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Cultura

Esquizofrênico narra episódio de assassinato em ‘As Cerejas’

Roberto Alvim enxerga na obra inglesa de Lawrence Durell a preparação para montar sua versão de ‘Leite Derramado’

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Leandro Nunes,
O Estado de S.Paulo

26 Março 2016 | 04h00

No fim do ano passado, Roberto Alvim, diretor do Club Noir, anunciou que estava adaptando a saga da multidão de Eulálios, presente em Leite Derramado, de Chico Buarque de Hollanda. O projeto segue firme com estreia prevista para a edição deste ano do Festival Mirada. Mas, antes de iniciar os ensaios, ele decidiu inserir em sua trajetória As Cerejas, do britânico Lawrence Durell, texto inédito no Brasil. A montagem, que retrata a observação de mundo pelos olhos de um homem que sofre de esquizofrenia, sempre foi referência para o diretor. Em suas aulas de dramaturgia, Alvim costuma citar a criação de Durrell com entusiasmo. “Ele cria um tipo de narrativa singular, que nos convida a olhar as coisas de uma maneira não normativa”, afirma ele.

Na história, o homem vive num hospital para doentes mentais e sua rotina se transforma quando ele se apaixona por uma mulher desconhecida, o que o coloca dentro de uma espiral psíquica devastadora. Em uma das cenas, o homem assassina a mulher e a esconde embaixo da cama para “que o boneco não atrapalhasse sua ida até o banheiro”. Essa figura feminina se faz presente na interpretação de Steffi Braucks. “Ela é uma fantasmagoria das mulheres que passaram pela vida dele”, conta o diretor. Em outro momento, que intitula o texto, o homem acha que será castigado por ter lambido as cerejas ilustradas no papel de parede do quarto.

Ao contrário de promover a observação voyeurística de um doente mental, Alvim explica que a intenção é exercitar a alteridade. “Ainda que não seja possível olhar através dos olhos de um pássaro, por exemplo, isso transformaria a nossa compreensão a respeito do mundo.” Com uma obra tão singular nas mãos, Alvim lembra que foi longa a jornada para encontrar quem seria o ator ideal. Coube a Alexandre Leal surpreender o diretor já na primeira leitura do texto. “Ele não se colocou na posição de julgar o esquizofrênico, mas escolheu mergulhar em compreender questões mais internas”, conta o diretor, que conheceu Leal em uma oficina de atuação. “Ele estava fora dos palcos há 10 anos, mas parecia não ter parado nunca de fazer teatro”, observa.

A nova parceria foi tão frutífera que já se estendeu para Leite Derramado. Alvim considera que a obra de Durell serve como uma transição para adentrar o universo de Chico. “São muitas semelhanças entre o esquizofrênico e Eulálio. Ambos são solitários e não possuem qualquer apoio ou parceiro.”

O diretor conta que esse tipo de solidão, entretanto, é muito importante. “Se você se recusar a servir de papagaio para reproduzir discursos, estará sozinho. Pensar de maneira própria, sempre acarreta em solidão.” Alvim se refere à polarização política vista nas últimas semanas.

Em uma dessas ocasiões, ele lembra que precisou passar pela Avenida Paulista em um domingo, durante uma manifestação. “Caí no meio do protesto, sem saber de nada. Eram tamanhos o delírio e a energia concentrada que não faltava muito para eu gritar palavras de ordem.” Como antídoto aos extremismos, Alvim enxerga nas artes a fonte que pode impedir uma abordagem rasa do mundo e da política. “Se as pessoas se deixassem sensibilizar por uma obra de arte, o mundo estaria de outra forma. Seremos incapazes de praticar qualquer crime se travarmos contato com a sensibilidade de uma obra”, explica o diretor que também se prepara para encenar em junho Peer Gynt, de Henrik Ibsen.

Amigo pessoal de Chico, Alvim acredita que Leite Derramado concretiza suas intenções como artista. “O brasileiro não compreende as raízes da própria tragédia. As coisas são organicamente construídas, não se trata de um exército de soldadinhos vestidos de verde e amarelo contra os de vermelho.” Ele reflete que a empreitada na montagem será o avesso de As Cerejas. O espetáculo terá 12 atores e uma trilha que já está sendo composta por Vladimir Safatle. “O teatro existe para dignificar a condição humana. A revolução que a arte oferece é a de trazer posicionamento existencial”, acrescenta.

AS CEREJAS. Club Noir. Rua Augusta, 331, telefone 2309-7271. 6ª, sáb., 21h; dom., 20h. R$ 20 / R$ 10. Até 10/4.

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