CAIO GALLUCCI
CAIO GALLUCCI

'Hebe, o Musical' homenageia um dos ícones da televisão brasileira

Espetáculo busca estimular no espectador a sensação de assistir ao programa pela TV

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2017 | 06h00

Durante anos, uma mulher de cabelos loiros e riso escancarado era semanalmente aguardada por famílias brasileiras de todas classes sociais, que se acomodavam diante de um aparelho de TV para assistir ao seu programa.

Hebe Camargo (1929-2012) comovia e divertia com sua espontaneidade diante de seus convidados. “Ninguém tinha prestígio suficiente nesse País se não se sentasse em seu sofá para ser entrevistado”, afirma o jornalista Artur Xexéo, em Hebe: A Biografia (BestSeller), obra lançada no início do ano e ponto de partida de um plano intitulado Plataforma Hebe Forever, que vai contemplar outros projetos culturais (leia ao lado).

A próxima etapa é certamente a mais aguardada: Hebe, O Musical estreia nesta quinta-feira, 12, no Teatro Procópio Ferreira, um delirante espetáculo escrito pelo mesmo Xexéo e dirigido por Miguel Falabella que traça o perfil da mulher que teve uma infância humilde em Taubaté, no interior de São Paulo, até conquistar o posto de rainha da televisão brasileira. “Vamos mostrar o que víamos na TV nos anos 1960: um sonho”, conta Falabella. “Hebe trazia um programa visualmente exacerbado para que o público se deliciasse.”

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É justamente essa sensação de estar sentado no sofá da sala que será oferecido ao público – o espetáculo (que terá 21 atores em cena e orquestra com 9 músicos) começa como se a plateia estivesse assistindo a um programa em preto e branco. Em cena, a garota-propaganda (Giovana Zotti) se atrapalha com os comerciais ao vivo e Leonor (Brenda Nadler), uma fã de Hebe Camargo, responde sobre a vida de seu ídolo ao peculiar apresentador de um programa de perguntas e respostas, Belo Garrido (Daniel Caldini). É graças ao conhecimento dessa fã que os espectadores vão viajar pela vida e carreira de Hebe, interpretada por Carol Costa, na juventude, e Débora Reis, na vida adulta.

“Desenvolvi, junto com o Gringo (Cardia, responsável pelo cenário e direção de arte), um visual em preto e branco, o que nos permite evitar o realismo insosso”, conta o encenador. Para isso, destaca-se o trabalho do visagista Anderson Bueno, que botou uma camada de maquiagem branca no rosto dos atores, secando o colorido que também não está presente nos figurinos e no cenário. “E, no número de abertura, garotos descem as escadarias – o entretenimento em sua essência é o que Hebe gostaria de ver”, observa Falabella.

De fato, o musical apresenta-se como um grande programa de variedades, sem se preocupar com a cronologia, mas apostando no delírio como fio condutor. “É o Moulin Rouge da Hebe”, diverte-se o diretor. Mas é evidente a existência de uma narrativa. Assim, no primeiro ato, a ação mostra os primeiros anos de Hebe até seu primeiro casamento, com o comerciante Décio Capuano (Guilherme Magon). No meio do caminho, uma infinidade de histórias se cruzam como sua participação em programas de calouros, as muitas amigas representadas pelas mais conhecidas, Lolita Rodrigues (Renata Ricci), que Hebe conheceu ainda adolescente, e Nair Bello (Renata Brás), com quem desfrutava noites de carteado e francas conversas, até amores como o namoro com o boxeador americano Joe Louis (Renato Caetano) e a complicada relação, mantida em segredo, com o empresário Luís Ramos (Frederico Reuter).

“Era uma mulher que tinha a alegria como principal característica”, atesta Débora Reis, que imprime incrível semelhança ao viver Hebe na segunda fase de sua vida. Ela já chamara atenção ao interpretar a rainha da televisão no musical Rita Lee Mora ao Lado, em 2014. “Fiz algo mais próximo da Dercy Gonçalves, mas fez tanto sucesso que, de uma fala, passei a ter uma cena”, orgulha-se ela, que reforça o sotaque paulistano, puxando os erres, e abre o sorriso com a mesma extensão da apresentadora. “Nasci na Mooca, portanto, não é nada difícil.” A atriz também capricha no tradicional “selinho”, que Hebe distribuía a seus convidados.

Apesar da infinidade de imagens que dispõe da apresentadora, Débora ainda enfrenta desafios. “Sua fase loira é mais conhecida, quando já era uma figura pública, mas e a fase morena? E como era em sua intimidade, especialmente com os amores? Era doce? Falava palavrões?”, questiona-se ela, que faz 20 trocas de roupa e usa 5 perucas. Os problemas se resolvem com a decisão de Falabella de evitar o realismo e favorecer as figuras. “Apresentamos a essência da Hebe”, comenta ele que, junto da coreógrafa Fernanda Chamma e do diretor musical Daniel Rocha, criou números de canto que respeitam a sonoridade da época, ao estilo de um show. Surgem, assim, momentos hilariantes como a marchinha Nhá Carola, apresentada por Lolita Rodrigues e Mazzaropi, o célebre comediante do cinema, interpretado com deliciosa perfeição por Adriano Tunes. “Respeitamos o original, mas damos um toque de originalidade”, diz Falabella.

HEBE, O MUSICAL. Teatro Procópio Ferreira. Rua Augusta, 2.823. Tel.: 3083-4475. 5ª e 6ª, 21h; sáb., 17h e 21h; dom., 18h. R$ 50 / R$ 190. Estreia 12/10

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