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Grão-mestre do Kabuki se apresenta pela primeira vez no Brasil

O coreógrafo Fujima Kanjuro leva espetáculo e concerto ao Sesc Pinheiros

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

13 Agosto 2015 | 03h00

O Príncipe Nyo-sui e a Princesa-Fada Shira-Giku namoravam na utópica ilha Togenkyo quando, de repente, surge a monstruosa Aranha da Terra que rouba a espada do tesouro celestial. A partir daí, o príncipe fica cego e ambos partem em busca de ajuda. Orientados pelo velho sacerdote Shu-rou, a Fada se disfarça de viajante e encontra um homem caracterizado como Aranha de Pedra, fazendo-o beber saquê. Dessa maneira, ela consegue quebrar o feitiço lançado sobre o príncipe, recupera a espada e restaura a paz na Terra do Sol Nascente. 

Tal aventura é contada por meio do canto, da dança e da representação, que dão forma e significado à palavra kabuki, teatro japonês com 400 anos de história. Um demonstração desta arte ganha o Sesc Pinheiros nesta quinta, 13, pelas mãos, corpo e vestes do coreógrafo Fujima Kanjuro. Ele é o responsável pela continuidade do estilo de sua família, que mantém a tradição há cerca de 16 gerações, ininterruptamente. Neto de Fujima Kanjuro IV, considerado Living National Treasure (Tesouro Vivo Nacional pelo governo japonês), o artista teve suas primeiras aulas com a mãe, Fujima Kanso III.

Com origem por volta do século 17, o kabuki tem inspiração na cerimônia religiosa nembotsu odori (dança de prece), pela bailarina Okini. Praticado integralmente por mulheres, a encenação passou a representar danças com movimentos sensuais, o que foi considerado ofensivo aos costumes da época. O shogunato, regime militar japonês, então vetou a presença feminina nos palcos, criando o onnagata − atores que interpretavam os papéis femininos. “Onnagata revela a beleza de ‘mulheres’ mais do que o real. Para isso, existe um grande desenvolvimento sobre a composição técnica, maquiagem, os trajes e os gestos”, explicou também Kanjuro, em entrevista ao Estado. 

Fujima abrirá o espetáculo com uma dança solo ritual. Sanba-so é oferecida aos espíritos, em um pedido de paz e prosperidade. Em seguida, sete bailarinos adentram o palco para contar a história da batalha contra o monstro aracnídeo. 

Outra peculiaridade do kabuki são as cenas nas quais os atores fazem poses e ficam paralisados por algum tempo. Conhecido como mie, o objetivo é dar destaque aos sentimentos expressados, em cenas de grande destaque. Nesse instante, outro elemento, chamado koruko, se faz importante. Traduzido como ‘criança negra’, os korukos se vestem totalmente de preto e são parecidos com contrarregras. Eles são considerados invisíveis e incorpóreos. Suas funções são movimentar o cenário e objetos. No momento de uma pose mie, o koruko também pode segurar as vestes do ator, emoldurando o personagem e criando um efeito de escultura viva. 

A música que acompanha o teatro é composta por instrumentos de percussão e o típico shamisen, similar a um violão mas com três cordas. Durante o evento, uma noite será reservada para um concerto com canções do repertório, executadas por 12 músicos liderados pelo maestro Nakamura Masaharu.

Legado. Durante a passagem de Kanjuro por São Paulo, o artista também mostrará o su-odori, a dança tradicional japonesa que teve origem no kabuki. Em um intenso diálogo com o teatro, a ‘dança plana’ substitui o figurino do kabuki por trajes mais simples. “O significado de su-odori é eliminar perucas ou trajes e mostrar a essência do personagem, sem distrações. Assim, em sua origem, não é puramente entretenimento, eu acredito, mas essa dança pode revelar o espírito do artista”, explica.

Para o coreógrafo, o ensino de tais artes e estilos tem sido uma de suas inquietações. Kanjuro explica que a sobrevivência dessa arte se deve ao que os japoneses chamam de tradição kuden, a transmissão oral. “Honestamente falando, a coreografia kabuki e sua tradição não está conservada. Atualmente, nosso legado é transmitir informações oralmente e o método é mostrar os modos de se fazer e as maneiras de cada período. Isso ajuda a manter viva a luta e memória dos nossos antepassados”, conta ainda.

O evento, que marca a comemoração dos 120 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Japão, também abre as portas para a estreia de Kanjuro no País em um momento especial. “Eu tenho participado de muitos projetos no exterior e, quando chego a um lugar novo, carrego comigo uma mensagem de meu pai. Ele diz: ‘Faça sua performance com um sentimento de orgulho, para os outros e para sua própria cultura’. No Brasil, eu realmente espero apresentar algo com este espírito. Que o público brasileiro possa conhecer o kabuki, desfrutar e se divertir ao mesmo tempo.”

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TEATRO KABUKI. Sesc Pinheiros. Teatro Paulo Autran. Rua Paes Leme, 195, tel. 3095-9400. 5ª a sáb., às 21 h.  

R$ 40. Até 15/8. 

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