Amanda Perobelli / Estadão
Amanda Perobelli / Estadão

Espetáculo ‘Peso Bruto’ discute a estética da própria dança

Jussara Belchior, bailarina de 100 quilos, estreia hoje, às 20h, seu primeiro solo no Itaú Cultural

Fernanda Perniciotti , ESPECIAL PARA O ESTADO

20 Outubro 2017 | 06h00

Ela pesa 100 quilos, é baixinha (mede 1,55), dança no Cena 11, uma das mais importantes companhias de dança do Brasil, há 10 anos. Jussara Belchior estreia hoje, às 20h, seu primeiro solo, Peso Bruto, no Itaú Cultural. O trabalho, que já foi apresentado em Florianópolis, Teresina e Curitiba, está na programação do evento Narrativas do Invisível – Mostra Rumos 2015-2016, que apresenta parte da produção contemplada na edição 2015/2016 do programa Rumos Itaú Cultural.

Depois de anos de trabalho com a companhia, Jussara se desafiou a criar um solo para discutir a sua própria condição de bailarina gorda. Para ela, dançar está sempre associado a habitar um lugar onde os gordos não são permitidos: a cena. A questão do corpo gordo na dança é parte constitutiva da sua trajetória: “Eu sempre fui gorda, isso fez parte da minha prática, porque, claro, fez parte da minha vida”. Peso Bruto surge da urgência em dar ênfase a essa preocupação, que é política, mas, sobretudo, artística. 

Entre as referências que cita estão Soraya Portela, de Teresina, uma bailarina também gorda, que fez uma importante interlocução no projeto, a coreógrafa, professora e intérprete Helena Bastos, o coletivo Gordura Trans, criado por Miro Spinelli, e a artista plástica Fernanda Magalhães – artistas que trabalham a questão da gordofobia em diferentes instâncias. Mas continua chamando a atenção a dificuldade de se encontrar, na dança e nas outras artes, artistas que fazem do peso a sua questão ou, até mesmo, apenas artistas gordos. 

“Vontade de desistir ou de fazer outra coisa, por causa do meu corpo, eu não tive”, conta Jussara, que enfatiza que outra profissão nunca foi uma opção. Começou a dançar aos seis anos, e nunca mais parou. Aos 22 anos, se tornou profissional. Por ter começado no balé e no jazz, e participar de festivais competitivos em São Paulo, a necessidade de emagrecer para continuar a dançar foi uma constante durante a sua vida. “Na verdade, eu dancei como uma pessoa magra quase a minha vida inteira, principalmente pelo tipo de técnica que eu praticava. Tinham exercícios e ideários imagéticos pensados para outros tipos de corpos, sobretudo pelo modo como o peso ficava aparente na movimentação. De certa forma, eu quase não conseguia pensar de outra maneira. Eu estava, ali, fazendo como os magros sendo gorda”.

O primeiro marco em sua vida, que pontua o início da mudança de aceitação do corpo, foi o curso de graduação em Comunicação das Artes do Corpo, na PUCSP, momento em que começou a compreender que poderia dançar a partir das possibilidades do seu corpo, sem a exigência de primeiro modificá-lo para atender o padrão estético vigente. E o segundo marco é a sua entrada na vida profissional para valer, quando foi escolhida em uma audição para o Cena 11, impactando os adeptos desse padrão.

A discussão sobre a gordofobia cresce na moda, na música, na cultura pop e na condição possível para um corpo poder dançar. Como sabemos, o corpo é central na dança, e como a dança não está apartada de seu contexto, a modificação dos padrões sociais de corpo também modifica os critérios que autorizam ou desautorizam quais corpos “cabem” na dança. Tatiana Lima e Thais Carla, as bailarinas plus size da cantora Anitta, são apenas um dos muitos exemplos desses deslocamentos. Ou Gal Martins que, além de ser gorda, é negra e periférica, o que, nas suas palavras, dificultou a sua entrada na dança. “Foi um processo delicado e difícil, de transgressão, de abrir fissura, de entrar em uma hegemonia”, diz Gal, que, apesar dos 20 anos de atuação, não reconhece que o espaço já esteja aberto. Até por conta disso, criou a Zona Agbara, que significa em Yorubá força e potência, um grupo constituído apenas por mulheres negras e gordas. 

Quem acompanha o trabalho do Cena 11 sabe que o peso é central em suas composições. “Eu, por exemplo, tenho treinamento de arremessar meu corpo, de soltar o peso do meu corpo, eu consigo ir para o chão e fazer um barulho, mas também consigo ir para o chão e ser silenciosa”, enfatiza Jussara. A noção de controle é outro fator importante em Peso Bruto. 

O imaginário comum de corpo gordo está associado ao descontrole, à destruição. Heróis e vilões gordos de quadrinhos e desenhos animados costumam ser desajeitados, não controlam seus corpos, como é o caso do Hulk, que produz destruição pelo descontrole dos limites de seu peso e contorno. “Fui tentando pensar nessa ideia de controle também porque o ser gordo é, muitas vezes, julgado como descontrole: você é gordo porque não controla o que come! Não controla os impulsos, as vontades. Não tem controle da vida, fica o dia todo largado no sofá. E aí, eu fui pensando como seria uma ideia de quebrar as noções que associam o gordo ao descontrole”.

Apresentando Peso Bruto desde abril, Jussara conta que as reações de alguns públicos têm sido motor de continuidade do trabalho. “Eu tenho respostas tanto de gordos quanto de magros. As pessoas vêm conversar comigo para falar do jeito como a gente percebe o corpo do gordo, o jeito como a gente dá espaço para esse corpo habitar. Mais de uma pessoa gorda veio falar comigo sobre a representatividade. Claro, às vezes esse assunto, representatividade, parece que já está batido, mas, ao mesmo tempo, é um lugar de fala. Eu não estou representando todo mundo, mas eu estou abrindo espaço também para o lugar de fala deste tipo de corpo”.

Helena Bastos, que foi professora de Jussara Belchior na graduação, conta que acompanhou parte do seu percurso e vê como importantíssima a centralidade da questão. Em Nufricar (2017), trabalho em parceria com Raul Rachou, Bastos também problematiza padrões de corpo: “uma mulher madura e gorda que se apresenta ao público”, e ressalta: “Os discursos de “empoderamento” estão aí, mas a questão da intolerância está muito forte. Acho que o trabalho da Ju é muito importante, porque tem que pensar que há mais corpos nesse mundo da dança que também dançam”.

O impacto de Peso Bruto foi tão significativo que Jussara, tomada por todas essas questões, anuncia que vai deixar o Cena 11 para se dedicar à continuidade deste projeto. Peso Bruto parece marcar uma transição importante para Jussara Belchior, que o apresenta neste e no próximo final de semana, no Itaú Cultural.

PESO BRUTO

Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, telefone: 2168-1776. 

6ª e sáb., às 20h; dom., às 19h. 

Grátis. Até 29/10. 

 

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