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BETO BARATA|ESTADÃO - 8|9|2013

ENTREVISTA: Will Eno

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Pônei

Will Eno explica como lidou com a morte na criação de 'Os Realistas'

Escritor busca contar uma história trivial, mas de forma incomum ao que se está acostumado a assistir no teatro

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Ubiratan Brasil

27 Março 2016 | 06h00

Como descreve Os Realistas?

Queria escrever uma peça que estivesse mais próxima do realismo e do naturalismo. Mas logo me ocorreu que existe uma ampla gama de reações à doença e à mortalidade que poderíamos chamar “realistas” ou “naturais”, de maneira que a peça tomou um rumo próprio. Nenhum dos personagens voa ou consegue viver debaixo d’água ou enxerga no escuro, portanto, de certo modo, é isto, na minha opinião, que a torna uma peça realista. Os personagens, em geral, reagem à vida e aos acontecimentos do dia de acordo com sua ansiedade, medo, e necessidade de amor e de compreensão (até quando eles mesmos não chegam a compreender totalmente), e esta também parece ser uma representação realista da vida humana. Deveria talvez descrever a peça como “realismo ansioso”? Ou “formalismo humano”? Minha intenção é representar algo que não é visto comumente no palco, por isso não me preocupo em saber se há um bom termo para descrevê-la.

Como você lida, em termos literários, com a morte?

Anteriormente, eu ficava muito mais ansioso a respeito da morte. A mortalidade e a doença são, na realidade, grandes temas na peça, mas outro tema central é a intimidade e a necessidade que sentimos dela, o nosso medo dela. Tudo fica pior quando você sofre fechado em si mesmo, mas, às vezes, instintivamente, nós nos escondemos dos outros. A morte é algo que todos temos em comum, mas não algo de que nos sintamos à vontade para falar ou para compartilhar com os outros.

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José não tem muita noção. Parece ser uma pessoa que procura fazer frente a alguma coisa, mas também está fugindo. E Pônei é um caos emocional. Por que você criou estes personagens dessa maneira?

Talvez José, na infância, nunca tenha tido alguém para espelhar-se nele, talvez ninguém lhe tenha dado ouvidos de fato, por isso agora não tem uma maneira bem assentada de se comunicar com as pessoas. Felizmente, encontrou Pônei, que precisa de alguém que, na realidade, não precise dela. Eles não são apresentados como pessoas que planejaram uma maneira ideal de viver a vida, são apresentados simplesmente como pessoas que bolaram uma maneira de chegar até o fim do dia. Espero que os quatro personagens representem quatro abordagens diferentes da impossível tarefa de viver.

Grande parte da peça trata da incapacidade de estabelecer contato. Parece que estes personagens expressam pensamentos conflitantes em suas conversas entre si. Como chegou a isso?

Às vezes, tenho dificuldade para entrar em contato com as pessoas, portanto provavelmente seria natural que eu escrevesse uma peça sobre pessoas assim. Contudo, cheguei aos 50, tenho uma família, ótimos amigos e um trabalho que adoro, logo, como os quatro personagens, posso pelo menos dizer que sobrevivi e em alguns casos realmente prosperei na vida. Não acho que se trate realmente de uma “incapacidade de estabelecer contato” na peça, acho que é melhor descrevê-la como “uma capacidade de só estabelecer contato num determinado nível e no que diz respeito a determinadas coisas”. Acho que os personagens estão se saindo bem numa tarefa quase impossível, contrariamente a não se saírem bem numa tarefa fácil.

Suas histórias têm frequentemente uma sensibilidade cômica e um sentido obscuro subjacente. É desse modo que você vê o mundo?

Vejo o mundo de duas maneiras: muito engraçado e muito trágico. Uma sem a outra o tornaria impossível de se viver, por isso, sinto-me abençoado porque, em geral, elas me ocorrem, às vezes, até ao mesmo tempo.

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