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Esquizofrenia é incorporada em 'Dissolva-se-me'

- Atualizado: 25 Fevereiro 2016 | 21h 21

Solo de Renato Ferracini, do Lume Teatro, absorve os aspectos da doença mental e para tentar operar em outra lógica teatral

“Olá, eu vim aqui só porque minha esposa mandou”, conta o paciente à terapeuta. “Doutora”, ele continua. “Ela fala que eu ando ouvindo coisas, mas... a senhora ouviu isso?”

Essas e outras conversas provocaram as ideias do ator Renato Ferracini, que estreia Dissolva-se-me, um solo de “teatro-dança-performance”, como define, nesta sexta-feira, 26, no Sesc Pompeia. “Não queríamos uma peça sobre a esquizofrenia. A busca era por incorporar a lógica de funcionamento dessa doença no corpo e na voz do ator”. Lógica esta que o diretor e coreógrafo Luis Ferron explica: “Costumamos enxergar a doença com base na nossa perspectiva sã. No entanto, a esquizofrenia opera, sim, em uma lógica, que não é linguística, mas que é sinestésica, mais ligada às sensações”.

O coreógrafo foi convidado por Ferracini pelos ritmos de festa e tambores africanos trazidos em Baderna – Reverberações Antropofágicas, espetáculo de Ferron. “De alguma forma, a ideia é tratar esquizofrenia como uma fuga positiva, como potência de criação e não como patologia”, ressalta Ferron. A montagem também vem para coroar os 30 anos de atividades do Lume Teatro, grupo interdisciplinar nascido no âmbito na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Muro. Na performance, Renato Ferracini rompe limites
Muro. Na performance, Renato Ferracini rompe limites

Em Dissolva-se-me, a dupla buscou trazer as características da doença manifestadas no dia a dia, tal qual a conversa do paciente com a terapeuta. Em outro exemplo, o ator conta a razão pela qual os pacientes esquizofrênicos usam toucas e roupas mais justas ao corpo. “O contorno que a roupa faz ajuda na percepção do corpo e na diferenciação desses limites, do que é interno e externo.”

Em cena, o público se organizará em bancos espalhados, enquanto Ferracini passeia por eles, criando e derrubando ilusões ao fundir voz e movimentos de dança.

O resultado deu-se como parte de um treinamento usado pela dupla. Com níveis de interpretação chamados por eles de “garça”, “vento” e “caverna”, o coreógrafo explica que o objetivo dos nomes curiosos é que Ferracini pudesse permear diversos estados de corpo e presença. “Se ele estiver de costas para o público, aquela parte do corpo dele precisa se expressar”, conta. “Na garça, por exemplo, é necessário exercitar a presença e ausência do ator, simultaneamente”. Para a criação das danças, Ferron ressalta que o trabalho realizado passou longe de reproduzir movimentos de escolas consagradas. “Ainda que possa haver falta de conhecimento técnico, Renato não é leigo de corpo. Também é preciso ver a dança para além da coreografia”, ressalta.

Essa visão, segundo Ferracini, permite espraiar o fazer artístico para outras atividades do cotidiano. “Mais que uma função, a arte carrega consigo a natureza da invenção, de criar novos modos de vida, seja no trabalho, em casa, na rua”, diz.

DISSOLVA-SE-ME. Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93. Tel: 3871-7700. 6ª., sáb., 21h; Dom., 19h. R$ 7,50 / R$ 25. streia 26/2. Até 3/4.

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