ALEX SILVA/ESTADÃO
ALEX SILVA/ESTADÃO

'Dias de Vinho e Rosas' é a 2ª peça de Fábio Assunção como diretor

Montagem estreia nesta sexta, no Viga Espaço Cênico

Murilo Bomfim , O Estado de S. Paulo

17 Março 2015 | 03h00

Prestes a completar 25 anos de carreira como ator, Fábio Assunção vive um período de mudanças profissionais. Na semana passada, iniciou as gravações da quinta e última (e reduzida) temporada da série Tapas & Beijos, de Cláudio Paiva. Com o fim do projeto, passa a se dedicar ao papel de protagonista do próximo folhetim das 19h, que tem Poderosa como nome provisório. “Me sinto super à vontade no Tapas, mas transito melhor no drama do que no humor”, diz. Enquanto finaliza a comédia, dá vazão à sua veia dramática dirigindo Dias de Vinho e Rosas, que estreia sexta, no Viga Espaço Cênico, em São Paulo.

Fábio levou um tempo para se aventurar como diretor teatral. Foi em 2012 que ele estreou no comando do espetáculo O Expresso do Pôr do Sol, que ocupou o teatro Tucarena, em São Paulo. Apesar de ser apenas o primeiro mergulho na empreitada, o trabalho como encenador foi bem-visto e, pelo menos, chamou a atenção da atriz Carolina Mânica, que o convidou para dirigir a nova peça.

“Quando li o texto, logo pensei que o espetáculo tinha a ver com a linha que Fábio vinha trabalhando em sua primeira direção”, comenta a atriz, afirmando que as duas peças têm pontos em comum: são dois atores que nunca saem do palco, as histórias se passam em um lugar confinado e tratam de temas profundos e universais.

Dias de Vinho e Rosas é uma peça fragmentada, com texto original de James Pinckney Miller para televisão e adaptação de Owen MacCafferty para teatro. A obra virou filme em 1962, sob o nome de Vício Maldito, com direção de Blake Edwards. Em nove cenas, a peça mostra a história do casal Donal (interpretado por Daniel Alvim) e Mona (papel de Carolina), dois irlandeses que se conhecem no aeroporto de Belfast, quando estão a caminho de Londres. Na ocasião, se apaixonam e, tempos depois, começam a namorar e levam uma vida a dois. Apesar das esperanças de um relacionamento feliz e estável, o casal começa a degringolar, tendo o alcoolismo como um catalisador.

“Gosto de mostrar essa relação psicológica de duas personagens, o desgaste de um relacionamento”, diz Fábio, lembrando que a temática se repete em outras peças nas quais trabalhou, como Bate Outra Vez (1993, direção de Eduardo Wotzik), Oeste (1996, com direção de Marco Ricca) e Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (2000, dirigida por João Falcão). “Tudo que tenho feito no teatro são peças pequenas, no sentido de serem mais intimistas.”

Foi exatamente esta característica que definiu a escolha do Viga Espaço Cênico para abrigar a peça. Desde O Expresso do Pôr do Sol, o local tem influência significativa na direção de Fábio. No caso, o Tucarena conferiu à peça um tom menos realista e mais onírico. Agora, ocorre o contrário. “A ideia é fazer um retrato realista do cotidiano”, afirma Clara Carvalho, que, após traduzir o texto de Dias de Vinho e Rosas, foi convidada a ser assistente de direção.

Dessa forma, o jogo teatral foi exposto. O palco cresceu e tomou o espaço dos camarins e das coxias, fazendo com que tudo fique aberto ao público. Os atores circulam o tempo todo por uma casa ampla, com sala, cozinha e um quarto mais discreto, ao fundo.

A dupla de atores também assume a contrarregragem, que, na peça, ganha função dramatúrgica. Como cada uma das cenas começa em um ponto diferente da vida do casal, é no intervalo entre elas que o relacionamento evolui. Assim, enquanto a luz está baixa, os atores arrumam os objetos com a intensidade dos personagens: em um momento, por exemplo, ambos fazem movimentos bruscos para manejar taças e garrafas.

Além do alcoolismo, outro vício permeia o espetáculo. Donal é bookmaker e está sempre às voltas com apostas em corridas de cavalo. “Começo a entender esse personagem com um outro que fiz”, conta Alvim, em referência a uma novela que exigiu do ator uma pesquisa profunda no universo do hipismo. Na peça, Donal fala de sua relação com o cavalo irlandês Arkle, que existiu e era campeão das corridas inglesas nos anos 1960.

ENTREVISTA | Fábio Assunção, ator e diretor

Após quase oito anos, astro volta a novela

Desde 2007 sem integrar o elenco fixo de um folhetim, ele se prepara para protagonizar uma produção das 19 horas

A última vez que se acompanhou a trajetória completa de um personagem interpretado por Fábio Assunção foi na novela Paraíso Tropical, que esteve no ar em 2007. Na ocasião, Fábio dava vida ao mocinho Daniel Bastos. Depois disso, o ator começou a participar da novela Negócio da China, em 2008, mas teve de abandonar o posto para tratar de sua dependência química, tema sobre o qual falou abertamente à imprensa no ano seguinte.

De lá para cá, atuou na minissérie Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor em 2010, fez participação especial na novela Ti Ti Ti... em 2011, e, desde o mesmo ano, integra o elenco da série Tapas & Beijos, que se aproxima do fim. No segundo semestre, Fábio volta a gravar novela como protagonista de Poderosa, futura trama das 19 h assinada por Rosane Svartman e Paulo Halm.

Paraíso Tropical foi a última novela na qual você integrou o elenco fixo. Você já se sente pronto para encarar o trabalho em um novo folhetim?

Fechei uma novela das 19 h, com direção do Luiz Henrique Rios. Vai ser o meu retorno às novelas depois de cinco anos fazendo o Tapas. Gosto do formato, tem uma outra dinâmica. Você trabalha com uma obra aberta, que vai sendo escrita. Dá pra brincar de fingir que é uma vida paralela que você leva. E a equipe é grande, você acaba ficando amigo de todo mundo. Acho que vai ser minha 12.ª. Estou bem animado.

Você acabou recusando dois papéis nas últimas novelas de João Emanuel Carneiro (A Favorita e Avenida Brasil). Pretende trabalhar com ele em breve?

Pretendo, claro. Acho ele muito talentoso, gosto muito do que ele faz. Quando fui convidado, não pude ou porque já tinha outra novela fechada, ou por outras questões. Mas trabalhei muito com a Maria Adelaide Amaral, com o Gilberto Braga. Estou aberto.

Assim como ocorreu com A Grande Família, Tapas & Beijos teve o fim programado e termina este ano. Você acha que a série deu o que tinha que dar?

A Grande Família é sobre uma família, o que dá milhões de possibilidades de roteiro. Você pode discutir o pai, depois discute a filha... No Tapas você tem, basicamente, a história de dois casais. Já fizemos tudo que era possível. Já brigamos, ficamos juntos, terceirizamos. Achamos que este ano, que é o nosso quinto, seria um ano bom de parar. Não temos muito mais pra onde ir. Optamos por acabar com a série em um momento produtivo, de sucesso. Acho que foi bom. Vamos terminar com cerca de 170 capítulos, que é o tamanho de uma novela. É bastante tempo para falar sobre histórias de amor.

Você também está no projeto de um filme...

É do José Eduardo Belmonte, se chama A Magia do Mundo Quebrado. Gravei no ano passado. A história é sobre um pai e um filho que saem em busca da mãe e acabam encontrando um grupo de quatro operadoras de telemarketing viajando de férias em um motor-home. E quem fez o filho foi o meu próprio filho (João Assunção)! Foi incrível. Ele tem 11 anos, se divertiu muito nas gravações. Devemos lançar o filme no próximo mês.

Você também estava cotado para participar de um musical.

Era um outro projeto que eu tinha, mas não pude continuar porque tomei a decisão de fazer a novela. Como era na mesma época, acabei abrindo mão do musical, que é um grande espetáculo, com direção do Miguel Falabella. Com a novela, vou ter de passar 95% do meu tempo no Rio. Vai mudar minha dinâmica de vida.

Em 2015, você completa 25 anos de carreira como ator. Que balanço você faz? Esperava atingir a fama que atingiu?

É difícil falar sobre si mesmo. O fato de eu me tornar conhecido tem a ver com a dinâmica da TV. Mas, na minha trajetória no teatro, há muitas coisas que ainda quero fazer. Preciso me exercitar mais, acho que tenho um caminho para descobrir no teatro. Estou adorando dirigir e, se possível, quero uma terceira peça. É claro que cada trabalho dá uma bagagem maior, mas, como diretor, ainda estou descobrindo minhas possibilidades. Acho que sou bem-sucedido, mas há muito a aprender.

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