JF Diório/Estadão
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Marcos Caruso festeja 45 anos de carreira com 'O Escândalo Philippe Dussaert'

Peça chega a São Paulo depois de uma temporada premiada no Rio e badalada em Portugal; veja depoimentos das atrizes Denise Fraga e Irene Ravache sobre o ator - que é, ainda, autor de 'Trair e Coçar é só Começar'

Eliana Silva de Souza, O Estado de S. Paulo

05 Abril 2018 | 06h00

Em 45 anos de carreira, Marcos Caruso viveu inúmeros personagens. Foi um pai que, mesmo tarde, tentou corrigir o caráter da filha, em Mulheres Apaixonadas; foi o saudoso Leleco, de Avenida Brasil; foi o Pedrinho Guimarães, de Pega Pega, sua mais recente novela; e tem ainda o divertido Senhor Peru, da Escolinha do Professor Raimundo. E agora, pela primeira vez, o versátil artista subirá ao palco sozinho, no espetáculo O Escândalo Philippe Dussaert, que estreia nesta quinta, 5, somente para convidados, e, na sexta, 6, para público, no Teatro Faap, em São Paulo. Isso depois de uma temporada de sucesso e prêmios no Rio de Janeiro, e de uma turnê bem-recebida pelo público de Portugal.

No texto do ator e dramaturgo francês Jacques Mougenot, vamos conhecer a história do pintor Philippe Dussaert, que, em sua busca pelo sentido do ‘nada’, reproduz o que há no fundo de quadros de grandes nomes da arte, como Moça com Brinco de Pérola, de Vermeer, Mona Lisa, de Da Vinci, e O Pássaro, de Monet. 

Em conversa com o Estado, o irreverente ator se mostra hiperativo, falante e muito bem-humorado. Recém-chegado da turnê portuguesa, vai logo dizendo que não tem parada. “Com essa peça, completo, em maio, 45 anos de teatro. Estreei em 1973, e, nesse período, fiz um pouco de TV”, conta, mostrando mais alguns números. “Fui ver quantos dias eu tive de palco, tive a pachorra de somar todas as peças, os meses e os dias. Então, nesse tempo de encenações, acabei permanecendo no palco 33 anos”, orgulha-se o ator. 

E ele, um ótimo entrevistado, emendando uma história na outra, deixa claro o significado do espetáculo para ele. “Eu não considero um monólogo, mas claro que é um monólogo. Chamo de solo coletivo, porque realmente estou sozinho em cena, mas não estou sozinho, na medida em que é uma palestra, uma conferência, onde eu me dirijo diretamente ao público, olhando nos olhos das pessoas”, diz. 

+++ Tudo sobre teatro

“Mas, antes de o espetáculo começar, eu cumprimento o público no saguão, espero o público entrar no teatro, dando boas-vindas, tomando café com ele, conversando com ele, mas não como personagem, como o ator mesmo”, afirma Caruso, que mostra gostar mesmo de números. “Já apertei a mão de 48 mil pessoas, porque a cada pessoa que entra no teatro eu aperto mesmo a mão e digo, ‘seja bem-vindo ao teatro’, ‘bem-vindo à minha casa’”, conta o ator, mostrando que, dessa forma, conquista antecipadamente o público.

Caruso afirma que essa forma de receber as pessoas, de aproximá-las do espetáculo antes mesmo do início, faz com que a plateia se torne sua cúmplice, participando em diversos momentos da peça. “O espetáculo é escrito de uma forma tão interessante, inteligente, sofisticada e, ao mesmo tempo, popular, que faz com que o público se torne participante, que, em determinado ponto, quase se transforme em um talk-show”, conta. 

A peça se utiliza de arte contemporânea para falar das pequenas coisas que afetam as pessoas”, explica Caruso, que se denomina “um homem do teatro”. E graças à direção de Fernando Philbert e à forma bem-humorada como o ator conduz a peça, O Escândalo Philippe Dussaert foi considerado o melhor espetáculo de humor de 2016 do Rio. “Esse prêmio me assustou, pois, na época, estavam em cartaz vários espetáculos de humor, alguns declaradamente comédia, e fui indicado nessa categoria, mas fiquei espantado, afinal, esse espetáculo não é uma comédia e ganhou o prêmio de humor. E eu quis saber do jurado a razão dessa premiação”, diz Caruso. “Eles disseram não ser um prêmio de humorismo, mas é para melhor espetáculo de humor, e perceberam que a forma como foi conduzido tem humor, arranca risadas e, por isso, mereceu o reconhecimento.” Por essa peça, em temporada carioca, ele conquistou prêmios como Shell e Cesgranrio de melhor ator.

Em tantos anos de carreira, Caruso está fazendo, enfim, seu espetáculo solo e sobre isso diz que se “assustou muito pelo fato de estar sozinho no palco”. “Mas, ao mesmo tempo e na mesma proporção, me estimulou bastante, porque sei que não estou sozinho e, antes mesmo de estar frente ao público, nos ensaios, eu estava com o meu passado, com a minha história”, afirma.

+++ Tudo sobre televisão

“Para você subir no palco e preencher o tempo, tem que ter uma bagagem, personagens vividos, experiências realizadas, contato com outros atores, conhecimento profundo da profissão, da luz, da sonorização”, diz, enfatizando também que gosta “do salto sem rede, gosto do erro, de saber o que não sei, o que já sei não me interessa, não fico procurando cartinhas na manga”. 

ma das curiosidades que ele faz questão de contar diz respeito à forma como decidiu montar esse espetáculo. “Inicialmente, pensei que a peça nem fosse uma peça de teatro. Eu errei”, conta Caruso, que diz ter ficado em dúvida, pois o texto é de uma palestra, mas acertou de ir para Paris conversar com o autor, fez laboratório e voltou. “Aqui, resolvi fazer uma leitura para alguns amigos, entre os quais estava Irene Ravache e, ao término, ela colocou o dedo em meu nariz e disse ‘se você não fizer essa peça, eu faço’. Foi aí que decidi fazer.”

Grande sucesso. Escrita por Caruso há mais de 30 anos, Trair e Coçar É só Começar continua sendo encenada e já foi vista por sete milhões de pessoas e, para o autor, se trata de um “enigma que jamais vai decifrar”. “Estudei os clássicos do vaudeville para escrever a peça, para chegar a essa dinâmica, que é feita para rir.”

DEPOIMENTOS

'Ele é incrível tanto no drama quanto na comédia'

Por Denise Fraga

“A peça Trair e Coçar é só Começar foi um fenômeno no teatro popular, que eu vivi muito cedo, com aquele mundaréu de gente, foi uma escola, aprendi muito ali, testando as coisas de comédia. Ela tem uma carpintaria incrível do Caruso, com um timing cômico, uma chave cômica que realmente era incrível, uma dramaturgia reloginho, foi um deleite para mim. Eu encenei por muitos anos, e eu fazia um joguinho comigo mesma toda noite de aperfeiçoar os timings cômicos, tudo em cima dessa carpintaria brilhante do Caruso. 

Mais tarde, fiquei mais próxima dele, que passou a ser uma pessoa muito querida. Então, ele virou um ator maduro, reconhecido. Acho ele incrível tanto no drama quanto na comédia, ele escreve também, o Porca Miséria é um texto dele lindo, que fica aí nesse meio do caminho, entre drama e comédia. Ele é ator, diretor, dramaturgo, é um artista comprometido com o que faz. Admiro sua trajetória e torço para que essa peça seja um sucesso. Ele merece!”

'Vive, pensa e se dedica à sua profissão’

Por Irene Ravache

“O profissional. Dos mais completos, autor, ator, diretor e tudo o que faz tem uma comunicação imediata com o público. A plateia adora sua elegância, inteligência e humor. Ele sabe e devolve essa cumplicidade com o discreto charme dos talentosos. É um ‘Ser Teatral’ sem afetações, o que é uma bênção! Vive, pensa e dedica-se à sua profissão como se estivesse começando agora, contracena com alegria com jovens atores, ele é um ótimo parceiro de cena. Não consigo imaginar outro ator interpretando esse texto com tanto savoir-faire. Ganhou todos os prêmios. Nada mais merecido para comemorar seus 45 anos de teatro! O que mais me encanta no meu amigo? Ele ser um filho que ama e honra seu pai! Me comove.”

O ESCÂNDALO PHILIPPE DUSSAERT

Teatro Faap. Rua Alagoas, 903, 3662-7233. 5ª a sáb., 21h; dom., 18h. R$80. Até 1/7. 

 

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