Sergio Castro|Estadão
Sergio Castro|Estadão

Marcia Haydée reinventa 'dom Quixote' com as obras de Portinari e Drummond

Em sua primeira criação para uma companhia de dança no País

Juliana Ravelli, ESPECIAL PARA O ESTADO

10 Novembro 2015 | 06h00

Marcia Haydée sempre foi um espírito livre. Mas foi com o coreógrafo John Cranko (1927-1973) – criador de alguns dos balés mais importantes do século 20 – que descobriu como usar a liberdade na arte para a qual sempre acreditou estar predestinada. Ao longo de quase seis décadas de carreira, porém, aprendeu que alguns sonhos demoram mais para serem concretizados do que outros. Um deles, em especial, será realizado somente agora. Na quinta-feira (12), estreia a primeira obra que Marcia cria para o Brasil, O Sonho de Dom Quixote, da São Paulo Companhia de Dança (SPCD).

Diretora da companhia paulista, Inês Bogéa tomava café com Marcia em um evento no Chile, quando a questionou sobre quantas coreografias havia feito no País. A niteroiense de 78 anos respondeu: “Criação mesmo, nenhuma”. “Para mim, foi uma enorme surpresa. Então, falei: ‘Vamos fazer algo juntas’”, conta Inês.

Para a SPCD, a coreógrafa decidiu recriar Dom Quixote, um tradicional balé baseado no livro de Miguel de Cervantes. Tinha o desejo de fazer uma obra completamente diferente das adaptações já existentes. Queria algo brasileiro, desenvolvido por um time também brasileiro.

Com Cranko, Marcia adquiriu outra virtude, uma que nem sempre é costumeira a artistas de seu porte. Ela sabe e gosta de ouvir pessoas. Com frequência, as sugestões dos parceiros são incorporadas aos seus projetos. Para a cenografia, Inês sugeriu Hélio Eichbauer – um dos principais nomes da área no País. Foi dele a ideia de usar no cenário a série de 21 desenhos que Candido Portinari (1903-1962) fez inspirado na obra de Cervantes e permear o balé com os poemas que Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) escreveu influenciado por eles. “Quando falou Portinari, não precisou dizer mais nada. Sempre fui fascinada por pintura e por ele”, afirma a coreógrafa.

A companhia, então, entrou em contato com João Candido Portinari, filho do pintor e diretor do Projeto Portinari. Ele imediatamente apoiou a ideia e cedeu o uso das imagens – que ganharam reproduções de até 8 metros de altura. E foi ele quem trouxe outro importante acréscimo para o trabalho: as gravações de músicas que o violonista clássico Norberto Macedo (1939-2011) compôs para cada um dos poemas de Drummond.

Segundo Marcia, ter as artes plásticas, a literatura e a música brasileiras ao seu dispor é muito mais do havia sonhado. Quando o projeto começou, a única certeza era a de que queria um Dom Quixote jovem e que dançasse em cena, não um velho e frágil cavaleiro, que fizesse apenas pantomimas. Logo no primeiro dia de trabalho com a companhia, encontrou a personificação de seu protagonista, Joca Antunes, bailarino da SPCD desde 2008. “É um trabalho em conjunto, uma equipe. E os bailarinos dão vida ao meu sonho.”

A coreógrafa, que não acredita em limites, decidiu colocar os 40 bailarinos da companhia em cena. “É maravilhoso, mas se alguém se machuca, uma pessoa tem de dançar dois papéis, o que, às vezes, não é muito simples. Mas é o desejo dela de que todos estejam dançando”, afirma Inês. Em cerca de uma hora e meia do balé – dividido em dois atos –, Marcia quer que a plateia também viva a festa e os devaneios encenados no palco.

Vida. Marcia começou a trabalhar com o homem que a moldou como artista em 1961 no Stuttgart Ballet, na Alemanha. Ela havia feito uma audição para o corpo de baile, mas recebeu das mãos de Cranko um contrato de primeira-bailarina. Desde o começo, ele dizia que ela o entendia. O coreógrafo criou seus balés mais importantes para a brasileira, entre eles Onegin e a versão de Romeu e Julieta. Foi no Stuttgart também que Marcia formou com o americano Richard Cragun (1944-2012) um dos casais mais célebres da dança.

Quando Cranko morreu, em 1973, Marcia quis parar de dançar. “O Ricky que me segurou e, depois, a companhia também.” Três anos mais tarde, Marcia assumiu a direção do Stuttgart, sem abandonar o posto de primeira-bailarina. Transformou-se na musa de outros coreógrafos, como Kenneth MacMillan, Maurice Béjart e John Neumeier.

“Nunca tive medo de fazer coisas novas. A única coisa que sabia é que eu tinha de dançar, representar ou estar no teatro até o dia em que Deus diga: ‘Marcia, agora você tem de vir para cá’. Mas até lá, vou estar sempre com bailarinos, com teatro, porque é minha vida. Sem isso, não seria possível viver.” A brasileira deixou o Stuttgart em 1996. Hoje, dirige o Balé de Santiago, no Chile.

Ao longo de sua trajetória, ocupou um lugar privilegiado, no qual pôde ver e viver as principais transformações pelas quais a dança passou no pós-guerra, até se tornar a arte que é hoje. Mas pelo caminho, Marcia também testemunhou a partida de muitos amigos, alguns dos maiores ícones da dança e seus grandes amores. “Agora, ao me lembrar dos momentos de sofrimento, foi quando eu mais aprendi. Não tenho medo do sofrimento. Não me deixo abater. Porque eu adoro a vida. É um presente e você não pode perder tempo. A cada dia que me levanto pela manhã, ponho os pés no chão e digo: ‘O melhor ainda está para vir’.”

Temporada 2016 mantém conexão com artes plásticas

O segundo programa apresentado pela São Paulo Companhia de Dança, entre os dias 26 e 29, tem outras duas estreias: Epiderme, de Binho Pacheco, e Céu Cinzento, pas de deux criado por Clébio Oliveira. Os balés foram desenvolvidos para o 4º Ateliê de Coreógrafos Brasileiros, projeto que nasceu em 2012 para fomentar o trabalho de jovens artistas. Integram ainda o programa Bingo!, de Rafael Gomes, e workwithnwork, do americano William Forsythe.

Com O Sonho de Dom Quixote, a SPCD apresenta novamente uma temporada com repertório diverso - que passeia do clássico ao contemporâneo - e em sintonia com o que importantes companhias internacionais vêm exibindo. "Acho que essa diversidade que estamos mantendo é a possibilidade de dialogar com outras companhias do mundo e trazer ao Brasil coisas que são reconhecidas lá fora, sem esquecer de quem somos", afirma Inês Bogéa.

A pluralidade e a conexão com as artes plásticas também estarão na temporada 2016 que, segundo Inês revelou ao ‘Estado’, já tem nome: Jogo de Linhas. Ela explica que o ponto de partida é a Suíte para Dois Pianos, de Uwe Scholz (1958-2004). O coreógrafo alemão se inspirou na obra de Wassily Kandinsky (1866-1944) para construir uma coreografia na qual os bailarinos - vestidos de branco e preto - se conectam com quadros do artista plástico russo projetados no palco.

Para desenvolver uma nova peça para a companhia, Inês convocou o americano Richard Siegal , ex-bailarino de Forsythe e tem um trabalho voltado para a interdisciplinaridade. Ele é fundador e diretor artístico do The Bakery, coletivo de pesquisa e criação de mídia audiovisual, dança e performance. Já entre os brasileiros que farão obras inéditas para a SPCD estão o mineiro Jomar Mesquita - cujas coreografias unem as danças contemporânea e de salão - e o gaúcho Fabiano Lima.

 

O SONHO DE DOM QUIXOTE

Teatro Sérgio Cardoso. Rua Rui Barbosa, 153, B. Vista, 3288-0136. 5ª e sáb., às 21 h; 6ª, às 21h30; dom., às 18 h. R$ 15/ R$ 30. Até 22/11.

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