Patricia Cividanes/Divulgação
Patricia Cividanes/Divulgação

Felipe Hirsch volta a refletir sobre o continente a partir da literatura

Liberdade e servidão inspiram a escolha dos textos de 'A Comédia Latino-Americana'

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2016 | 06h00

A peça A Comédia Latino-Americana estreia nesta sexta-feira, 7, no teatro do Sesc Vila Mariana, mas já teve uma exibição em Santos, no mês passado, durante o Festival Mirada. Engana-se, porém, quem acredita já tê-la visto, depois da sessão no litoral. “Agora, é outro espetáculo”, garante o diretor Felipe Hirsch. “Das 3h40 apresentadas em Santos, sobrou pouco mais de uma hora - o restante é completamente novo.”

Antes que se julgue mal a qualidade das cenas deletadas, é preciso lembrar que A Comédia está inserida em um ambicioso projeto iniciado em fevereiro, quando estreou A Tragédia Latino-Americana, em que Hirsch e um grupo de artistas (entre atores, músicos e escritores) busca questionar a realidade do continente, atropelada por sobressaltos políticos e sociais. E a reflexão acontece por meio da literatura latina, fornecedora dos textos interpretados pelos atores. “O espetáculo que estreia agora é diferente do visto no Mirada especialmente no segundo ato, que era mais experimental e que agora contém mais material que faz ligação direta com a Tragédia”, explica Hirsch.

Um dos principais encenadores brasileiros, Hirsch mudou o curso de sua carreira em 2013, quando montou Puzzle, fantástico projeto explosivo cujas cenas inspiradas em textos de autores nacionais refletiam sobre questões como violência, consumo desenfreado e até manifestações de rua. Não foi por coincidência que, naquele ano, a expressão popular se tornou mais evidente quando as pessoas passaram a protestar em locais públicos. Uma ruptura revelou-se inevitável e Hirsch a refletiu dentro do palco.

Desde 2013, quando começou a refletir no palco sobre a realidade latino-american (e a brasileira, em particular), o diretor Felipe Hirsch devorou diversos textos escritos no continente ao longo dos últimos séculos, garimpando verdadeiras joias que, embora centenárias, refletem sobre uma realidade ainda pulsante – como a literatura do carioca Lima Barreto (1881-1922). “Ele escreveu sobre uma obra que seria mal executada no que hoje é a Avenida Niemeyer, no Rio, o mesmo lugar onde parte da ciclovia desabou e provocou a morte de duas pessoas”, comenta o diretor. “Não se trata, claro, de mera previsão, mas sim de um autor sensível à forma errada com que trabalha a administração pública brasileira que continua até hoje.”

Ao escolher os textos que formam A Comédia Latino-Americana, Hirsch baseou-se em dois conceitos: liberdade e servidão. “Apesar do título, a Comédia é mais dura que a Tragédia, pois é mais rica de ideias expostas, não é dogmática e amplamente incômoda. Vamos cutucar muitas pessoas”, diverte-se o diretor que, na Tragédia, criou uma cena em que nomes de políticos antigos e da atualidade eram citados de forma crítica e jocosa. “Percebo que a Comédia é mais provocadora e também mais raivosa, mas sem deixar o amor de lado. E não dá descanso para o espectador.”

A conexão sobre os dois espetáculos está, segundo seu principal criador, no conceito. “É a mesma raiz: ambas apresentam linguagens adquiridas, mas não deixam de lado seus contrastes”, afirma Hirsch, que se preocupa muito com esse aspecto, o da linguagem. Segundo ele, os países da América Latina buscam aprimorar sua forma de expressão a fim de se igualarem às nações de outros continentes. “E, com isso, acontecem muitas mudanças. Desde quando começamos com o projeto, em novembro do ano passado, novidades aconteceram.”

Por isso que o trabalho tem de ser coletivo, no entender do encenador. Felipe Hirsch só monta o espetáculo depois de testar várias cenas diariamente com o elenco, hoje formado por Caco Ciocler, Caio Blat, Camila Márdila, Georgette Faddel, Javier Drolas, Julia Lemmertz, Magali Biff, Manuela Martelli e Rodrigo Bolzan. “Formamos, de fato, um grupo experimental, pois testamos tudo, sem barreiras ou preocupações”, conta o diretor. “Cada um opina sobre o resultado, colocamos uma cena ao lado da outra para analisar o contraste provocado até encontrar a melhor partitura emocional.”

A costura musical é feita por Arthur de Faria, que escreve, arranja e dirige a apresentação das canções, realizada pela Ultralíricos Arkestra. “Somos uma equipe que hoje soma 25 pessoas e, nesse trabalho conjunto, já lemos mais de 40 autores de pelo menos 10 países até selecionarmos os 20 que são usados nos espetáculos. Nesse processo, mantivemos contatos com diversos autores (como o mexicano Juan Villoro e o cubano Padura Fuentes), que indicaram as melhores leituras”, informa Faria.

Assim como a primeira peça da sequência, a Comédia explora as pequenas e grandes tragédias enfrentadas pela população do continente, como a violência, as condições precárias de vida, a construção seguida de destruição da política e dos valores, o binarismo ideológico, o sistema elitista, a não valorização da própria cultura e a falta de consciência histórica.

“Se Puzzle era mais discursivo e marcado por uma ironia mais agressiva, a Comédia é mais narrativa e com um caráter festivo, de celebração, ainda que trate também de tragédias”, argumenta Hirsch, que sabe estar vivendo um processo sem volta. Desde que encerrou as atividades da Sutil Companhia de Teatro, em 2012, grupo com o qual encenou clássicos antigos e contemporâneos, o diretor modificou sua forma de trabalho – deixou a forma tradicional, em que cada cena é decupada isoladamente até formar um corpo orgânico, agora se arrisca nas experimentações, processo criativo que, se prima pela originalidade, pode colocar em risco a estrutura do espetáculo se não for conduzido por mãos firmes.

Essa nova forma de criar o tornou um artista muito mais feliz, pois o medo de errar se tornou irrelevante diante dos inúmeros e surpreendentes caminhos que surgem a cada ensaio. E, para que tal exercício surtisse efeito, Hirsch convocou um grupo de atores dispostos a todo tipo de experimentação, prosseguindo o que foi feito em Puzzle. “Somos um grupo que não tem provas para nossas verdades, mas tem convicções”, diverte-se o diretor, que se divide na edição de seu novo filme, totalmente rodado no Uruguai.

Poesia de Leminski e Nicanor Parra

Entre os textos que compõem A Comédia Latino-Americana, há surpresas como um inédito escrito por Reinaldo Moraes, sobre Hans Staden, o mercenário alemão que esteve no Brasil no século 16. “Em geral, são escritos de forte cunho histórico, mesmo que alegóricos”, conta Felipe Hirsch, que finalmente conseguirá utilizar um de seus livros preferidos: Catatau, de Paulo Leminski. “Outro orgulho é a possibilidade de utilizar os versos de Nicanor Parra, poeta chileno de 102 anos.”

Hirsch acredita que um dos momentos mais emocionantes seja o texto assinado pelo argentino Martin Caparrós sobre a militante anarquista Soledad Rosas. “É simplesmente tocante”, comenta o diretor, que destaca ainda um ensaio sobre Esperando Godot, do também argentino Pablo Katchadjian.

A COMÉDIA LATINO-AMERICANA

Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141. Tel.: 5080-3000. 5ª a sáb., 20h; dom., 17h. R$ 40. Até 13/11

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