'Gira', do Grupo Corpo, une 3 pontos que precisam ser ligados: o chão, o céu, o caos

Como o próprio Exu, essa Gira é uma abridora de caminhos

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2017 | 06h01

Para que essa Gira aconteça, o 3 precisa estar lá. O “três ao mesmo tempo” que Metá Metá significa em iorubá. As 3 coisas que precisam ser ligadas: o chão, o céu, o caos. O 3 que agrupa o desaparecimento nos escuros dos tempos do antes, em que os bailarinos se encapsulam quando não estão dançando, mais a luz pouca de uma transição entre o que vai começar ou está acabando (uma luz que vem de cima), mais o claro do terreiro onde a dança acontece. O 3 que se espalha em preto, branco e vermelho, cores do Exu que está na música coreografada pelo trio Metá Metá, na dança composta por Rodrigo Pederneiras e no figurino-cenário-iluminação (um outro “três ao mesmo tempo”) que materializa uma inauguração. Ou nas tríades de vice-versa que vão daí desabrochando.

Nessa Gira, os figurinos de Freusa Zechmeister trocam a ênfase das singularidades pela potência maior do comum, esse comum do qual hoje tanto se fala e tanto se busca. Com eles, os corpos e a dança que lhes dá forma se mostram com outros contornos, as camadas de tecido se dissolvendo/desdobrando nas camadas de movimento. Figurinos-pele-movimento. 

A música de Kito Dinucci (guitarra), Thiago França (sax) e Juçara Marçal (voz), conta com as participações especiais de Sérgio Machado (bateria, sampler e percussão) e Marcelo Cabral (baixo elétrico e acústico); uma letra assinada por Nuno Ramos, poeta, ensaísta e artista plástico; e duas faixas cantadas por Elza Soares - montando um outro 3. Se alguém precisar de um exemplo do que seja sincretismo, que a escute. Metá Metá escava por dentro e para fora das texturas das sonoridades que vai juntando, e sua música mastiga e vomita movimento.

Como o próprio Exu, essa Gira é uma abridora de caminhos. O vocabulário que Rodrigo Pederneiras vem construindo espiralou os eixos que já estavam sólidos. Como um tufão que passa arrastando tudo, engolfou o legado de Mercedes Batista e o levou para encostar em outra tradição, em um continuum de misturas que, se sabe, não se estancam e não se dissolvem, felizmente.

Quem pisou no chão? 

O elenco, quando pisa, liberta, com uma competência que parece renovada pelo novo material coreográfico gestado por Rodrigo, as forças do que vem de dentro desse chão. É um pisar que risca e promove um chafariz que jorra dobras, curvas, requebros e espiralamentos que se soluçam e se tropeçam.

Quem pisou no céu?

A terra avermelhada da qual veio Exu está lá, no pescoço dos bailarinos, ligando com o céu/como um céu.

Quem pisou no caos?

O Grupo Corpo e Metá Metá. Como Exu, foram capazes de criar o caos e recriar a ordem. Uma ordem na qual o corpo reina. O corpo e o Grupo Corpo. Uma ordem-Bará, como queria Metá Metá (em iorubá, Oba/rei e Ara/corpo). 

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