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Festival de Curitiba encara a crise e muda com nova curadoria

- Atualizado: 22 Março 2016 | 05h 00

Com a missão de produzir pensamento, Guilherme Weber e Marcio Abreu renovam fôlego do maior festival do gênero no País

A crise econômica atingiu em cheio os festivais brasileiros. Seu sistema de financiamento está debilitado. Os editais minguaram. E muitos desses eventos lidam com a possibilidade de desaparecer em 2016. Mesmo entre os grandes, ninguém parece a salvo. A MITsp enfrentou sérios problemas para colocar de pé a edição deste ano. 

Maior e mais tradicional programação do gênero no País, o Festival de Teatro de Curitiba chegou praticamente a ser cancelado. Mas a crise, nesse caso, trouxe fôlego renovado ao evento, que começa nesta terça, 22, e segue até o dia 3 de abril. “Foi a crise que desencadeou esse processo de mudança”, considera o ator e encenador Guilherme Weber que, neste ano, assume a curadoria ao lado do diretor Marcio Abreu. 

Sob a ameaça de dissolução do festival, o diretor Leandro Knopfholz teria começado a desmontar a estrutura estabelecida. Dispensou a antiga equipe de curadoria (formada por Tânia Brandão, Lúcia Camargo e Celso Curi), que ditava as linhas da programação havia mais de uma década e fez cair por terra o conceito que norteava a grade desde sua criação: a ideia de ser uma “vitrine do teatro brasileiro”. “Uma vitrine é para expor coisas e vender. E o festival nunca foi isso. Não é um mercado, como são outros grandes festivais, como Edimburgo e Avignon. Então, por que manter essa ideia?”, questiona Marcio Abreu. 

Curadores. Diretores Guilherme Weber (E) e Marcio Abreu
Curadores. Diretores Guilherme Weber (E) e Marcio Abreu

De acordo com o antigo modelo, um dos maiores atrativos de Curitiba era o seu grande número de estreias. Apresentava-se ali, em primeira mão, o que os palcos restantes do Brasil viriam a conhecer a cada ano. A proposta, contudo, estava perdendo fôlego faz tempo.  “Fala-se muito em uma crise econômica, mas o que existe, sobretudo é uma crise no modelo dos festivais. É preciso repensar esse modelo e questionar qual a função de um festival no cenário que temos hoje”, pondera Abreu. O evento opera, em 2016, com um orçamento semelhante ao do ano passado: R$ 6 milhões. 

Para Weber, o que ocorreu, essencialmente, foi uma mudança de parâmetros: “Abrimos mão do quesito novidade para passar a produzir pensamento”. Chamada a assumir a curadoria em dezembro, a dupla teve pouco tempo para trabalhar. Mas valeu-se de algumas características para mudar as feições da programação. 

LEIA MAIS: Rede de festivais articula medidas para expandir setor

Ambos têm laços fortes com a cidade: Weber é curitibano. Abreu, carioca, mas mantém o seu grupo, a Cia. Brasileira de Teatro, em Curitiba. O festival passou, naturalmente, a privilegiar o seu vínculo local. 

E também a angariar obras que refletem sobre o Brasil. “Ainda não sabemos que retrato é esse de país que surge daí. É um país tão continental, que se apresenta em fragmentos”, diz Weber. “Talvez a pergunta seja que ‘brasis’ são esses. E mais, como esses corpos, esses artistas, respondem ao que o País lhes revela”, pontua Abreu. 

Desse embate com o real, saíram títulos como Cabras – Cabeças Que Voam, Cabeças Que Rolam, mais recente criação da Cia Balagan que se debruça sobre o universo do cangaço nordestino. E Caranguejo Overdrive, investigação sobre as mudanças geográficas no Rio do século 19. Outro destaque é a presença de Denise Stoklos, que não retorna a Curitiba com uma montagem inédita, mas com um antigo trabalho: Vozes Dissonantes, concebido para as celebrações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, em 2000. 

Ator. Mateus Nachtergaele está na mostra oficial
Ator. Mateus Nachtergaele está na mostra oficial

As propostas cênicas mais convencionais continuam a merecer espaço na mostra oficial: há três montagens de Shakespeare e uma versão de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams. Mas o público será instado, ainda, a conhecer uma série de títulos que trafega na fronteira entre o teatro, a dança e a performance. Estão previstos um happening, dois solos e um recital. Entre eles, Processo de Conscerto do Desejo, no qual Mateus Nachtergaele recita textos escritos por sua mãe, morta em 1968. E Parallel-Song uma performance musico-teatral da dupla Fernanda Farah e Chico Mello – curitibanos radicados em Berlim. 

Em suas edições anteriores, o festival paranaense havia investido na programação internacional e logrado apresentar alguns espetáculos notáveis. Caso de The Rape of Lucrecia, em 2014; e uma versão de Mãe Coragem e Seus Filhos, com a artista coreana JaRam Lee, em 2013. Isso não ocorre em 2016. Outra aposta recente que sai de cena é a da mostra como coprodutora de peças. As duas vertentes, contudo, devem merecer mais atenção nos próximos anos. 

Com o intuito de permanecer à frente da programação por um período limitado – 3 ou 4 anos –, a atual dupla de curadores já prospecta títulos de fora para as edições futuras. E pretende dar protagonismo às coproduções. “É a grande possibilidade de assinatura de pensamento de um festival”, considera Weber. “Uma real possibilidade de produzir encontros e espetáculos que não existiriam sem esse estímulo.”

DESTAQUES

De 24/3 a 3/4

Mostra ‘IlíadaHomero’, cia IlíadaHomero (PR)

 

Dias 25 e 26/3

‘Cabras – Cabeças que Rolam, Cabeças que Voam’, cia Balagan (SP)  

 

Dias 29 e 30/3

‘Caranguejo Overdrive’, Aquela Cia (RJ)  

 

Dias 31/3 e 1º/4

‘Grãos da Imagem: Vaga Carne’, Grace Passô (MG) 

 

Dias 2 e 3/4

‘Processo de Conscerto do Desejo’, Matheus Nachtergaele (RJ)

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