Julia Rodrigues
Julia Rodrigues

'Monólogo Público' ressalta a força da linguagem

Michel Melamed rompe a barreira entre público e privado em nova peça

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

17 Março 2017 | 04h00

A inquietação inspira o trabalho do ator, diretor e escritor Michel Melamed. A surpreendente realidade, mais que espanto, provoca sua imaginação e o resultado são espetáculos instigantes como Monólogo Público, que estreia nacionalmente no sábado, 18, no Auditório do Masp. Trata-se, claro, de um trabalho solo (por mais que esse termo tenha perdido sua força pelo uso desmesurado), em que o palco parece invadido por mais de uma pessoa.

“A falta de uma fronteira entre o que é público e o que é privado nos dias de hoje, algo que tanto é permitido pela internet como caracteriza as relações sociais principalmente no Brasil, foi o ponto de partida para esse trabalho”, conta Melamed que, com isso, começa a explicar a contradição representada pelo título do espetáculo, Monólogo Público. Ainda que sozinho em cena, ele mostra como um mesmo discurso pode ser proferido de formas distintas e, portanto, provocar diferentes reações - ainda que as palavras sejam exatamente as mesmas.

“É um espetáculo sobre a linguagem e não sobre a narrativa”, anuncia Melamed. “Não interessa tanto o que se diz, mas como se diz.” A forma como a escrita ganhou novos contornos na internet, especialmente nas redes sociais, criando e alimentando uma autoficção, serviu para Melamed criar uma alegoria das relações entre o público e o privado no País. “Como isso, todos nos tornamos artistas, mas, a derrubada dessa fronteira, revelou-se uma obscenidade especialmente quando os mais poderosos se sentiram à vontade para tornar privado o que seria público.”

Para transformar esse pensamento em ação, Melamed percebeu que necessitaria inserir um palco sobre o palco. Assim, o espaço cênico do Masp recebe uma estrutura de madeira com 12 m² e pesando 350 kg. Ali, acontecerá, em princípio, a representação teatral. Sem avançar muito na história para não tirar a surpresa do espectador, Melamed começa o espetáculo em um determinado canto, onde, iluminado por uma luz de serviço, diz um texto sem entonações, quase roboticamente. Ao caminhar para o pequeno palco, ele volta a dizer as mesmas palavras, mas com intenções na voz e uma iluminação teatral. “É uma valsa do eu”, brinca Michel Melamed, que mostra como a vida é um arremedo de autoenganados.

O que se pode ainda contar é que a experiência continua, mas a uma velocidade aumentada, o que acelera também a ansiedade do público em busca de um desfecho. E, assim como o texto, a iluminação e a trilha sonora têm uma força encantatória. Monólogo Público marca o retorno de Michel Melamed ao formato do monólogo depois de dez anos - ele construiu sua Trilogia Brasileira com espetáculos como Regurgitofagia (2004), Dinheiro Grátis (2006) e Homemúsica (2007). Em todos, o artista consegue se inovar e não cristalizar.

Em Regurgitofagia, Melamed incentivou a aplicação do manifesto antropofágico, lançado pelo escritor modernista Oswald de Andrade, ou seja, deglutir o que vem do exterior, imposto como cultura, e vomitar um conceito novo, mais adaptado à condição nacional. O texto foi publicado em livro e será lançada agora a quinta edição, pela Bertrand Brasil, com versão trilíngue, fotos e textos inéditos.

Já em Dinheiro Grátis, Melamed trabalhou em um palco arena cercado por arame farpado (referência a campos de concentração) e lá promovia um leilão em que não apenas bens materiais eram disputados, como também valores normalmente difíceis de avaliar como amor, lealdade. 

Finalmente, Homemúsica fechava o ciclo pregando a força da palavra, especialmente aquela dita por meio de canções, tanto as compostas por ele como de artistas do naipe de Manu Chao e New Order. 

MONÓLOGO PÚBLICO

Masp Auditório. Avenida Paulista, 1.578. Tel.: 3149-5959. Sáb. e 2ª, 21h; dom., 20h. R$ 60 / R$ 70. Estreia 18/3

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