VÉRONIQUE VERCHEVAL/DIVULGAÇÃO
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Espetáculo de circo 'B-Orders' faz reflexão sobre ser palestino

Montagem que integra o festival 'Circos' foi criada a partir da imagem que o mundo cria sobre esta população do Oriente Médio

Entrevista com

Ashtar Muallem

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

27 Maio 2015 | 06h00

Entre os destaques da programação do Circos – Festival Internacional Sesc de Circo, está o espetáculo B-Orders. Criada pelo casal palestino Ashtar Muallem e Fadi Zmorrod, a montagem aborda a quebra de estereótipos, discutindo como o mundo vê os palestinos e entrando em outras questões, como o papel da mulher na arte palestina. A artista circense Ashtar conversou com o Estado por e-mail. 

Você criou B-Orders depois de perceber que as pessoas esperam certo comportamento do povo palestino. Como você percebeu isso e que tipo de comportamento é esse?

Durante os meus estudos na França, eu tive tempo suficiente para me adaptar a uma nova sociedade e a um novo estilo de vida. As restrições físicas e morais que estavam ao meu redor caíram, e eu podia, então, viajar livremente de uma cidade a outra com uma liberdade maior, especialmente por ser integrante de uma escola de circo. À medida em que comecei a falar francês com uma fluência maior, comecei a conversar com as pessoas e passei a entendê-las. Eu pude sentir a solidariedade que elas tinham à causa palestina. A principal imagem que os estrangeiros têm dos palestinos é a de sermos vítimas da ocupação de Israel, de sermos de Gaza ou de sermos muçulmanos e conservadores. Em B-Orders, quisemos revelar todas essas imagens e ideias fixas sobre nós. Sim, somos vítimas da ocupação, nosso movimento é restrito, assim como nossa expressão corporal. Mas nós lutamos contra estas normas. Cada um de nós é uma pessoa diferente, lutamos por nossa liberdade individual em nossa sociedade e contra a ocupação de Israel como uma nação. 

Você é palestina, nascida e criada em Jerusalém. Como é a sua relação com a cidade e como você traduz isso em arte?

Jerusalém é parte da Palestina. É a capital na qual só alguns palestinos podem entrar. Pessoalmente, eu me sinto conectada com a cidade e com a história do lugar, já que minha família vive lá há gerações. Mas Jerusalém, com toda a sua beleza, se torna uma cidade triste para os palestinos, ainda mais depois da Segunda Intifada (revolta dos palestinos contra a ocupação israelense na região da Palestina, em 2000). Muitos palestinos foram forçados a deixar a cidade ou por serem excluídos de seus bairros com a construção de um muro que os separava, ou por trabalharem na Cisjordânia e não poderem passar todos os dias nos checkpoints (áreas de passagem controladas pelo exército). Os checkpoints se tornaram parte da luta diária de centenas de palestinos – eu e meu marido somos deste grupo. Em um checkpoint, você é humilhado, despido e pode esperar por horas, mesmo se não tiver fila. Tudo depende do humor do soldado. Em B-Orders, quisemos falar sobre essa restrição de movimento. Há uma cena que, internamente, chamamos de Checkpoint, mas deixamos o trabalho livre para a interpretação pessoal do nosso público. 

No contexto da cultura palestina, como é ser uma mulher e atuar no circo?

Ser mulher não é fácil na sociedade palestina. Elas têm mais limites do que os homens. Se uma mulher é louvada ou respeitada, é porque ela tem alguma relação com a luta política: pode ser uma presa política, mãe de uma prisioneira ou uma mártir. E, se ela é humilhada, é porque ela gosta de ter um certo nível de liberdade em seu modo de vestir ou em sua vida social. Quando uma mulher é vista livre, fazendo circo, alguns podem se inspirar e respeitá-la por saber os desafios que ela enfrenta. Outros podem se assustar com sua liberdade e, por isso, criticá-la.

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