ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

Malvino Salvador estreia em 'Boca de Ouro', ambientada em uma gafieira

Diretor Gabriel Villela se inspira no fenômeno das 'fake news' para conceber a peça de Nelson Rodrigues

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2017 | 06h00

O palco circular do Tucarena foi transformado em uma gafieira, onde um cordão de carnaval leva o público a uma viagem no tempo, à Zona Norte do Rio de Janeiro dos anos 1950. “E a música reforça o clima de época”, comenta o ator Malvino Salvador, que vive o protagonista de Boca de Ouro, obra de Nelson Rodrigues que ganha nova e original versão, agora dirigida por Gabriel Villela – a estreia acontece na sexta-feira, 11.

É naquele ambiente de liberdade extrema que será narrada a história do assassinato de Boca de Ouro, o bicheiro que, depois de ter nascido pobre, trocou todos os dentes por uma dentadura dourada, símbolo da ostentação de sua vitória. A história de sua morte é narrada por Dona Guigui, sua principal amante, que oferece três versões do crime, todas distintas mas críveis. “A Guigui é insuperável – com três expedientes emocionais e psíquicos, ela conta três vezes a mesma história, embaralhando com maestria para que tudo seja incrivelmente verdadeiro”, comenta Villela. “E o toque de gênio de Nelson vem do fato de ela usar frases populares, o que a torna ainda mais verdadeira como personagem.”

Villela é conhecedor da obra de Nelson Rodrigues, estudou-a profundamente nos anos 1960, ao lado de intelectuais da USP. Mas o que o motivou a montar justamente agora uma peça escrita em 1959 foi a pesquisa divulgada por outra universidade, a Harvard, sobre a pós-verdade. “É um produto da modernidade tecnológica: você inventa uma história, realinha ideias, publica, arruma vários seguidores e isso se amplia, viraliza na internet e ninguém mais sabe sobre o que se está falando. Somos todos vítimas disso.”

Assim, Dona Guigui representaria o típico exemplo das chamadas ‘fake news’, as falsas notícias. “Ela é cheia de nuances, de perturbações mentais, poéticas, sociais. Guigui se altera a cada minuto. E isso faz lembrar não apenas o trabalho de Pirandello e o filme Rashomon, de Akira Kurosawa, que devem ter influenciado o Nelson, mesmo ele não admitindo.”

A peça começa com um prelúdio que explica o nascimento do mito do Boca de Ouro, quando ele vai ao dentista para trocar todos seus dentes pela dentadura dourada. Em seguida, a trama dá um salto no tempo até chegar à redação do jornal O Sol, onde o repórter Caveirinha (Chico Carvalho) recebe a notícia do assassinato do bicheiro. Ele é enviado pelo chefe à casa de Guigui (Lavínia Pannunzio), mas com a expressa recomendação de não contar de cara a notícia – o objetivo é arrancar da mulher alguma história suja do bicheiro.

Lá, Caveirinha ouve a primeira versão de Guigui, desancando Boca. Ao saber de seu assassinato, arrepende-se e ressalta uma figura amorosa. O terceiro ato é marcado por nova tentativa de Guigui de desfigurar o bicheiro, temendo ser abandonada pelo marido Agenor (Leonardo Ventura). E, em todas a versões, surgem as figuras do casal Celeste (Mel Lisboa) e Leleco (Claudio Fontana), que tem relação direta com o assassinato do Boca de Ouro.

“Gabriel optou por uma narrativa nada realista”, observa Fontana que, como o resto do elenco (completado por Cacá Toledo e Guilherme Bueno), utiliza a prosódia típica do rádio dos anos 1950, ressaltando especialmente o dramático. A escolha, além de valorizar o colorido dos diálogos, ressalta o coloquialismo típico dos textos de Nelson Rodrigues, que valoriza o absoluto coloquialismo da conversa, injetando gírias que não morrem como “granfa”, “meu chapa”, “bafafá”, “boca de siri” e o já clássico “batata”.

“As palavras, em Nelson, traduzem ação, daí essa tonalidade de voz que usamos. E a gafieira é o local ideal para se ouvir esse tipo de fala”, comenta Leonardo Ventura. De fato, a cada versão de Guigui, a arena que representa o salão circular de uma gafieira revela um ciclo de vida que se encerra.

“Em Nelson Rodrigues, o melodrama pulsa por baixo, do quiproquó ao desenlace. Por isso, decidimos que o arremate tinha de ser com música”, conta Villela, que introduziu a figura de uma crooner (Mariana Elisabetsky) que, ao lado de um pianista (Jonatan Harold), interpreta canções de Dalva de Oliveira. “Ela só entra nos momentos de explosão”, diz Villela. “É um trabalho, realizado com a diretora musical Babaya e a diretora de espacialização Francesca Della Monica, em que utilizamos o conteúdo melodramático da bossa nova e, sobretudo, do samba.”

BOCA DE OURO. Tucarena. Rua Monte Alegre, 1024 (entrada R. Bartira). Tel. 3670-8455. 6ª e sáb., 21h. Dom., 18h30. R$ 50/R$ 70. Estreia 11/8 

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