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Les Commediens encena a última retrospectiva

- Atualizado: 06 Janeiro 2016 | 21h 14

No adeus ao repertório de uma década, Les Commediens Tropicales revisita ‘Mauser’ antes de saudar Brecht

“Não queremos carregar cadáveres se não há mais lugares para que eles aconteçam com vida”. A frase elucida o espírito da companhia Les Commediens Tropicales ao olhar para suas próprias montagens criadas ao longo de dez anos, como explica o ator e dramaturgo Carlos Canhameiro. “O que a gente fez foi revisitar o repertório uma última vez e jogar boa parte das peças fora. Foi muito bom.”

O derradeiro ponto de contato se faz a partir desta quinta, 7, em Mauser de Garagem, concebida como parte integrante de Guerra sem Batalha ou Agora e por um Tempo Muito Longo Não Haverá Mais Vencedores Neste Mundo Apenas Vencidos, ambos os textos do alemão Heiner Muller. O conjunto perpassa a vida do homem que viveu entre duas ditaduras e reflete sobre os conflitos do indivíduo confrontados com o coletivo. “Ele é realmente um dramaturgo que nos influencia há algum tempo, tanto do fazer teatral quanto do que queremos dizer”, explica.

E o trabalho de remontar um repertório de sete peças nos últimos quatro meses serviu justamente para perceber as conexões entre os trabalhos. O espetáculo de intervenção (ver [ [ ]]ter), por exemplo, de 2011, propõe um diálogo com a arte urbana do artista britânico Banksy e deu a tônica do clima de Guerra Sem Batalha, como identifica Canhameiro. “Assim como na intervenção, temos uma peça mais voltada aos acontecimentos cênicos do que disposta a contar ou narrar uma história”.

Através. Cenário da peça com cacos de vidro tem influência da obra de Cildo Meireles
Através. Cenário da peça com cacos de vidro tem influência da obra de Cildo Meireles

Chamada de “pequena pérola” pelo dramaturgo, a intervenção urbana está entre as peças mais montadas do repertório da companhia. Nesta última temporada, o espetáculo ocupou locais como a Avenida Paulista e o Largo da Batata. “É uma obra que não tem uma palavra dita e está dentro de uma visão de teatro que é muitas vezes mais potente que o discurso de uma peça falada”.

E a própria política de circulação de espetáculos em São Paulo é considerada como o grande dilema do grupo pelo dramaturgo. Ele afirma que apesar de existir uma produção profícua, a cidade peca por não criar oportunidades para que as montagens entrem em cartaz em diferentes espaços. “Temos peças que circularam com 100 apresentações e outras que morreram em 30, como O Pato Selvagem. É de uma certa crueldade”. Ele conta que tal cena influenciou na despedida definitiva do repertório. “Se não queremos nos desfazer dos trabalhos tão rapidamente, também não queremos ficar com eles guardados”.

E por se livrar dessa carga no ano passado que o grupo consegue alívio para vislumbrar novidades em 2016, o que inclui, no meio do ano, o lançamento de um disco com as canções originais de Guerra sem Batalha compostas pelo Quarteto à Deriva, parceria desde 2011.

E em outubro, a primeira peça de Brecht servirá como provocação para o projeto Baal.material. “A obra dele ainda tem formas experimentais, além de ter um alto teor machista”, conta. “O que nos interessa é que quanto mais aberta ela é, mais a gente consegue expandir a nossa cena. Como foi em Muller, a leitura de Baal vai para esse mesmo lugar.”

MAUSER DE GARAGEM. Galpão do Folias. R. Ana Cintra, 213 -Santa Cecília. Tel.: 3361-2223. Qui., a sáb., 21h; Dom., 19h. Grátis. Reestreia 7/1. Até 17/1

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