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Cultura

Terrence McNally

Em 'Ou Tudo Ou Nada - O Musical', desempregados são obrigados a se despir física e sentimentalmente

Homens são obrigados a revelar seus maiores temores

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Ubiratan Brasil,
O Estado de S.Paulo

10 Março 2016 | 20h56

Seis desempregados da indústria do ferro, cansados de ganhar migalhas oferecidas por seu sindicato, decidem ganhar dinheiro de uma forma inusitada: subir ao palco e fazer strip-tease. Foi com esse ponto de partida que o filme inglês Ou Tudo ou Nada se tornou um grande sucesso de bilheteria, em 1997. E foi com essa mesma premissa que Terrence McNally e David Yazbek transformaram a comédia em musical, que estreia hoje, no Theatro Net, depois de uma temporada de sucesso no Rio de Janeiro.

“O mais incrível é que a história continua atual”, observa o diretor Tadeu Aguiar. “Crise econômica, desemprego, uma discussão sobre o papel do homem e da mulher na sociedade, parece que nada mudou nos últimos 20 anos”, completa o jornalista Artur Xexéo, autor da versão para o português que estreou nos palcos americanos em 2000.

Em época de crise, Aguiar e o produtor Eduardo Bakr só conseguiram reunir um grupo formado por 17 atores, sete músicos e diversos técnicos na condição de trabalhar no sistema de cooperativa: os ganhos vêm da bilheteria e do pequeno investimento conquistado, quantia muito distante dos R$ 3,5 milhões previstos.

Assim, Mouhamed Harfouch interpreta Jerry, o desempregado que tem a ideia ao notar que as mulheres do bairro se divertem em clube de strip-tease no fim de semana. Aos poucos, ele convence outros necessitados como Dave (Saulo Rodrigues), Malcolm (André Dias), Ethan (Victor Maia), Harold (Carlos Arruza) e Jegue (Sérgio Menezes). “Apesar de aparentemente mostrar um grupo de rapazes desesperados, a peça revela, na verdade, pessoas que tomam uma atitude e não ficam apenas se lamentando dos problemas”, comenta Tadeu Aguiar, cuja carreira como encenador vem sendo pautada por temas sociais. Foi assim em Baby, que tratava do aborto, em Quase Normal, que focava a bipolaridade, e, em Quatro Faces do Amor, que discutia o amor em suas diferentes formas.

“Gosto da função de entretenimento do musical, mas acredito que também pode ser um caminho para incentivar uma conversa depois do espetáculo”, conta ele, que, em junho, estreia o musical Love Story apenas com atores negros. “A intenção é mostrar que não existem papéis destinados apenas a atores com determinado aspecto físico. E as reações têm sido positivas: uma das atrizes escolhidas emocionou-se ao me dizer que, pela primeira vez, não vai interpretar uma serviçal.”

Aguiar confessa um certo temor que, ao anunciar sua intenção, poderia perder patrocinadores. “Tínhamos um acordo com a Caixa Seguradora, que felizmente entendeu a proposta e manteve sua parceria. Só não sei se agora encontrarei algum outro patrocinador.”

Aparentemente simples em sua estratégia dramatúrgica, Ou Tudo Ou Nada revela ainda uma série de camadas, segundo o encenador. “A nudez é o tema principal, mas, olhando com mais atenção, percebemos que, até chegar a cena final, quando todos se despem fisicamente, o espectador acompanha as confissões de cada um dos desempregados, que se despem primeiro de seus medos.”

Outro assunto tratado de forma lúdica é a fragilidade do homem e sua masculinidade – a decisão de participar de um strip-tease implica em derrubar antes uma série de tabus. “O espetáculo é otimista e mostra rapazes que, apesar do desespero, mantêm a esperança e buscam uma saída”, diz Aguiar.

ENTREVISTA

Mouhamed Harfouch - ATOR

'Achei que não conseguiria tirar a roupa'

O que foi mais difícil: aprender a cantar ou a tirar a roupa?

No começo, era tirar a roupa. Achei sinceramente que não conseguiria. Mas, ao entrar na rotina espartana de um ator de musical, que precisa se cuidar fisicamente e, por isso, abre mão de diversos prazeres, percebi que tirar a sunga representa um alívio, pois isso acontece na última cena do espetáculo e aí o esforço necessário já foi empregado.

Quais semelhanças você encontra no seu personagem, Jerry?

Eu também sou pai e fico tocado com o esforço do Jerry em cuidar bem de seu filho. Acho que eu também faria qualquer coisa pela minha filha.

OU TUDO OU NADA

Theatro Net. Rua Olimpíadas, 360. Shop. Vila Olímpia. 5º andar. 6ª e sáb., 21h; dom., 17h. R$ 50 / R$ 150. Até 1/5. Estreia sexta, 11

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