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Espetáculo 'Sempre seu' segue até o final do mês no Rio de Janeiro

Peça tem ocupação cheia de significados da coreógrafa carioca

Helena Katz - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2016 | 16h00

Da rua, já se avista o imenso desenho de Chico Cunha na fachada lateral do prédio da Oi Futuro, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, inteiramente tomado pela primeira ocupação que Márcia Milhazes faz com a sua companhia de dança. Abraçadas, de costas para nós, Ana Amélia Vianna e Aline Arakaki, as duas bailarinas do excelente trio que compõe o elenco com Elton Sacramento, nos convidam a segui-las. Aos poucos, vamos conseguir identificar que aí começa o enovelamento de profunda coerência que distingue a ocupação.

Antes de entrar no prédio, 13 fotos de Ana Carla Miranda nos estancam. Elas compõem um espaço inusitado, um hiato de suspensão feito de silêncio, um tipo de silêncio que vai se tornar o baixo contínuo a atar as diferentes ações que formam esta obra. A respiração fica meio presa quando descobre que os claros e escuros que tecem o que já era uma musicalidade silenciosa no desenho de Chico Cunha rebatem como luz e sombra naquela ágora que as fotos instalam. Fotos? Ou serão instantes que flagram o gesto em estado ainda larvar? Ângulos, planos, superfícies e linhas compondo volumes silenciados de deslocamentos. O olhar encosta neles procurando acordos para adentrar na sua materialidade, que enquadra o pequeno, o pedaço, a parte sem pedir metonímias. As fotos de Ana Clara abrem abismos, sussurram a vertigem que vai compor a dança do trio, no quarto nível do prédio.

Mas antes, no térreo, cada um dos bailarinos mostra, nas telas dos monitores, como o corpo pode ambicionar não se apartar do movimento. Na frente deles, um painel de Beatriz Milhazes espacializa a cor da mobília, em uma espécie de comentário da fisicalidade daquele lugar, tão sobrecarregado de distintas informações arquitetônicas (vidro, metal, plástico, cimento etc).

Subindo, descobre-se que o que estava anunciado nos pequenos monitores do térreo se agiganta nos pedaços do movimento do vídeo de Gustavo Gelmini. O silêncio se rarefaz, e se restabelece na próxima parada, onde acontecem performances, como que ante-salas palacianas para a suntuosidade do que se oferece alguns degraus acima. 

No nível 4, as texturas que pulam das cores de Beatriz Milhazes ecoam a musicalidade que vinha ligando o desenho da entrada às fotos, às performances. Elas fazem as paredes soarem como a música que vai dando um outro volume ao ambiente pela maestria da direção musical de Eduardo Antonello, que também toca cravo e viola de gamba junto com Pedro Hasselmamm (viola de gamba e medieval, e sopros) e Roger Lagr (violino barroco). A musicalidade do trio se tece de enovelamentos semelhantes aos que nos enredaram até aquele momento. E quando o trio de bailarinos passa a desenhar com seus gestos um espaço que a concepção de luz de Glauce Milhazes tridimensionaliza, vamos sendo tragados pela volúpia dos espiralamentos que parecerão infinitos, por arabescos traçados em todas as direções, por incessantes dilatações da intensidade do que era pequeno e detalhe, que passa a explodir em silêncio.

Os gestos de Ana Amélia, Aline e Elton se comentam, se continuam, se confrontam, se acolhem, se espreitam e se afastam em linhas para dentro e para fora deles mesmos. A espantosa competência dos três intérpretes inebria. Volteios, volutas e meneios se organizam em elipses que não cessam de jorrar. Ferocidade e leveza ao mesmo tempo. A distância se estica e se aperta até virar proximidade. O contrário se torna complementar, em um frenesi borbulhante.

Essa aventura barroca, pilotada pelo talento rebuscado e elegante de Márcia Milhazes, que partiu do seu permanente interesse pela intimidade das cartas, chama-se Sempre seu, com o detalhe da vírgula reproduzindo a finalização de uma correspondência. A percepção é a convidada principal, permanentemente desafiada neste banquete de sagacidades, que pode ser saboreado até o final do mês. 

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