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Cultura

Dimitris Papaioannou carrega o destino de Sísifo na peça 'Still Life'

Destaque da 3ª Mostra Internacional de Teatro, espetáculo do diretor grego medita no mito, no corpo e na atual crise em seu país

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Leandro Nunes,
O Estado de S. Paulo

04 Março 2016 | 05h00

O dia chuvoso que amanheceu estava um pouco mais cinza. “Você sabe fazer massagem?”, perguntou, divertido, o diretor e coreógrafo Dimitris Papaioannou. O tempo frio e imprevisível de São Paulo nos últimos dias atingiu em cheio a lombar do grego. Na intenção de desafiar a dor, ele movimentou um dos braços para trás e indicou a região que incomodava. 

Desafio e movimento. Esse par de palavras pode resumir a importância de sua vinda à cidade. Papaioannou abre, nesta sexta-feira, 4, o primeiro dia da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) com o espetáculo Still Life (Natureza Morta). Ao lado dele, outras três montagens – Ça Ira, Cinderella e Revolting Music – estreiam em diversos espaços. No total, são dez espetáculos, sendo duas montagens nacionais, em cartaz até o dia 13 de março. Disputada, como nas edições anteriores, a mostra teve seus ingressos esgotados no segundo dia de vendas.

Still Life – que surge do mito grego de Sísifo – faz quatro apresentações e nasce de uma reflexão sobre a narrativa do homem que enganava os deuses e a morte até ser, enfim, capturado. Seu castigo incluía a saga de carregar uma rocha nas costas até o topo de uma montanha. Lá no alto e com o auxílio da gravidade, a rocha rolava ladeira abaixo até o ponto de partida. Ele descia, recolhia a rocha e recomeçava, infinitamente. 

Como apoio para contextualizar esse olhar em seu espetáculo, o diretor se debruçou sobre o ensaio filosófico homônimo de Albert Camus. “É uma tentativa de equilibrar o humano entre o peso e a leveza, entre o material e o espiritual. Trata-se de buscar um entendimento sobre o corpo, como eu o elevo e como faço para subir essa ladeira.” Em cena, Papaioannou coloca seus bailarinos em um palco devastado para criar imagens em interação com materiais rústicos como rochas. No alto, em contraste, surge um céu monumental. 

Esse é o trabalho mais recente do grego que, durante a juventude, pintou ícones bizantinos – figuras divinas representadas sobre painéis de madeira e em duas dimensões –, orientado pelo pintor e mestre Yannis Tsarouchis. Hoje, aos 51 anos, foi eleito o coreógrafo do ano pela revista italiana Danza & Danza.

A reputação rendeu convites para dirigir as cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, e os Jogos Europeus no Azerbaijão. Para ele, nada disso o define. Entretanto, esse tipo de criação serve para que ele reflita sobre qual pode ser sua vocação como artista. “Não sou eu e isso não é arte”, diferencia. “São eventos nacionalistas que fazem com que as pessoas se unam por uma causa em comum. Isso é importante. É como um xamã que catalisa energias para concretizar anseios e desejos,” contou ao Estado.

Se o genuíno trabalho do fundador da extinta Edaufos Dance Theatre passa distante da grandiosidade de eventos que incluem fogos de artifício e gigantescas montanhas cenográficas, Papaioannou explica que, na equação de suas criações artísticas, o que sobra é bem pouco. “Um espetáculo surge quando descarto 80% dele”, afirma. Em Still Life, esse quociente é elevado às alturas. “Aquilo é plástico!”, explica sobre o firmamento que ondula acima do palco. 

Em uma instalação criada em 2011, o público era convidado a entrar e sair livremente de um ambiente organizado como uma casa, com cama, chuveiro e mesa. Em Inside, os performers executavam ações do dia a dia, como dormir, comer e tomar banho. De maneira sutil, Papaioannou queria provocar uma observação do tempo. “Quis criar um estado de meditação no espectador. Ele escolhia quanto tempo queria gastar no ambiente. Na maioria das vezes, isso incomoda, porque o público quer ser guiado.”

Diferentemente de Inside, Still Life se configura como uma jornada em direção à existência e à liberdade da principal matéria-prima de Papaioannou. “O corpo é tanto um dispositivo quanto um campo de batalha.” Ele explica que essa “libertação” é um paradoxo, um jogo de ideias contrárias. “Você pode alcançar a liberdade do corpo por meio de um treinamento. Isso significa uma série restrita de regras. Se você quer praticar ioga, tem que aceitar as regras. Não é possível exercitar a liberdade sem regras”, diz.

A reflexão de Still Life também faz um sobrevoo no mapa de sua terra natal. Mergulhada em dívidas, a Grécia passa por uma grande crise econômica e, nos últimos anos, tem recebido imigrantes sírios que estão estacionados no país. “Cada vez que passo por Atenas, mais pessoas estão jogadas pelas ruas. Estão desesperadas, famintas e necessitando de atendimento médico.”

Apesar de a Grécia não fechar as fronteiras, como a Espanha, Papaioannou diz que a situação traz insegurança interna e inúmeros relatos de violência. “O país não tem recursos para ajudar. Nós doamos comida, mas não é o bastante. As pessoas estão furiosas e está ficando perigoso.”

Visto que a função de xamã pode decerto falhar ao reconectar os homens à existência, Papaioannou percebe, então, surgir sua vocação mais profunda enquanto criador e artista. “Sou um caçador”, diz. Sua trilha abandona toda essa aridez e adentra uma floresta escura. “Sou guiado pela intuição e pelo intelecto e sigo pistas de coisas que me parecem interessantes”, conta. “Quando encontro uma pista boa, é como se apaixonar. E eu sei qual tipo de beijo eu gosto.” 

Programação:

Ça Ira (França)

A ficção política contemporânea de Joël Pommerat relê a revolução ocorrida no país em 1789. 

 

Cinderella (França)

Dirigido pelo francês, o conto dos Irmãos Grimm traz a dor da menina que perde a mãe. 

 

Still Life (Grécia)

Inspirado em Sísifo, Dimitris Papaioannou conduz uma dança em conexão ao cosmos. 

 

Revolting Music (África do Sul)

O show performático de Neo Muyanga retrata a voz dos protestos estudantis em Soweto.  

 

100% São Paulo (Alemanha)

O Grupo Rimini Protokoll coloca 100 brasileiros no palco para revelar aspectos de São Paulo. 

Cidade Vodu (Brasil)

Teatro de Narradores faz uma incursão pela trajetória de haitianos até o Brasil. 

 

A Tragédia Latino-Americana (Brasil)

Felipe Hirsch e os Ultralíricos dedicam o olhar aos autores e às obras deste continente. 

 

l (A)Polônia (Polônia)

História de personagens míticos de Eurípedes e Ésquilo é refletida no horror do Holocausto. 

 

l A Carga (Congo)

Canções e memórias da repressão do país são dançadas na coreografia de Faustin Linyekula. 

 

An Old Monk (Bélgica)

Josse de Pauw homenageia o grande pianista e compositor de jazz Thelonious Monk.

STILL LIFE (NATUREZA MORTA) Sesc Vila Mariana. R. Pelotas, 131. Tel.: 5080-3000. Sex., sáb., 21h; dom,. 18h; 

ter., 21h. R$ 10 /R$ 20. 

http://mitsp.org/

 

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