Grupo carioca traz a São Paulo sua versão de 'Amor e Restos Humanos'

Grupo carioca traz a São Paulo sua versão de 'Amor e Restos Humanos'

Peça fala do mundo caótico e desgovernado das grandes cidades

Igor Giannasi, O Estado de S. Paulo

12 Maio 2015 | 19h35

Em 1993, o filme do canadense Denys Arcand Amor e Restos Humanos trazia um contundente retrato das relações amorosas daquela década ainda marcada pela epidemia da aids e pelo individualismo exacerbado. A produção foi baseada no texto teatral do também canadense Brad Fraser, que teve duas montagens no Brasil nos anos 2000. E, ao assistir à encenação da peça pela companhia Odeon, de Minas Gerais, o diretor mineiro Jean Mendonça foi arrebatado pelas personagens que naquela proposta apareciam engaioladas - literalmente - em seus conflitos existenciais. “Foi uma experiência sensorial única que repeti para mim mesmo na época: ‘ainda vou montar este texto’”, conta Mendonça. Mais de dez anos depois, o desejo foi realizado na estreia do próprio grupo, o Banquete Cultural, que, após três temporadas no Rio, sede da companhia, traz o espetáculo para São Paulo, em apenas duas semanas de apresentações, entre 28 de maio e 7 de junho, na Caixa Cultural.

A retomada da história que se desenrola em torno de David McMillan, um narcisista e hedonista ex-ator gay, que trabalha como garçom, se justifica, para Mendonça, pois “assuntos importantes”, como a aids - mesmo que hoje em dia seja uma doença controlada -, ainda são “banalizados”. “Além desta questão premente, a peça fala do mundo caótico e desgovernado das grandes cidades, em que as pessoas se relacionam sem preocupação de formar uma ligação sólida”, diz ele, lembrando da influência do trabalho do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (autor de Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos) no processo de preparação do espetáculo. “Todas as personagens, de alguma forma, vivem as relações líquidas dos tempos modernos e por mais que, por um discurso retórico, digam que preferem algo sólido e duradouro, não é isso que buscam de fato. Assim é o mundo de hoje, uma sociedade líquida, aberta a mudanças, que busca incessantemente seus amores líquidos. Assim é o texto de Fraser”, comenta Mendonça. O canadense, aliás, vem ao País para assistir à montagem e também ministrar uma palestra aberta ao público no dia 6 de junho.

Nas rubricas e indicações do texto original do dramaturgo, Mendonça enxergou “duplos” nos protagonistas - David e Candy, amiga e ex-namorada do garçom -, que revelam facetas diversas de suas personalidades, e imprimiu sua marca na montagem dividindo as personagens deles para dois intérpretes em cena ao mesmo tempo. Com o amadurecimento do espetáculo, nessa nova versão que chega a São Paulo, o diretor resolveu deixar Candy aos cuidados de apenas uma atriz - Juliana Ferraz - e manteve David com dois atores (Patrick Orlando e Hugo Ayres). “Isso deu uma dimensão maior ao David e sua visão narcisista do mundo: a projeção dos seus vários ‘eus’ no espaço. Com a mudança, todos giram em torno dele, como o texto do Fraser propõe”, explica o diretor. Outra alteração em relação à ideia original, vista desde a temporada anterior, foi tornar a personagem Benita, uma prostituta vidente, em uma figura mais andrógina e interpretada por um homem (Marcus Liberato).

Adepto de relacionamentos fugazes, David divide apartamento com Candy, uma crítica literária entediada com o trabalho e desesperada para encontrar um par. No entorno dele, estão Benita, o amigo de infância Bernie (Felipe Marcondes) e o adolescente Kane (Elias de Castro), confuso com sua sexualidade. Já o bartender Robert (Don Felipe) e a professora lésbica Jerri, papel da ótima Indira Nascimento, disputam o interesse de Candy. Paralelamente, um psicopata ataca e mata jovens mulheres.

Outra característica definidora da concepção de Amor e Restos Humanos de Mendonça é que o público acompanha o elenco durante a encenação. Na primeira temporada, o cenário era um casarão antigo na zona sul carioca, a Casa da Glória, onde a reportagem assistiu a uma das apresentações do espetáculo, em maio de 2014. A arquitetura do local contribuiu imensamente para a imersão na peça - especialmente em seu desfecho. Nas temporadas seguintes, o palco foi o Parque das Ruínas, centro cultural em Santa Teresa, no centro do Rio. “E claro que tivemos que fazer uma nova adaptação da montagem e trabalhar numa nova dramaturgia do espaço. Sinto que foi lá, nestas ruínas, que a coisa humana de fato aconteceu”, conta o diretor.

A adaptação também ocorreu para a vinda da peça a São Paulo. Assim que tiveram o resultado do patrocínio do espetáculo, o pessoal da Banquete Cultural foi tirar as medidas e fotografar o Salão Nobre da Caixa Cultural, no centro da capital. Com os dados em mãos, redimensionaram as dependências da sede do grupo para os ensaios. “O resultado foi orgânico e uma junção de soluções cênicas de todas as temporadas anteriores, com tudo que deu certo nelas e que provocou algo mais no público”, diz o diretor. 

Com outro edital, o Prêmio Myriam Muniz, o grupo já prepara o próximo espetáculo, Áurea, a Lei da Velha Senhora, que aborda a história de uma comunidade de negros que, mesmo nos dias atuais, vivem como escravos. Com direção e autoria de Mendonça, tem estreia prevista para o segundo semestre. O projeto se desdobrou no filme Negrinho, dirigido por Thaís Inácio, em produção.

As apresentações em São Paulo também proporcionaram a realização da vontade de trazer o autor canadense para ver a peça, já que, por questões de orçamento, o convite não pôde ser concretizado no Rio. “Quando saiu o resultado da Caixa Cultural, a comemoração foi dobrada. Faríamos finalmente nossa tão almejada temporada em São Paulo e traríamos finalmente o Brad Fraser ao Brasil, que pelo que temos notícias, nunca veio com esse pretexto de assistir a uma encenação de seus textos”, conta Mendonça. “Poder trazê-lo, então, é uma comoção pessoal. Nossa companhia está em festa. Se as pessoas experimentassem mais obras de arte tão preciosas quanto aquelas escritas por ele, garanto que o mundo seria mais tolerante com as diferenças.”

AMOR E RESTOS HUMANOS

Caixa Cultural. Salão Nobre. Praça da Sé, 111, centro. 5ª a dom., às 19h15. Grátis - reserva de ingressos e mais informações: contato@banquetecultural.com. Até 7/6. Estreia em 28/5.

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