Rafael Arbex / ESTADAO
Rafael Arbex / ESTADAO

Espetáculo 'Preto' trata do poder da imagem social

Grupo dirigido por Marcio Abreu questiona a recusa das diferenças na sociedade brasileira

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2017 | 06h00

O encenador Marcio Abreu é conhecido por guiar a companhia brasileira de teatro (grafado assim mesmo, com letras minúsculas) em saltos no escuro. O resultado habitualmente tem sido espetáculos instigantes, provocadores, que praticamente obrigam o espectador a abandonar uma posição de passividade. Foi assim tanto em criações a partir da obra de autores inéditos no País como Krum (2015), de Hanock Levin, como em Preto, que estreou na quinta, dia 9, no Sesc Campo Limpo.

O trabalho é uma extensão das inquietações que levaram o grupo a montar projeto brasil (também escrito com minúsculas), no ano passado. Aquela peça nasceu de uma excursão feita pela companhia, entre 2013 e 2014, em cinco capitais. Dessas viagens, com as trocas de informações com pessoas diversas e com as reflexões artísticas que o percurso gerou, foi montado um mosaico criativo. Agora, Preto é fruto de uma ocupação/residência de 30 dias de criação, realizada na unidade do Sesc.

Nesse período, o diretor e seu elenco (Renata Sorrah, Grace Passô, Rodrigo Bolzan, Nadja Naira, Cássia Damasceno e Felipe Soares) buscaram as infinitas possibilidades de diálogo por meio de um corpo, uma palavra ou um som. “Nossa intenção é promover um encontro sem barreiras entre o público e os atores”, comenta Abreu, cujo texto (escrito por ele, Grace e Nadja) se constrói a partir da fala pública de uma mulher negra: ao microfone e com a imagem projetada em um telão, Grace pede ajuda dos espectadores e logo anuncia as intenções do espetáculo. “Vamos mostrar como a sociedade age sobre nós, num mal sentido. E como nós reagimos”, ela fala. “A noção do preto é interessante. A pretura como modo civilizatório.”

É o ponto de partida para uma série de cenas que, pela repetição ou mesmo pela variação de gestos, apresenta ressignificações dos corpos em uma sequência de tentativas de diálogos. “Não sou livre. Tô tentando ser”, afirma Renata Sorrah, em um determinado momento.

Como as cenas foram escritas a partir de lembranças do próprio elenco, ela revive um momento especial de sua carreira: quando encenou As Amargas Lágrimas de Petra von Kant, poderoso drama de Rainer Werner Fassbinder e que foi montado em 1983, com Fernanda Montenegro e Juliana Carneiro da Cunha. “Estávamos na Alemanha onde, ao comentarmos sobre a peça, a Grace falou: ‘Eu sou a Fernanda Montenegro’. E eu embarquei nessa e começamos a reviver a história”, relembra Renata. O momento – mágico – permite que o grupo faça dos questionamentos que acompanham a peça: “Do que você não esquece nunca do que você é?”.

Para efetivar a proposta de estudar o racismo e daí investigar a negação transposta pela sociedade atual, o elenco contou com a participação da professora Leda Maria Martins, estudiosa do assunto. “Márcio foi feliz ao colocar a perplexidade em cena”, comenta ela. Negro não é sinônimo de raça, que é uma construção do Ocidente. “Daí a importância de não se apoiar esse conceito.”

PRETO. Sesc Campo Limpo. R. Nossa Sra. do Bom Conselho, 120. Santo Amaro. Tel.: 5510-2700. 5ª a sáb., 20h. Dom., 18h. R$ 30. Até 17/12

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