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Cultura

Felipe Hirsch

Felipe Hirsch continua crítico em 'A Tragédia Latino-Americana'

Encenador inclui canções ferinas em seu novo projeto crítico

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Ubiratan Brasil,
O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2016 | 05h00

A sensação de urgência ainda domina o teatro do encenador Felipe Hirsch. Desde 2013, quando capitaneou o fantástico projeto Puzzle, cujos quatro espetáculos ofereceram uma das visões mais críticas e lúcidas do Brasil atual, o diretor enveredou-se por uma pesquisa baseada na experimentação e ancorada na literatura, sempre disposta a apresentar questionamentos. Assim, Puzzle revelou-se um pacote explosivo cujas cenas inspiradas em textos de autores nacionais refletiam sobre questões como violência, consumo desenfreado e até manifestações de rua.

Agora, como um passo adiante nessa caminhada que não tem volta, Hirsch apoia-se em textos de escritores latinos e acrescenta canções para criar o monumental A Tragédia Latino-Americana, espetáculo de dois atos e com duração total de quatro horas, que estreia no dia 9 de março, no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, dentro da programação da Mostra Internacional de Teatro.

Trata-se da primeira parte de um ambicioso projeto, que inclui ainda A Comédia Latino-Americana, que deverá estrear em setembro - primeiro em uma participação especial no festival Mirada, em Santos, depois iniciando temporada no Sesc Vila Mariana. “Se Puzzle era mais discursivo e marcado por uma ironia mais agressiva, A Comédia é mais narrativa e com um caráter festivo, de celebração, ainda que trate também de tragédias”, argumenta Hirsch.

De fato, ao acrescentar canções especialmente compostas e arranjadas por Arthur de Faria ao espetáculo, Felipe Hirsch conseguiu unir alegria à crítica ferina. No ensaio assistido pelo Estado, na semana passada, o elenco de 11 atores (que será acompanhado por sete músicos no palco) entoou uma convidativa canção de boas-vindas, inspirada em Três Tristes Tigres, do cubano Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), para, em seguida, enumerar os ilustres convidados presentes. Desde Anchieta até políticos atuais, não escapou nenhum “facínora”.

O público ouvirá críticas diretas a quase todos políticos brasileiros da atualidade, na canção que vem em seguida ao texto do cubano Guillermo Cabrera Infante, em A Tragédia Latino-Americana. A lista inclui os padres Anchieta e Manoel da Nóbrega, passando por bandeirantes, até chegar a políticos, militares e mesmo civis que contribuíram para a pobreza do País, as desmedidas mortes por assassinato, o enriquecimento ilícito. “É uma música atonal, com que o elenco recebe com humildade figuras tão ilustres”, ironiza o diretor.

Em outra cena, que vai encerrar o espetáculo, a incômoda letra da canção Agua Podrida (“Água podre, estagnada e seca”, em tradução livre), do uruguaio Leo Maslíah, incentiva a plateia a não se esquecer da tragédia ambiental e social da cidade mineira de Mariana, afogada em lama. Ou seja, a realidade é apresentada de uma forma aparentemente lúdica, mas carregada de crítica.

Hirsch conta que a ideia de acrescentar canções surgiu quando o projeto já caminhava. “A música confere um caráter ritual à peça, que se transformou em uma espécie de ópera macabra ou musical farrista”, atesta.

Desde que encerrou as atividades da Sutil Companhia de Teatro, em 2012, grupo com o qual encenou clássicos antigos e contemporâneos, Felipe Hirsch modificou sua forma de trabalho. “Se antes decupava cena por cena, fixando marcações no palco, agora só trabalho com experimentações, propondo cenas aos atores, que as absorvem e as devolvem com mais ideias. São cenas que vão se acumulando ao longo dos ensaios até que, próximo da data de estreia, vou decidir quais vão ficar e em qual ordem.”

Essa nova forma de criar o tornou um artista muito mais feliz, pois o medo de errar se tornou irrelevante diante dos inúmeros e surpreendentes caminhos que surgem a cada ensaio. E, para que tal exercício surtisse efeito, Hirsch convocou um grupo de atores dispostos a todo tipo de experimentação, prosseguindo o que foi feito em Puzzle.

Dessa vez, porém, o espectro foi ampliado, pois o encenador, eterno leitor voraz, não se apoia apenas em textos de autores brasileiros, mas também latinos (veja lista no quadro). Assim, a língua portuguesa divide espaço com a espanhola, o que justificou a inclusão no elenco de atores de países próximos. Dessa forma, ao lado dos nacionais Caco Ciocler, Camila Márdila, Danilo Grangheia, Georgette Fadel, Guilherme Weber, Julia Lemmertz, Magali Biff, Nataly Rocha e Pedro Wagner, estão o argentino Javier Drolas e a chilena Manuela Martelli.

A diversidade permitiu exercícios curiosos, como pedir a um brasileiro que explicasse um texto em seu idioma para um estrangeiro e vice versa. “Fomos surpreendidos ao não entender nossa própria língua”, conta Hirsch. Também a concepção do cenário, a cargo de Daniela Thomas e Felipe Tassara, evoluiu após várias tentativas. “Daniela propôs trabalhar com isopor, um material que pode representar pedra, por exemplo. Foi ótimo, pois, se usássemos tijolos, seria mais realista. E, por ser mais teatral e trazer algo lúdico ao espetáculo, o isopor torna-se mais violento.”

Hirsch realiza, enfim, um sonho ao terminar a peça com a leitura de parte do conto A Nova Califórnia, de Lima Barreto (1881-1922), um de seus prediletos. Ao satirizar a corrida do ouro que marcou a Califórnia no século 19, o autor faz uma crítica à ganância humana. “E, apesar de escrito há um século, o conto parece atual, a ponto de um dos vilões ser o presidente da Câmara dos Deputados”, observa Hirsch, que preparou a cena com outra leitura arrasadora de Magali Biff.

A TRAGÉDIA LATINO-AMERICANA

Sesc Consolação. R. Dr. Vila Nova, 245. De 9/3 a 12/3, 19h30. 

Dia 13/3, 18h. R$ 10 / R$ 20

OS AUTORES

Brasil

Dôra Limeira, Glauco 

Mattoso, Lima Barreto, 

Marcelo Quintanilha, Reinaldo 

Moraes, Samuel Rawet

Argentina

J. P. Zooey, J. R. Wilcock, Pablo Katchadjian, Salvador Benesdra

Uruguai

Hector Galmés, Leo Maslíah

Chile

Maria Luísa Bombal, 

Roberto Bolaño, Teresa Wilms Montt/Teresa de la Cruz

Colômbia

Andres Caicedo

Cuba

Cabrera Infante, Virgílio Piñera

México

Gerardo Arana

Honduras

Augusto Monterrosso

Bolívia

Jaime Saenz

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