Renato Mangolin
Renato Mangolin

Michel Marc Bouchard desembarca na cena brasileira por meio da montagem do texto 'Tom na Fazenda'

Espetáculo externa a intimidade áspera das relações masculinas

Daniel Schenker, ESPECIAL PARA O ESTADO

28 Março 2017 | 19h55

RIO - Explosões de violência e manifestações de ternura atravessam Tom na Fazenda, texto do dramaturgo canadense Michel Marc Bouchard que ganha montagem, dirigida por Rodrigo Portella, em cartaz no Oi Futuro/Flamengo. O projeto é do ator Armando Babaioff, que interpreta Tom e assina a tradução do original. Apesar de ter escrito mais de 25 peças, a obra de Bouchard permanecia, até então, inédita no teatro brasileiro. 

Marcado por afetos ásperos, o texto - que chegou ao palco em 2011, em Montreal, e foi adaptado para o cinema por Xavier Dolan - acompanha a jornada do personagem-título, que viaja para a fazenda da família do namorado, morto precoce e repentinamente, onde ocorrerá o funeral. Lá se depara com dois parentes dele - Agatha, a mãe, e Francis, o irmão. Logo é confrontado de forma agressiva por Francis, que o obriga a compactuar com uma farsa montada com o intuito de ocultar de Agatha a sexualidade do filho recém-falecido. Ao longo do texto, o autor destaca as relações masculinas. “Tom deseja estabelecer contato com o irmão de seu namorado. Mas, de início, Francis recusa qualquer cumplicidade. Quando surge uma conexão entre ele e Tom, tudo fica perigoso. Cada um, à sua maneira, expressa essa intimidade”, afirma Bouchard, em entrevista por skype, que veio ao Brasil para a estreia do espetáculo e participará de uma mesa-redonda, na próxima segunda-feira, às 18h, com entrada franca, no Oi Futuro. Além de Babaioff, Kelzy Ecard, Gustavo Vaz e Camila Nhary integram o elenco.

A natureza primitiva do vínculo entre Tom e Francis é potencializada pela área isolada onde a história se passa. Pertencente ao meio urbano, Tom, não por acaso, se sente deslocado e “conversa” constantemente com o namorado morto. “Várias razões me levaram a ambientar a ação numa fazenda distante. Eu queria uma região em que as coisas acontecessem mais lentamente. Um lugar orgânico, de terra, água, animais, suor, cheiros, músculos, sensualidade, sangue. Um espaço que portasse uma tensão, rodeado de julgamento. Essa fazenda desponta como um território onde todos os abusos e liberdades são possíveis”, explica ainda Bouchard.

A proximidade da morte, a presença de um irmão passional e o afastamento do convívio familiar lembram, em alguma medida, Apenas o Fim do Mundo, peça do francês Jean-Luc Lagarce transportada pelo mesmo Dolan para o cinema. “Percebo ligações entre o meu texto e o de Lagarce na figura do indivíduo que desembarca munido de sua própria realidade e não encontra escuta ao redor. Há um problema de comunicação”, observa Bouchard. 

O sofrimento diante da morte é dimensionado pelo dramaturgo no prefácio de Tom na Fazenda: “Perder alguém de repente é como um fio que se arrebenta, rompendo os laços com outra pessoa - o homem que não está mais aqui. O instinto de sobrevivência assume e as peças não reveladas da vida tentam se juntar a outras também não desvendadas. Pouco importa com quem ou o quê. Outras pessoas - um irmão, um filho, um amante - são sinônimos de quem não está mais aqui”. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.