Vitor Dias
Vitor Dias

Gabriel Villela revê a contracultura de José Vicente em 'Hoje é Dia de Rock'

De Clube da Esquina a ‘Let It Be’, espetáculo expõe o medo do futuro e a saudade de casa

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2018 | 06h00

Se o solo abaixo da América Latina pudesse ser escavado, as raízes da Macondo de Cem Anos de Solidão estariam interligadas ao interior mineiro de Hoje É Dia de Rock. A peça de José Vicente, que não nega a inspiração na obra de Gabriel García Márquez, ganha versão de Gabriel Villela em curta temporada no Sesc Avenida Paulista. 

Apesar do título extrovertido, o público testemunha certa melancolia na vida de uma família de cinco filhos que precisa deixar o interior de Minas e vir a São Paulo, nos anos 1970. Com seus nomes trocados, cada personagem é inspirado na família de Vicente. E é nesse trânsito que as personagens revelam suas fragilidades e medos. “Existe esse embate entre a mitologia rural e a urbana, que empresta a aura de Macondo e o realismo fantástico de Márquez”, conta Villela. 

O diretor buscou esse estado na encenação com as músicas que passeiam pela peça, como San Vicente, Um Gosto de Sol e Bola de Meia, Bola de Gude, de Milton Nascimento, marcas da “MPB mineira”, junto ao movimento que formou o Clube da Esquina, com o Trem Azul, de Lô Borges, também presente na peça. “Essa melancolia veio na boleia da caminhonete de Milton. Por mais herméticas que fossem algumas canções, ele falava dessa cidade imaginária e ideal, construída entre idas e vindas.” 

Assim, o embalo dessa cantoria conduz os personagens na saudade de uma relação quase natural com o lugar em que vivem, mirando um futuro incerto na cidade grande. “Sair de Minas significa deixar a família, a fé e um estilo de vida com ligação quase mística com a natureza ao redor”, afirma o diretor. 

Mas tantas mudanças não aconteciam apenas no eixo Minas-São Paulo. Maio de 68 uniu-se aos hormônios da juventude do mundo contra toda proibição, ao que o diretor injetou a energia de Beatles e Elvis Presley como espaço de sonho e emancipação da família de Vicente. “Uma das filhas vai se apaixonar por Elvis ao ouvi-lo no rádio, mas sabemos que essa paixão será vivida com o jovem mecânico do bairro, conta Villela. O destino da família recém-chegada à cidade será o de se desfazer, com cada um dos cinco filhos conquistando um novo caminho depois de abandonar tantas coisas. 

Tal qual a família de Vicente, o espetáculo tomou jornada semelhante. Desde sua estreia no ano passado, em Curitiba, no projeto do Teatro de Comédia do Paraná, a peça já viajou com seus 13 atores e um músico por cerca de 10 cidades no Paraná e estreou na casa original do Teatro Ipanema. 

Villela também anunciou que seu próximo projeto envolve uma adaptação de Estado de Sítio, de Camus. A peça de 1948 relata uma peste – ou seria o totalitarismo? – que invade uma pequena cidade litorânea da Espanha, numa alegoria sobre o medo e a ação dos regimes ditatoriais. O diretor também se prepara para montar Henrique IV, de Shakespeare.

 

José Vicente viu na juventude a antena dos novos tempos 

Com temas da marginalidade, da cultura pop, do absurdo e do nonsense na ponta da lança de muitos artistas, os palcos paulistanos foram preenchidos, no fim dos anos 1960, por textos de um time de dramaturgos e escritores que pensaram a revolução cultural de um jeito que confundiu até mesmo os grupos de teatro de esquerda da época. 

Ao lado de Antonio Bivar, Leilah Assumpção, Consuelo de Castro, Isabel Câmara e Carlos Queiroz Telles, o dramaturgo José Vicente escreveu no período mais acirrado da ditadura pós AI-5. 

Antes de viver o sucesso de Hoje é Dia de Rock (1970), o autor já relatava o sofrimento de ver um dos irmãos deixar a casa para se tornar seminarista – mais tarde, o próprio Vicente tomaria o mesmo caminho. O episódio aparece em Santidade (1967), sua peça de estreia dirigida por Fauzi Arap. A trama encarava o tema da fé de frente ao expor o debate entre um rapaz, gay, que havia desistido do seminário, como um alter ego de Vicente, e seu irmão, que decidira seguir carreira religiosa e estava prestes a se tornar padre.

O espetáculo produzido por Tônia Carrero foi censurado por marechal Costa e Silva, que declarou na televisão, em cadeia nacional, que a dramaturgia de Vicente era o exemplo de uma peça que jamais seria encenada no País. Santidade ficou maldita por 30 anos até ser recuperada pelo próprio Arap em 1997, quando estreou no extinto Teatro Crowne Plaza, em São Paulo. 

Mais tarde, o sucesso de Hoje é Dia de Rock engrossou o coro do movimento da contracultura hippie e antibélico, mas também carregava uma centelha delicada, como uma peça que nasceu após o autor saber da morte do pai. Quando Vicente ganha o Prêmio Molière – que dava direito a uma passagem para Paris –, acaba se autoexilando na Europa. Mais uma vez em terras desconhecidas, ele parece ter revivido a separação dolorosa que fez com a família ao deixar Minas. O que o amparou na época foi a turma da Geração 69, entre eles, Leilah, com quem trocava cartas constantemente para saber notícias do Brasil.

Músicas

Clube e Milton Nascimento

A fusão musical de elementos da bossa, do jazz, do rock e da música folclórica do Clube da Esquina retrata a mudança da família do personagem Valente, que deixa o interior de Minas para morar em São Paulo, nas canções San Vicente, Fé Cega, Faca Amolada, O Trem Azul, Um Gosto de Sol e Bola de Meia, Bola de Gude

 

Rock

A rebeldia de Elvis Presley, The Beatles e Little Richard marcam a nova fase dos jovens na cidade grande, em Love Me Tender, Let It Be e Tutti Frutti.

HOJE É DIA DE ROCK

Sesc Avenida Paulista. Av. Paulista, 119. Tel.: 3170-0800.

R$ 30 / R$ 15. Estreia 5ª (10). Até 13/5.

 

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