Nana Moraes/Divulgação
Nana Moraes/Divulgação

‘Krum’ é o grande espetáculo das vidas minúsculas

Em cena, Renata Sorrah dá demonstração de autoridade cênica e grande carisma

Jefferson Del Rios , Especial para o Estado

06 Julho 2015 | 05h00

Com uma acumulação de absurdos caricaturais e agressivos, o espetáculo Krum,da Companhia Brasileira, de Curitiba, consegue, sem menção geográfica, sintetizar fracassos humanos, o que, literária e filosoficamente, sabemos, tem raízes no passado. Podem estar, porém, no futurismo derrotista do filme Blade Runner (a partir do romance de Philip K. Dick). Faltam só os androides da engenharia genética. 

Tudo na obra do israelense Hanoch Levin é o monumental desastre de vidas em descenso em câmara lenta. A força incontornável dessa decadência pessoal e de classe é uma forma de tributo ao teatro de Anton Chekhov (1860 -1904), que só conheceu o início do século 20. Também reconhece o vazio, espiritual gerado por duas guerras mundiais e que Samuel Beckett (1906- 1989) refletiu. Se tudo comove em Chekhov, o deserto dos sentimentos marca Beckett. Ambos são geniais porque, enfim, souberam dizer pela poesia que assim são os homens e o mundo. 

Hanoch Levin (1943–1999) presenciou os tumultos em Israel e arredores, as desavenças sangrentas com vizinhos, o terrorismo. O horror diário no berço das três religiões monoteístas. Ali, nem Deus espera Godot ou as gaivotas (ou pombas da paz) checovianas. Mas se as guerras estão no nível do monumental, do épico ou da tragédia, o mundinho de Krum é o cinzento dia a dia dos personagens, do homem banal, da maioria silenciosa, do “Zé Ninguém” de Wilhelm Reich, manipulado pelos donos da História.

 

Pode parecer uma encenação atroz para se fugir dela. Não há motivo. Basta se olhar em volta. Como diz o diretor Marcio Abreu, enquanto o mundo turbulento destila violências, as pessoas tentam seguir suas vidas sem brilho, confinadas em suas casas, alimentando expectativas, esperança de dias melhores.

A diferença é que aqui tudo está redimensionado pela arte. Os pessimistas como Hanoch Levin têm algo a dizer para além do seu desgosto pessoal. O texto tem sua graça ainda que desesperada, e Marcio Abreu criou a partir dele um caleidoscópio de reações corporais divertidas. Não se pode dizer que é o clássico humor auto irônico judaico. Todos os romances de Amós Oz, figura maior da literatura israelense abordam o cotidiano em surdina, como o gaúcho Michel Laub, uma das revelações de sua geração, olha agora, em profundidade, para suas raízes judaicas em Diário da Queda (salvo engano, um enredo para o teatro).

Chegam mesmo para rir os amores cômicos-acrobáticos desencontrados e naufrágios conjugais numa coreografia de atração e repulsa que mobiliza a desastrada galeria humana de Krum (como o protagonista masculino é chamado). O preparo corporal dado por Marcia Rubin ao elenco permite momentos expressivos de representação com gestual de marionetes. 

Krum é o exemplar exacerbado do niilista. Volta para casa depois de tentar ser escritor, viver aventuras, vencer. O papel está com um Danilo Grangheia, ator talentoso que, estranhamente, se mantém numa linearidade de mau humor que contraria a oscilação entre vulgaridade e lirismo que a direção parece pretender (Raul Cortez consagrou-se no teatro como o músico Teteriev de Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki, no Teatro Oficina, porque dentro do mesmo niilismo, ele conseguia ser provocador, divertido, melancólico e, importante, profético). 

Essa combinação de dor, sonhos, raiva e desalento proporciona a Renata Sorrah, uma vez mais, demonstração de carisma e grande autoridade cênica. Ela tem uma parceira à altura em Grace Passô, que se divide em dois papéis.

Os demais por serem incidentais ou de pouca definição dramática, têm pouco espaço para intervenções fortes. No entanto, Edson Rocha, o marido entediado, se impõe pelo tipo físico e experiência; o mesmo acontece com Ranieri Gonzalez como o doente caricato. Todos com impecável qualidade vocal.

É um espetáculo estranho ao oferecer o aniquilamento geral da vida. Passa próximo de ser perder numa queixa reiterativa, mas o conjunto transmite um olhar, ora generoso, ora cruel, sobre gente que, como a mãe de Krum, dia após dia, faz o possível para manter a cabeça fora d’água. 

KRUM

Sesc Consolação. Teatro Anchieta. Rua Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000. 6ª e sáb., às 21h; dom., às 18h. R$ 12/R$ 40. Até 26/7.

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