crítica”, disse ele, em entrevista ao Estado, ao comentar esse feito. Em 1948, aos 21 anos, mudou-se para o Rio e tornou-se crítico do Diário Carioca.

Nessa época, a maioria dos críticos atuava como meros propagandistas das peças, alguns até ganhando propinas das companhias teatrais. Frequentador assíduo de espetáculos e leitor voraz de textos dramatúrgicos, o jovem mineiro recém chegado ao Rio substituiu Paulo Mendes Campos como crítico e, já em 1951, demonstrou seu talento. Ao criticar o monólogo Valsa n.º 6, Magaldi contestou a própria visão de seu autor, Nelson Rodrigues. Para o dramaturgo, a personagem Sônia já se encontrava morta ao divagar sobre sua infância. O crítico, porém, acreditava que Sônia vivia na fronteira entre a vida e a morte, estado semelhante ao de Alaíde, personagem de Vestido de Noiva. As considerações impressionaram o próprio Nelson Rodrigues, que concordou com a análise.

Sábato Magaldi pertenceu a uma geração que moralizou o exercício da crítica teatral, tornando-a um instrumento eficaz de reflexão e norteadora de caminhos. Em 1953, transferiu-se para São Paulo a convite de Alfredo Mesquita para lecionar na Escola de Arte Dramática. No mesmo ano, começou a colaborar para o Estado, tornando-se depois crítico do Jornal da Tarde desde 1966, ano de sua fundação, até 1988, quando decidiu se dedicar à atividade acadêmica. Deu aulas na Universidades de Sorbonne e Provence. Foi também o primeiro secretário de Cultura do Estado de São Paulo, quando o cargo foi criado na administração Olavo Setúbal (1975-1979).

Só nos jornais Estado e JT, exerceu a atividade de crítico teatral durante 32 anos e, ao longo de sua carreira, recebeu 14 prêmios de associações de artistas e críticos. O segredo para colher admiração apesar das naturais divergências? “Isso ocorre a todos os críticos quando não estão mais na ativa”, respondeu, modesto, em entrevista na década de 1990.

Mas não é bem assim. Antes de mais nada, Sábato Magaldi fez parte de uma geração de críticos de sólida formação, cujos conhecimentos não se limitavam à sua área de atuação, mas se estendem à literatura, artes plásticas, música, ciências sociais, filosofia. Eram fruto de uma formação humanista ampla e vertical, antes do termo educação interdisciplinar ‘ter de’ ser criado para reparar problemas da era da especialização. Aos 26 anos, Sábato Magaldi já tinha um certificado de estética adquirido na Universidade de Sorbonne. Doutorou-se pela Universidade de São Paulo defendendo uma tese sobre a obra de Oswald de Andrade, texto que mais tarde retrabalhou e publicou em livro com o título Teatro da Ruptura: Oswald de Andrade.

Outro fator que lhe valeu o respeito da classe teatral foi a capacidade de relativizar suas avaliações, sem jamais abrir mão da consciência da responsabilidade de seu ofício. Por diversas vezes, abriu ou concluiu seus ensaios ressaltando que se tratava de “uma das visões possíveis”. Sabia voltar sobre os próprios passos para reconhecer e reparar equívocos. Por exemplo, ao escolher a obra de Oswald de Andrade como tema de sua tese, reconheceu publicamente o erro cometido em seu livro Panorama do Teatro Brasileiro, publicado em 1962, no qual afirmava que a peça O Rei da Vela era um texto literário, impossível de ser levado à cena. Porém, na mesma década de 1960, a peça foi montada com imenso êxito por José Celso Martinez Correa e seu grupo, no Oficina. 

Sábato era o primeiro a enfatizar sua insatisfação com esse livro, que no entanto, na carência de publicações do gênero, tornou-se instrumento pedagógico de extrema importância para os interessados em descobrir o teatro brasileiro. O crítico sentia por não ter percebido a potência da obra de Oswald e ignorado a dramaturgia do gaúcho Qorpo Santo, entre outros lapsos. Relutou muito em aceitar sua reedição, mas o volume original estava esgotado desde a década de 1970. Na impossibilidade de refazer todo o texto como gostaria, aceitou a publicação acrescida de dois textos à guisa de posfácio. Assim, o Panorama do Teatro Brasileiro foi relançado em 1997, pela Global, e nunca mais deixou de ser reimpresso. 

Além do que considerava equívocos, no entanto, esse livro de referência apresentava outro ‘problema’ – fora escrito em 1962, antes da sedimentação de uma dramaturgia que mal surgia na década de 1960, peças de autores como Dias Gomes, Vianinha, Augusto Boal, José Vicente e Jorge Andrade. E foi para dar conta do que considerou um ‘salto’ do texto de teatro nacional nesse período que ele escreveu Moderna Dramaturgia Brasileira, lançado em 1998, editado pela Perspectiva. Trata-se de uma coletânea de artigos nos quais analisa obras de 30 dramaturgos, desde O Rei da Vela, de Oswald, até a então recém escrita Caixa 2, de Juca de Oliveira.

Saber retraçar suas próprias trilhas e ampliar o conhecimento sobre um tema era uma das virtudes que sempre acompanharam esse crítico. Foi o que fez com a obra de Nelson Rodrigues, cujos aspectos melodramáticos ele rejeitara em seu Panorama. “Sois um dos inventores de Nelson Rodrigues”, disse Lêdo Ivo, no discurso de recepção a Sábato, na Academia Brasileira de Letras, em 1995. Inegavelmente, os estudos da obra rodriguiana publicados como prefácio nos volumes do Teatro Completo lançaram nova luz sobre a dramaturgia desse autor e até hoje orientam a leitura de atores e encenadores. Trata-se de um dissecação tão pertinente, de tal fôlego, que virou obra autônoma, editada em livro sob o título de Teatro da Obsessão: Nelson Rodrigues, pela Global. 

Na obra Dramaturgia e Encenações, Sábato Magaldi faz uma corajosa autocrítica sobre a análise anterior, publicada no Panorama: “Formado na estética da sobriedade europeia, eu não admitia os extravasamentos, para mim de mau gosto. Hoje, estou convencido de que o melodramático dos textos rodriguianos corresponde à permanência de uma estética popular, que vai da oratória e da frase feita à chanchada. Sou obrigado a reconhecer que também nesse particular o dramaturgo revelava sua profunda brasilidade”.

Em entrevista ao Estado em janeiro de 2008, o dramaturgo Bosco Brasil falou sobre a importância do crítico e professor, de quem foi aluno. “Uma de suas propostas de trabalho foi a de comparar as adaptações das peças de Nelson Rodrigues feitas por Antunes Filho com os originais. Também sob sua orientação, fiz um trabalho sobre um grupo de autores da geração 69: Leilah Assumpção, Consuelo de Castro e Antonio Bivar, entre eles. E um outro no qual comparava duas peças em cartaz, Mão na Luva, de Vianinha, e De Braços Abertos, de Maria Adelaide Amaral. Aprendi demais fazendo isso – em plena era dos encenadores”, afirmou Bosco Brasil.

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